Registro audiovisual de depoimento de Clarice Lispector no qual a escritora discorre de maneira espontânea e reflexiva sobre aspectos de sua origem familiar, trajetória literária, processo criativo e recepção crítica de sua obra. Ao comentar a origem de seu sobrenome, Lispector menciona sua ascendência ucraniana e relata que o nome teria sofrido transformações ao longo de gerações, evocando a sonoridade latina que chamou a atenção da crítica quando de sua estreia literária. Recorda que, ao publicar seu primeiro livro, foi considerada por Sérgio Milliet uma autora de “nome desagradável”, supostamente pseudônimo, episódio que ilustra tanto o estranhamento inicial diante de sua escrita quanto sua condição de jovem autora ainda desconhecida.
No depoimento, aborda sua vida pessoal, incluindo o casamento com um diplomata brasileiro, circunstância que a levou a residir no exterior e a manter certa distância do meio literário brasileiro nos primeiros anos de publicação. Revela também aspectos pouco conhecidos de sua formação familiar, como a descoberta tardia de que sua mãe escrevia diários e poemas, além da atuação literária de suas irmãs, Elisa Lispector e Tânia Kaufman. Ao rememorar a infância, afirma que antes mesmo dos sete anos já inventava histórias, descrevendo-se como alguém que fabulava narrativas intermináveis, e relata o início precoce de sua prática de escrita, inicialmente voltada a pequenas histórias.
Clarice reflete longamente sobre sua relação com a literatura, afirmando não se considerar uma escritora “profissional”, mas sim uma “amadora”, no sentido de preservar sua liberdade criativa e escrever apenas quando sente necessidade interior. Descreve períodos intensos de produção intercalados por hiatos que lhe provocam sensação de esvaziamento e morte simbólica, entendendo tais intervalos como necessários para o surgimento de novas criações. Comenta seu hábito de escrever nas primeiras horas da manhã, em recolhimento, e distingue o momento da inspiração daquele do trabalho consciente de organização do texto.
O depoimento contempla ainda referências a obras específicas, como “O Ovo e a Galinha”, que define como um mistério até para si mesma, e o conto “Mineirinho”, no qual relata ter se identificado profundamente com a figura do criminoso morto com treze tiros, transformando-se simbolicamente nele ao escrever sobre a violência policial. Ao falar de A Paixão Segundo G.H., menciona a dificuldade de recepção da obra, citando a leitura reiterada de um professor que afirmou não compreendê-la, em contraste com a identificação imediata de uma jovem leitora, sugerindo que sua escrita exige mais sensibilidade do que erudição técnica.
Em relação à gênese de A Hora da Estrela, explica que a ideia surgiu a partir de suas experiências no Nordeste e da observação de migrantes nordestinos no Rio de Janeiro, especialmente na feira de São Cristóvão, combinadas a uma situação imaginada após visita a uma cartomante. A autora enfatiza que não escreve com a intenção de transformar a realidade social, mas como forma de desabrochar interiormente, entendendo a escrita como necessidade existencial.
Ao longo do depoimento, Clarice também aborda sua produção de literatura infantil, iniciada a partir de uma história criada para o filho, e reflete sobre as diferenças entre escrever para crianças e para adultos. Comenta sua relação com leitores, a imagem pública de escritora que por vezes a isola, e a percepção de que sua obra ganha novas camadas de compreensão na releitura. A entrevista revela uma autora consciente da singularidade de sua escrita, mas simultaneamente resistente à mitificação de sua figura pública, reafirmando a simplicidade formal que atribui ao próprio estilo.
O registro constitui documento de grande relevância para a compreensão da autopercepção de Clarice Lispector, de seu processo criativo e da recepção de sua obra, preservando a dimensão oral e subjetiva de seu pensamento literário.
Enquanto registro documental da exposição, o item cumpre função administrativa e memorial, permitindo rastrear a seleção, circulação e exibição do conteúdo audiovisual no âmbito da narrativa curatorial. Insere-se, portanto, no conjunto de registros de controle e documentação museológica da mostra, contribuindo para a preservação institucional da memória expográfica.
O Acervo do Museu da Língua Portuguesa disponibilizado nesta plataforma destina-se exclusivamente à consulta. É expressamente proibida qualquer outra forma de utilização. O(a) usuário(a) é responsável por respeitar os direitos autorais, de personalidade e conexos das obras aqui apresentadas. A reprodução total ou parcial de obras originais ou de suas cópias, por qualquer meio e para qualquer finalidade, é vedada, conforme estabelecido pela Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Caso haja interesse na reprodução de qualquer obra — original ou cópia — o(a) interessado(a) deverá entrar em contato com o Centro de Referência pelo e-mail: centrodereferencia@mlp.org.br.