O décimo segundo módulo da experiência "Português do Brasil", intitulado "Alô, alô, Brasil! (de 1922 a 1960)”, aborda a introdução e popularização do rádio no Brasil, tornando-se a época, um dos principais meios de comunicação do Brasil. Este módulo apresenta vídeos de cantoras do rádio, um aparelho Radiofônico, uma réplica da obra Operários de Tarsila do Amaral e textos que remetem a popularização a língua francesa e inglesa no Brasil.

Texto Expositivo 1 / Alô

A partir do início do século XX, uma série de mudanças importantes e cada vez mais rápidas marcou a cultura e a língua do Brasil. A chegada dos imigrantes, a industrialização e um deslocamento crescente de milhares de brasileiros de áreas rurais para os centros urbanos transformaram radicalmente a feição do país. As cidades cresceram. Bondes e automóveis tomaram suas ruas. O rádio tornou-se um objeto indispensável nas casas, transmitindo notícias e anunciando novos bens de consumo. As fábricas se multiplicaram e os operários organizaram seus sindicatos. Milhares de quilômetros de novas rodovias deram início à integração do vasto território nacional. Uma nova capital foi projetada no centro do país. Em meio a todas essas mudanças, a língua portuguesa circulava como nunca. Por ondas de rádio e por fios telefônicos, atravessando rios e estradas, ia intercambiando palavras, confrontando falares e sotaques, misturando-se cada vez mais intensamente.

Originalidade brasileira

Em fevereiro de 1922, um grupo de artistas de vanguarda realizou em São Paulo a Semana de Arte Moderna, um dos marcos simbólicos da modernização do país no início do século XX. O movimento, liderado por artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Heitor VillaLobos, entre outros, representou uma revolução na literatura, nas artes plásticas e na música no país. Uma mudança de rumos no pensamento e na cultura apontava para um novo olhar sobre o Brasil e seu povo. Os modernistas propuseram uma originalidade brasileira para a língua, mais próxima da fala e mais rebelde à gramática tradicional. O poema “Vício na fala”, de Oswald de Andrade, por exemplo, ironiza o preconceito linguístico contra a fala popular: Para dizerem milho dizem mio/ Para melhor dizem mió/ Para pior pió/ Para telha dizem teia/ Para telhado dizem teiado/ E vão fazendo telhados. Oswald de Andrade

Febre nacional

No início da radiofonia no Brasil, as emissoras apresentavam música clássica, ópera e textos eruditos. A partir de 1932, o governo autorizou a veiculação de propaganda. Surgiram então os programas de entrevistas, humor e música popular, e depois as transmissões esportivas, radionovelas e os programas de calouros. Era uma febre nacional. As maiores emissoras tinham cantores exclusivos, que atraíam animados fã-clubes. A canção popular firmou-se assim no panorama musical do Brasil moderno.

As palavras proibidas

Em 1937, o presidente Getúlio Vargas e seus aliados deram o golpe que criou o Estado Novo, uma ditadura que só terminaria em 1945. A radiofusão era uma das maiores preocupações de Vargas e do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), responsável por censurar qualquer voz que se opusesse ao governo. Para controlar a população, Vargas monopolizou a audiência das rádios, estatizando a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, transformando-a na rádio oficial do governo e líder de audiência no país. O DIP entregava mensalmente à imprensa uma lista de temas proibidos, como "Nenhuma notícia sobre escassez de peixe no país", "Nada sobre a União Nacional dos Estudantes", ou "Nada assinado por Oswald de Andrade". Havia também palavras proibidas, como União Soviética e amante. Era proibido dizer, por exemplo, "amante da música".

Jeans, chiclete e rock'n roll

Na Era do Rádio, a partir da década de 30, muitas palavras do inglês começaram a ser difundidas entre nós pelo novo veículo de massa. Algumas já chegavam aportuguesadas, como "alô", do inglês "hello". Outras
mantiveram a forma original durante algum tempo, como "speaker" (locutor), "cast" (elenco) e "broadcast" (transmissão). Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), uma aliança política entre Brasil e Estados Unidos estimulou a entrada de novos hábitos de consumo no país. A Coca-Cola, por exemplo, começou a ser
fabricada em Recife em 1941, para matar a sede e a saudade dos soldados que passavam pela base norte-americana na região, mas também virou mania entre os brasileiros. A vitória dos Estados Unidos na guerra aumentou ainda mais sua influência no mundo. Jeans, chicletes e rock'n roll; business e bangue-bangue: o estilo de vida norte-americano virou objeto de desejo por toda parte. Mais recentemente, a
tecnologia dos computadores e dos smartphones inundaram o português de dezenas
de novas palavras do inglês, como "deletar", "chat" e "selfie".

Sertão

A palavra "sertão" tem origem obscura. Alguns etimólogos dizem que viria de "desertão", mas provavelmente essa seja uma etimologia fantasiosa. No Brasil, a palavra remete ao vasto espaço do interior do país. "Uberlândia era a boca do sertão", diz Orlando Villas-Boas, um dos líderes da Marcha para o Oeste - iniciativa do governo Vargas para ocupar a região centro-oeste na década de 1940. No Brasil modernizante do século XX, o sertão era lugar de atraso e barbárie primitiva. Do sertão vinham os "retirantes", os trabalhadores rurais que fugiam das secas da caatinga nordestina; vinham histórias de personagens como Antônio Conselheiro, da Guerra de Canudos, narrada por Euclides da Cunha no livro "Os Sertões" (1902); ou o cangaceiro Lampião
e seu bando, metralhados e degolados por policiais em 1938. Mas o sertão também podia representar o lugar da autenticidade, onde o Brasil era mais Brasil. Afinal, era de lá que vinham os ritmos de Luiz Gonzaga e a língua do "Grande sertão: veredas" (1956), de Guimarães Rosa.

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