O sétimo módulo da experiência "Português do Brasil", intitulado Vozes da África (Séculos (XVI a XVIII) que aborda a passagem da mão de obra indígena para a africana e as violações do processo de escravização dos africanos, por mais de 300 anos. O módulo também aborda as principais línguas de diáspora africana, como o Quicongo, Quimbundo e Umbundo, que são línguas que também estão presentes na experiência Palavras Cruzadas. Este módulo apresenta acervos como a escultura Nkisi, mapas animados e imagem de africanos e crioulos no Brasil.

Texto Expositivo 1 / Vozes da África

Durante o século XVI, o comércio de açúcar tornou-se um negócio muito lucrativo na Europa, e os portugueses resolveram introduzir o cultivo da cana no Brasil. Após tentativas fracassadas de usar os indígenas nas plantações, os senhores de engenho começaram a trazer à força africanos que foram escravizados. Por mais de 300 anos, o tráfico entre Brasil e África trouxe para este lado do Atlântico cerca de 4,9 milhões de africanos, 70% deles trazidos da África Centro-Ocidental, região ocupada hoje por países como Congo e Angola. Falavam, quase todos, línguas do grupo banto, principalmente o quicongo, o quimbundo e o umbundo. A presença maciça dos povos bantos foi o principal agente modelador da língua portuguesa no Brasil, imprimindo-lhe uma nova musicalidade e centenas de novas palavras e expressões.

Povos ancestrais

Os bantus habitam toda a extensão do continente africano ao sul da linha do equador. Esse território corresponde a 21 países e a centenas de línguas, todas derivadas de um ancestral comum, o protobantu, uma língua que foi reconstruída e que, hipoteticamente, teria sido falada há mais de quatro milênios. Os bantus têm uma longuíssima história de migração pelo continente africano. Peças de grande beleza e apuro técnico foram encontradas na região do Rio Congo indicam que desde 100 AEC, alí já se conhecia a tecnologia da fundição de metais e se dominava a arte de marcenaria e da tecelagem de fibras. No século XV, quando os portugueses chegaram à África, encontraram reinos grandes e poderosos, entre eles o do Congo, dos reis designados como "Manicongo"; o de Ndongo, cujos reis recebiam o título de "Ngola" (de onde veio o nome Angola); e o reino de Matamba, de Nzinga Mbandi (1580-1663), a mítica Rainha Jinga.

Os tumbeiros

Esse era o nome dado aos navios que faziam o tráfico de escravizados entre África e Brasil. “Tumbeiro” vem de tumba, pois a travessia, que durava de um a dois meses, levava à morte até um quarto dos prisioneiros embarcados. Em navios superlotados, eles eram jogados às centenas nos porões, em condições desumanas. A quantidade de comida era deliberadamente racionada, para evitar a resistência e as rebeliões. Segundo relato de Johann Moritz Rugendas (1802-1858), pintor alemão que viveu no Rio de Janeiro, os negros eram "amontoados num compartimento cuja altura raramente ultrapassa cinco pés [1,5 metro]. Todos, principalmente nos primeiros tempos da travessia, têm algemas nos pés e nas mãos e são presos uns aos outros por uma comprida corrente".

As marcas da escravidão

“Nenhum povo que passasse por tudo isso como sua rotina de vida através de séculos sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós, brasileiros, somos carne daqueles pretos e [indígenas] supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos.” Darcy Ribeiro.

A língua das minas

A partir do fim do século XVII e ao longo do século XVIII, a descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil levou os comerciantes de escravizados a buscar africanos experientes em mineração na Costa da Mina, uma região aurífera no Golfo de Benim. Assim se iniciou o tráfico dos povos que falavam línguas do grupo gbe – como mina, eve, fon, gun, gen, entre outras. No Brasil, os povos eve e fon foram chamados de "jeje". A concentração desses indivíduos nas cidades mineradoras, sobretudo em Minas Gerais, facilitou o desenvolvimento de uma língua franca, o dialeto das minas, utilizada na primeira metade do século XVIII em Vila Rica. Esse falar foi registrado por Antônio da Costa Peixoto no manuscrito Obra Nova da Língua Geral de Mina. Em 46 páginas, escritas em duas etapas (1731 e 1741), o autor apresenta um manual para ensinar a “língua de mina” aos senhores de escravos, um A partir do fim do século XVII e ao longo do século XVIII, a descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil levou os comerciantes de escravos a buscar africanos experientes em mineração na Costa da Mina, uma região aurífera no Golfo de Benim. Assim se iniciou o tráfico dos povos que falavam línguas do grupo gbe – como mina, eve, fon, gun, gen, entre outras. No Brasil, os povos eve e fon foram chamados de "jeje". A concentração desses indivíduos nas cidades mineradoras, sobretudo em Minas Gerais, facilitou o desenvolvimento de uma língua franca, o dialeto das minas, utilizada na primeira metade do século XVIII em Vila Rica.
Esse falar foi registrado por Antônio da Costa Peixoto no manuscrito Obra Nova da Língua Geral de Mina. Em 46 páginas, escritas em duas etapas (1731 e 1741), o autor apresenta um manual para ensinar a “língua de mina” aos senhores de escravizados, um documento precioso que atesta que, para comunicação na região das minas, foi utilizada uma língua veicular.

Samba

Os etimólogos são unânimes em apontar a origem da palavra "samba" nas línguas bantas. Segundo a teoria mais popular, samba viria do quimbundo samba ou semba, que significaria um tipo de dança semelhante ao batuque, em que os bailarinos dão umbigadas um no outro. Alguns anos atrás, no entanto, a etnolinguista Yeda Pessoa de Castro propôs outra origem. Segundo ela, "samba" vem do verbo (ku)samba, que significa "rezar" e existe tanto em quicongo quanto em quimbundo. Assim, a palavra teria sua origem nos terreiros. Só mais tarde teria passado a significar a dança de roda e sua música e, no início do século XX, um novo gênero de canção popular brasileira. "Quando Noel Rosa, nos anos 30, compôs um samba em Feitio de oração, e, trinta anos mais tarde, Vinicius de Moraes, em Samba da bênção, afirma que fazer samba é uma forma de oração, ambos reiteraram algo absolutamente correto do ponto de vista do significado original da palavra", afirma Yeda.

Quilombos e calundus

Durante os séculos da escravidão, a religião e a fuga foram maneiras de resistir à perda de identidade do cativeiro. "No segredo dos calundus" ou "no isolamento armado dos quilombos", os escravizados buscavam "preservar os valores vitais herdados dos antepassados", afirma o sociólogo Roger Bastide. Os calundus foram "os primeiros templos do culto candomblezeiro que se implantou no Brasil", diz o antropólogo Antonio Risério. Já os quilombos, chamados inicialmente de "mocambos", foram uma constante até o fim da escravidão, no século XIX. A experiência mais conhecida é a de Palmares, em Alagoas. Maior comunidade de escravizados fugidos na América portuguesa, foi também a que sobreviveu por mais tempo, entre 1597 e 1695. No auge de seu crescimento, Palmares chegou a abrigar 20 mil habitantes, incluindo africanos e indígenas. O quilombo e seu maior líder, Zumbi (1655-1695), transformaram-se em símbolos da luta dos escravizados e das populações negras de todo o Brasil.

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