Descrição
O vídeo é um recorte do DVD "Chico e as cidades" de Chico Buarque, no qual ele canta a música "Construção", de sua autoria.
Letra da música:
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Contexto de produção
A canção "Construção" (1971), de Chico Buarque, é uma obra-prima que sintetiza as contradições do Brasil sob a ditadura militar, em pleno processo de acelerada urbanização. A música retrata a trajetória fatal de um operário de construção civil, uma figura emblemática dos grandes fluxos migratórios do Nordeste para o Sudeste, que transformaram o perfil populacional do país na década de 1970.
A letra da canção opera uma sofisticada inovação linguística. A estrutura métrica rigorosa e o deslocamento sintático do último verbo de cada estrofe para a linha seguinte (“telegráfico”, “bêbado”, “pacífico”) criam um ritmo que espelha a mecânica e a desumanização do trabalho industrial. Essa experimentação formal dialoga com a renovação das linguagens artística e publicitária da época, utilizando a técnica para criticar a realidade social.
Enquanto a propaganda oficial do "Milagre Econômico" difundia um clima de otimismo com slogans como "Ninguém segura este país", "Construção" desvela o custo humano desse progresso. A narrativa do trabalhador que, após ser explorado, morre no ambiente de trabalho e é tratado como um obstáculo no tráfego, é uma contundente denúncia da violência estrutural contra o migrante na grande cidade.
Assim, a canção vai além de um retrato social. Ela é um artefato linguístico e político de resistência. Num contexto em que a televisão começava a padronizar o falar coloquial, Chico Buarque usou a língua portuguesa com precisão cirúrgica para construir uma metáfora potente sobre a fragilidade da vida humana diante de um projeto de nação excludente e autoritário, antecipando o anseio por democracia que explodiria na campanha das Diretas Já.