O quinto módulo da experiência "Português do Brasil", Terra Brasilis (1500), retrata a chegada dos portugueses ao Brasil e seu primeiro contato com os indígenas nativos do território. Este módulo inclui vídeos com especialistas que discutem o tema, gravuras e desenhos que representam a percepção dos portugueses sobre a terra encontrada, mapas ilustrados com os povos que aqui habitavam e um fac-símile da carta de Pero Vaz de Caminha.

Texto Expositivo 1 / Terra Brasilis

No dia 9 de março de 1500, a expedição do fidalgo Pedro Álvares Cabral com destino à Índia deixou o porto de Lisboa. Sua armada contava com dez navios e uma tripulação de cerca de mil homens. Pouco mais de um mês depois, avistaram sinais de terra. Os navegantes logo viram que não se tratava da Índia, mas talvez de uma
nova ilha, ou quem sabe outro continente. Ao desembarcar, toparam com uma gente diferente, que falava uma língua desconhecida. Ficaram ali dez dias, antes de retomar a viagem ao Oriente. Sabemos o que aconteceu nesses dias graças a um relato detalhado feito pelo escrivão da caravela de Cabral – Pero Vaz de Caminha
endereçada ao rei de Portugal. Sua Carta a El-Rei Dom Manuel, escrita em 1º de maio de 1500, é o primeiro relato sobre a terra que viria a se chamar “Brasil”.

A carta

Senhor: Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os
outros capitães, escreveram a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra
nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar minha conta a
Vossa Alteza.
Quarta-feira, 22 de abril
Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande
monte, mui alto e redondo.
Quinta-feira, 23 de abril
Pela manhã, fizemos vela e lançamos âncoras em frente à boca de um rio. Já ali havia
dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes
cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas.
Sábado, 25 de abril
Ali andavam três ou quatro moças, com cabelos muito pretos e compridos, e suas
vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem
olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.
Domingo, 26 de abril
Além do rio, andavam muitos deles, dançando e folgando. Passou-se então além do
rio Diogo Dias; e levou consigo um gaiteiro nosso. E meteu-se com eles a dançar,
tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao
som da gaita.
Segunda-feira, 27 de abril
Traziam uns ouriços verdes cheios duns grãos vermelhos pequenos que, esmagados
entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, de que eles andavam tintos. E quanto
mais se molhavam, mais vermelhos ficavam.
Terça-feira, 28 de abril
Enquanto cortávamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande Cruz. Muitos deles
vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais por verem a ferramenta
de ferro do que por verem a Cruz, porque eles não têm coisa que de ferro seja.
Quinta-feira, 30 de abril.
Andavam já mais mansos e seguros entre nós, do que nós andávamos entre eles.[...]
Se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem,
não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer
ciristãos, [...] porque esta gente é boa e de boa simplicidade.
Esta terra de ponta a ponta é tudo praia-palma, muito chã e formosa. Águas são
muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á
nela tudo, por bem das águas que tem.
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de
maio de 1500.

Brasil

“Brasil” não foi o primeiro nome que os portugueses deram à terra que haviam acabado de achar. Cabral batizou-a de “Ilha de Vera Cruz” e logo depois Dom Manuel, o rei de Portugal, mudou o nome para “Terra de Santa Cruz”. Mas aos poucos “Brasil” foi ganhando a preferência geral. Etimólogos afirmam que a palavra "brasil" significa "vermelho, cor de brasa" e vem de "pau-brasil", nome da árvore (Caesalpinia echinata)
cuja madeira, de cerne vermelho, extrai-se a tintura dessa cor. Assim, o nome do país teria se originado do primeiro produto local comercializado pelos portugueses. Mas há uma segunda hipótese: mapas-múndi europeus do século XIV já estampavam o nome Brasil para representar terras desconhecidas em suas geografias, ainda em grande parte imaginárias. Na mesma época, uma lenda irlandesa falava de uma ilha
paradisíaca situada em algum ponto do oceano Atlântico e chamada “Hy-Brasil”. Assim, o futuro país Brasil teria ganhado o nome deste lugar mítico, já presente no vocabulário dos europeus muito antes da viagem de Cabral.