O décimo terceiro módulo da experiência "Português do Brasil", intitulado " Um minuto pro comercial! (de 1960 a 1987)”, aborda a introdução e expansão da televisão no cotidiano dos brasileiros e o período que compreende a Ditadura Civil Militar Brasileira, bem como a retomada da democracia a partir de 1985. Este módulo apresenta vídeos do programa do Chacrinha, um cartaz do filme Terra em Transe de Glauber Rocha, introduzindo o movimento Tropicalista, e fotografias de protestos para a retomada da democracia no Brasil.

Texto Expositivo 1 / Comercial

Em todo o mundo, as décadas de 1960 e 1970 foram marcadas pela expansão dos meios eletrônicos de comunicação de massa e por grandes inovações na língua falada e escrita. A publicidade e as formas de comunicação rápida tiveram forte influência na transformação da língua portuguesa do Brasil. A literatura, as artes plásticas, a música, o teatro e o cinema renovaram-se, exercitando novas linguagens e formas de
expressão. Foi um período marcado por um acelerado processo de urbanização, com grandes fluxos migratórios das áreas rurais para as cidades, especialmente do nordeste em direção ao sudeste e ao sul do país. Inaugurada na década anterior, a televisão recebeu apelidos de “tevê” ou “TV”, sua sigla internacional, e ganhou a boca do povo. É impossível pensar o país dessas décadas sem falar nela. Por meio da TV e da mistura regional no caldeirão urbano, cada vez mais o português culto dialogava com o popular.

Vozes urbanas

Nos anos 1970 a população brasileira deixou de ser rural tornandose predominantemente urbana. Se no início da década 56% da população vivia em cidades, hoje essa marca já ultrapassa os 85%. Atraídos por melhores condições de vida e de trabalho migrantes nordestinos dirigiram-se para os grandes centros urbanos do Sudeste. Originários de diferentes localidades e expressando-se em grande variedade linguística os migrantes carregaram consigo maneiras de se expressar palavras e sotaques. Nos grupos familiares ou regionais os falares dos mais velhos se mantiveram, enquanto seus filhos e filhas, integrados ao sistema educacional, foram se ajustando à língua falada nas cidades, alimentando-a e modificando-a.

Fazer a cabeça

A gíria em geral aparece e é usada por determinado grupo social minoritário que através de suas marcas linguísticas cria elementos de identificação. Com o tempo a gíria é incorporada à linguagem comum ela deixa de representar o grupo de origem. Muitas vezes as gírias se espalham através das letras das canções populares e no falar informal da juventude. Até os anos 1950, grande parte da gíria brasileira era de procedência argentina, com termos trazidos nas letras de tango, como “bacana” e “otário”. Outro exemplo é “fazer a cabeça”. Originária do candomblé da Bahia, a expressão designa um ritual de iniciação aos segredos do culto. Nos anos
1970 passou a ser usada com o sentido de “convencer uma pessoa a fazer algo”. Muitas outras gírias se popularizaram nesse período, tais como: entrar pelo cano (darse mal), joia (tudo bem, ótimo), podes crer (é isso aí, pode acreditar), gata (mulher bonita), legal (muito bom) e papo furado (conversa boba, mentirosa).

Ninguém segura esse país

Com a televisão e a urbanização, a década de 1970 viveu a expansão da publicidade e da propaganda. Tempo de anunciar e de vender. Concisão de texto e imagem slogans de fácil memorização clareza e rapidez das
mensagens são formas da comunicação publicitária usadas para persuadir o consumidor assim como o humor as gírias e a linguagem informal. Os órgãos de propaganda oficial do governo também desenvolveram campanhas de massa. Criando um clima de “ninguém segura esse país” o otimismo e a confiança se generalizaram quando o Brasil se tornou tricampeão mundial de futebol trazendo a taça Jules Rimet para casa. Slogans políticos e educativos espalhavam-se pelas ruas em outdoors bancas de jornais e eram exibidos em propagandas de televisão. Por outro lado cartuns e charges com críticas ao governo que eram distribuídos em
panfletos ou publicados em tabloides alternativos.

Propaganda

A palavra provém do latim propagare, verbo que quer dizer propagar, multiplicar, divulgar, estender, alargar, aumentar. Propaganda, significa literalmente “as coisas que devem ser propagadas”. Tornou-se conhecida a partir da expressão latina Congregatio de propaganda fide que quer dizer “Congregação sobre a fé que deve ser propagada”, criada pelo Papa Gregório XV com o objetivo de regular a difusão do Evangelho em 1622. Chegou ao português, provavelmente no século XVIII, já com seu sentido moderno: a difusão de mensagens (texto, imagem, música), exaltando as qualidades de algo ou de alguém. Essas mensagens podem se destinar tanto à indução ao consumo de algum objeto ou serviço, como à divulgação de informações e disseminação de ideias, crenças, religiões... ou boatos e notícias falsas. São anúncios especialmente criados para veiculação através de meios de comunicação de massa (televisão, jornal, revista, outdoor, banner, correio eletrônico,
redes sociais etc). Hoje em dia, no mundo digital, os posts e os memes também cumprem essa função.

A língua da tevê

A partir de 1970 a programação televisiva transmitida para todo o território nacional teve inegável impacto na conformação do Brasil. Telenovela, jornalismo, musicais, infantis, humorísticos: a TV na sala de estar nos bares e praças públicas tornou-se o principal veículo de diversão de informação e de consumo para a maioria das famílias brasileiras. Assim como o rádio e a música popular a televisão teve papel preponderante na construção de uma integração nacional e para a padronização das formas de falar e de ser. Por um lado, a tevê promoveu a
diversidade tornando sotaques regionais e particularidades culturais conhecidos de todos. Da mesma maneira os falares de São Paulo e do Rio de Janeiro – onde a maioria dos programas era produzida – passaram a ser ouvidos de norte a sul constituindo um novo padrão a ser reproduzido. A explosão da televisão promoveu a
generalização do falar coloquial.

Democracia

No fim da década de 1980 o país caminhava para uma abertura política lenta e gradual. Depois da campanha pela anistia ampla geral e irrestrita criou-se uma abrangente frente política e social pela redemocratização do país. O ponto culminante desse processo aconteceu em 1984 quando milhões de pessoas se mobilizaram na
campanha pelas “Diretas Já” em manifestações pelas ruas das cidades brasileiras. Uma palavra criada nesse período, um neologismo que veio para ficar, é “showmício” – justaposição do inglês show + (co)mício, do latim comitium.

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