O décimo módulo da experiência "Português do Brasil", intitulado " A travessia dos Orixás (século XIX)”, aborda a chegada de africanos ao Brasil e a continuidade dos seus ritos de fé. Este módulo apresenta vídeos com especialistas, uma Tábua de Ifá, com seu respectivo objeto de acessibilidade, fotografias de Pierre Verger de entidades das religiões de matriz africana e textos sobre essas divindades. Esse módulo possui conexões com o totem Eve-Fon da experiência Palavras Cruzadas.

Texto Expositivo 1 / A travessia dos Orixás

No início do século XIX, uma nova rota do tráfico, ligando o Brasil ao golfo do Benim, na África, trouxe ao país milhares de africanos. Muitos deles tinha origem iorubá. Levados principalmente para a cidade de Salvador e o Recôncavo Baiano, eles foram utilizados, em sua maioria, como mão-de obra escravizada em serviços urbanos e domésticos. Mantendo-se fiéis aos ritos que celebram seus deuses – os orixás –, os iorubás ampliaram ainda mais a influência africana sobre nossa língua e cultura. Em 1850, o Brasil finalmente proibiu o tráfico. A escravidão só viria a ser abolida em 1888, após longo período de lutas e rebeliões. Apesar dos séculos de cativeiro, a força africana, em sua potência humana e cultural, prevaleceu. E os negros converteram-se em agentes vitais do processo histórico de nossa formação, povoando o Brasil com os seus corpos e as suas cores, os seus sonhos e os seus deuses, os seus ritos e os seus ritmos, os seus conhecimentos e saberes ancestrais milenares.

Iorubá ou nagô

Os iorubás habitam o sudoeste da Nigéria e a região fronteiriça com o Benim, no reino de Ketu, tendo grupos espalhados também pelo Togo. Constituído por mais de 30 milhões de pessoas, é um dos maiores grupos etnolinguísticos da África Ocidental. Antes mesmo de qualquer contato com os europeus, os iorubás já possuíam um notável grau de urbanização e conheciam a economia monetária, a metalurgia, a escravidão, formações estatais. Suas principais cidades, como Oyó e Ifé, abrigavam milhares de habitantes. Também chamados de nagôs, na diáspora – beninense e brasileira – os iorubás deram nova feição à cidade de Salvador, na Bahia, onde, junto com os jejes, fundaram o modelo do candomblé jeje-nagô, o mais prestigioso do Brasil.

Abaixo a escravidão!

Na década de 1880, trinta anos após a proibição do tráfico, o abolicionismo havia tomado as ruas do país. Jornais e panfletos divulgavam os horrores da escravidão, defendendo o seu fim. Como símbolo do movimento, os abolicionistas passaram a levar camélias brancas no paletó. Cultivar a flor em casa também se tornou um gesto político. Concessões feitas pelos donos do poder, como a Lei do Ventre Livre ou a Lei dos Sexagenários, não abalavam a determinação dos abolicionistas. No campo, rebeliões escravas estouravam por toda parte.
Insustentável, a situação permaneceu até o dia 13 de maio de 1888, quando finalmente foi decretado o fim do cativeiro. E o Brasil entrou para a História como um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão.

Livres, mas excluídos

Depois de promulgada a lei, encerrados os festejos e terminada a euforia, a discussão era de que maneira o governo poderia garantir uma vida digna aos ex-escravizados. Um dos programas abolicionistas propunha a
distribuição de pequenas propriedades. Outro defendia a inserção dos exescravizados nas cidades, com direitos sociais como acesso à educação e limitação da jornada de trabalho. Apesar das propostas, nada foi feito. Ao contrário, nos anos iniciais do Brasil republicano, aumentou a repressão policial sobre os candomblés, batuques, sambas, rodas de capoeira e qualquer outra manifestação afro-brasileira. As promessas de integração se degeneraram em uma profunda exclusão social, perpetuando até hoje desigualdades econômicas, políticas e raciais.

Todo mundo gosta de acarajé

"Era eu menino e já me impressionava o pregão da negra vendedora de acarajé. Quanto mais distante mais me parecia um lamento. O pregão era em nagô, [uma das línguas faladas pelos] negros, e enchia-me os ouvidos de música e de nostalgia: 'Ô acarajé ecó olalai ó', e continuava em português 'Vem benzê-ê-em, tá quentinho', para logo marcar o abará: 'Iê abará'. Não havia noite que eu não ouvisse. A negra era pontual com seu tabuleiro pela minha rua: pelas 10 horas da noite ela passava. E além do pregão, ela, ao descansar o tabuleiro pra vender o acarajé apimentado e o abará, costumava dizer aquilo que, anos depois, eu tomaria para a letra da música que fiz. Era quase um resmungo: 'Todo mundo gosta de acarajé, mas o trabalho que dá pra fazer é que é'. " Dorival Caymmi (1914-2008)

Iemanjá

Segundo o antropólogo Pierre Verger, o nome "Iemanjá" vem da expressão iorubá Yèyé ọmọ ẹjá, que significa "mãe cujos filhos são peixes". Orixá mais popular do Brasil, Iemanjá é celebrada em todo o país, com festas que recaem em diferentes épocas do ano, dependendo da região. No Rio de Janeiro e muitas outras cidades
litorâneas, as homenagens acontecem na última noite do ano. Em Salvador, na Bahia, a grande festa é em 2 de fevereiro, quando milhares de devotos vão à Praia do Rio Vermelho pedir graças e oferecer flores e presentes ao mar.

Itens relacionados 17 items

ver todos 17