O décimo primeiro módulo da experiência "Português do Brasil", intitulado " Língua que levo comigo (séculos XIX e XX)”, aborda a chegada de imigrantes, sobretudo dos imigrantes italianos ao Brasil. Este módulo apresenta vídeos com especialistas, uma mala de Imigrante em madeira, fotografias e jornais sobre a chegada dos imigrantes ao Brasil.

Texto Expositivo 1 / Língua que levo comigo

O Brasil é um país de imigrantes. Desde os primórdios, nossas terras foram povoadas por imigrantes de origens, etnias, culturas e línguas muito diferentes. Embora uma parte tenha vindo por vontade própria, até a metade do século XIX a grande maioria veio forçada através do comércio de africanos escravizados. Com o fim do tráfico e da escravidão, seguiram-se fluxos migratórios de trabalhadores livres europeus e asiáticos. Entre 1850 e 1950, movidos por dificuldades econômicas, conflitos étnicos e guerras, sem condições de permanecer em seus países ou desejosos de melhorar de vida, milhões de italianos, alemães, japoneses, sírios e libaneses, chineses, poloneses, entre outros, instalaram-se no Brasil. Os imigrantes e seus descendentes criaram raízes, tornando-se brasileiros, e muitos de seus traços linguísticos foram incorporados ao modo de falar o português nas terras brasileiras.

Braços estrangeiros

Durante o século XIX, a Europa viveu grande turbulência econômica e política. Populações da Itália, Espanha, Portugal e Alemanha sofriam com o desemprego, a pobreza, a fome e a emigração era uma das alternativas de sobrevivência. Em 1880, o Brasil tornara-se o maior produtor e exportador de café do mundo e as lavouras necessitavam de grandes contingentes de trabalhadores. Com a iminência da abolição, para substituir os escravizados, que eram a base da economia, os grandes proprietários rurais procuravam uma mão de obra barata. Havia também um pensamento corrente nas classes dominantes no país, fundado no preconceito, de que era preciso promover o “branqueamento” da população nacional, majoritariamente negra. Acreditaram também que os chamados “grandes vazios” de terras no interior do território precisavam ser colonizado por pessoas experientes na lavoura. Assim, com o incentivo e o financiamento do Estado, o Brasil começou a receber os imigrantes da diáspora europeia.

Vozes imigrantes

Jornais escritos em diversas línguas, circulavam nas comunidades de imigrantes no começo do século XX. Traziam informações sobre documentos e leis, notícias sobre os países de origem e faziam publicidade de seus negócios. Esses jornais tinham também um importante papel político. Era o caso, por exemplo, dos jornais dos anarquistas e socialistas, movimentos ligados aos operários italianos que haviam se engajado nas indústrias e manufaturas de São Paulo.

Vida nova

Nos portos, navios e hospedarias, tudo é desconhecido, diferente, especialmente a língua. Para atravessar continentes e oceanos, o imigrante leva uma ou duas mudas de roupa, um cobertor, objetos de uso pessoal, uma carta de recomendação, algum dinheiro, uma relíquia, uma foto de família, o instrumento de seu ofício.

Em trânsito

Quase 5 milhões de imigrantes entraram no Brasil entre 1850 e 1950. A maioria deles ficou em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estabelecendo-se em colônias rurais. Depois de algum tempo, porém, muitas famílias transferiram-se para as cidades, modificando a fisionomia e a composição urbana do Brasil. Até a Primeira Guerra Mundial, portugueses e italianos compuseram os maiores fluxos migratórios, sendo seguidos por espanhóis, alemães, sírio-libaneses e japoneses. No período entreguerras, chegaram poloneses, russos, ucranianos, lituanos, além de judeus de diferentes origens, fugindo do nazifascismo. Após a Segunda Guerra, o Brasil começou a receber refugiados asiáticos, como chineses e coreanos.

Cipango

A mulher, nada feia, está à beira do rego, com o menino. Lavam e luzem os pimentões, que levarão amanhã à feira, lustram os nabos
e abóboras, um por um, esfregando-os com escovas.
 Ela se chama – Fumiko, Mitiko, Yukiko, Kimiko, Kazúmi, Natsuko ou Hatsuko? – e com belos dentes. Como foi que se casou com Setsuo Sakamota? Namoraram? – Não, namoro não. Ele quis eu, falou com p’pai. Deu “garantia”...– Garantia em dinheiro? Pagou? – Pâgou, pâgou. Japonês usa...– E gosta dele? – Bom. Munto târâbârâdor. Trâbâra todo dia. Trâbâra noite...– Mas, e o amor – Amor, sim, munto. Primero casa, depois amor vem. Amor, devagarazinho, todo dia amor mais um pouco... Bom… – Simples, bom, viemos, ricos regressamos. Tanto que: – Banzai, banzai, Nippon! João Guimarães Rosa.

Tchau!

Com a imigração, a língua portuguesa do Brasil foi assimilando novos vocábulos, expressões e modos de falar estrangeiros. Ao longo do século XX, muitos deles se generalizaram pelo país. A palavra italiana “ciao”, por exemplo, tornou-se uma das mais comuns da língua portuguesa: tchau. Em italiano, “ciao” é uma saudação informal utilizada tanto na despedida como na chegada. No Brasil, ela só é empregada em situações de despedida. Em sua origem antiga, “ciao” é abreviação em dialeto vêneto que equivaleria ao italiano padrão “sono suo schiavo”, que quer dizer "eu sou escravo", no sentido de "estou a sua disposição".

Falar cotidiano

Com os imigrantes, a língua portuguesa do Brasil foi assimilando novas palavras, expressões, estruturas e modos de falar. Em São Paulo, por exemplo, que recebeu os maiores contingentes de italianos, o português foi se misturando ao seu falar cotidiano, criando uma nova língua, uma espécie de ítalo-paulistano, resultante dos esforços mútuos da comunicação entre italianos e brasileiros.

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