O vídeo apresenta a locução de um trecho do livro "Nascimento de um mundo" do escritor caboverdiano Mário Lúcio Sousa.
Transcrição
PRELÚDIO de “Nascimento de um mundo” do poeta caboverdiano Mário Lúcio Sousa (1991).
O prenhe barro que sustinha o mar
abriu-se como uma boca ou uma flor
e o sopro de um deus imaginário
– que já existia antes de Deus –
fez abrir um pedaço do Mundo
cuja alma já não cabia no corpo…
e nasceram as ilhas
que nadavam e nadavam.
As ilhas nascem nadando como as crianças nascem chorando,
mas no gérmen tudo é diferente:
as crianças nadam muito tempo antes de chorar
e as ilhas choram muito tempo antes de nadar
os dois prantos sob o signo de um pranto mestiço
de água e fogo.
(a) LUZ
LAVA e
(a) DOR.
Assim será. Assim foi, creio eu:
dez embriões num ventre
dez vozes num parto
dez ilhas no mar e
eu assisti ao nascimento de um mundo
que gerou o fogo
e ficou elevado o umbigo da terra
ou vulcão
ou a raiz que evoca a diferença e a identidade.
Tudo passou num segundo
e depois – conceito que foi instante, logo e agora –
o deserto… o inaudível… a luz
e eu mil novecentos e sessenta e quatro anos depois atrás
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