Com base no acervo do Museu da Língua Portuguesa, esta coleção explora a coexistência do português com outras línguas e como essa multiplicidade molda nossa história. Venha refletir sobre a distribuição das línguas nos territórios e as histórias implícitas nas dinâmicas sociais de seus falantes.
Multilinguismo no mundo
O mundo em que vivemos é polifônico, abrigando cerca de 7 mil línguas (segundo o Ethnologue). Nesse cenário, a maior parte da população mundial é multilíngue: o número de pessoas que crescem falando mais de um idioma supera o daquelas que se desenvolvem em contextos monolíngues.
Ainda assim, observa-se que diversas línguas são faladas por grupos cada vez menores, correndo o risco de extinção. Como as línguas e suas variadas formas de expressão não são meros instrumentos de comunicação, mas o ambiente onde os seres humanos se formam e as culturas são construídas, a diversidade linguística deve ser protegida como um patrimônio da humanidade. Por essa razão, nas últimas décadas, têm surgido diversas iniciativas de revitalização linguística.
Pesquisadores/as têm se dedicado cada vez mais ao estudo e à promoção do multilinguismo. Embora essa seja a realidade majoritária no mundo, sua existência impõe desafios à sociedade contemporânea, como o de garantir o acesso a serviços básicos (a exemplo de saúde e educação) sem que as pessoas precisem renunciar à sua língua familiar. Acolher essa pluralidade é essencial para assegurar os direitos linguísticos de todos, que são parte fundamental dos direitos humanos.
Neste contexto, a língua portuguesa serve como ponto de partida para entender a convivência entre línguas. Sendo a quinta língua mais falada no mundo e a primeira no Hemisfério Sul, o português conta com cerca de 260 milhões de falantes distribuídos por cinco continentes. Para compreendê-lo em sua totalidade, é crucial considerar o multilinguismo presente nos diversos territórios onde é falado, os quais formam um verdadeiro caleidoscópio de culturas em contato.
Atualmente, o português é o idioma oficial nos seguintes países:
- Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
Além disso, possui caráter de oficialidade regional em localidades como:
- Macau (China), Malaca (Malásia) e Goa, Damão e Diu (Índia).
Com uma extensão territorial tão vasta, o contato com centenas de outras línguas é inevitável. Essa interação, por sua vez, diversifica e expande as possibilidades de existência da língua portuguesa, enriquecendo-a continuamente.
I Seminário Internacional Viagens da Língua: multilinguismo no mundo lusófono
A convivência entre línguas pode ser investigada por diversas perspectivas, como as dinâmicas sociais, a legislação, a influência mútua entre as formas de falar, os sistemas educacionais, as interações cotidianas e as expressões artísticas.
Com o objetivo de explorar esses ângulos, o Centro de Referência do Museu da Língua Portuguesa realizou, em dezembro de 2021, o I Seminário Internacional Viagens da Língua: multilinguismo no mundo lusófono.
Durante três dias, pesquisadores/as, docentes e artistas compartilharam estudos e experiências que aprofundam a reflexão sobre o tema, organizados em três eixos principais:
- Políticas linguísticas
- Culturas multilíngues
- O português pelo mundo
Aqui você pode conferir mais informações sobre o Seminário e acessar as mesas da programação:
DESTAQUES DO SEMINÁRIO
Roda de conversa "A vida das línguas: entre o uso e as leis"
O debate se concentrou em territórios onde coexistem diferentes línguas, exigindo reflexões sobre escolhas institucionais (documentos oficiais, orientações públicas de saúde e segurança, línguas adotadas no ensino, etc.). O debate abordou diversas temáticas que atravessam as práticas sociodiscursivas e impactam estudos sociológicos, culturais e linguísticos.
Roda de conversa "Vidas entre línguas"
Considerando que o mundo é majoritariamente multilíngue, a discussão proposta abordou a convivência do português com outras línguas no mesmo território. Foram discutidas realidades onde coexistem línguas oficiais e não oficiais, crioulos de base portuguesa e as línguas de sinais locais.
Dossiê I Seminário Viagens da Língua
O Dossiê do Seminário, organizado pelo Centro de Referência do MLP e publicado em 2022, compila as reflexões e debates dos três eixos temáticos (Políticas linguísticas, Culturas multilíngues e O português pelo mundo). A publicação reúne artigos e conferências de pesquisadores/as e artistas de países como Moçambique, Cabo Verde, Angola, Portugal, Timor-Leste e Brasil, entre outros.
Os tópicos abordados incluem o papel das políticas públicas na valorização das línguas, ensino bilíngue, vitalização de línguas indígenas, produção artística em contextos multilíngues e o reconhecimento do português como língua pluricêntrica. O Dossiê reforça o compromisso do MLP em promover o diálogo sobre a língua como expressão viva de identidades, histórias e transformações sociais no mundo lusófono.
Línguas entre fronteiras e encontros: o rio Oyapock
O Colóquio Internacional Oyapock, o rio que une: línguas e conhecimentos indígenas além das fronteiras ocorreu entre os dias 26 e 28 de novembro no Auditório do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. O encontro, promovido pelo Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas, colocou em debate as histórias, saberes e línguas dos povos originários que habitam o Planalto das Guianas, como os Wajãpi, Wayana, Kali’na e Karipuna. O evento celebrou o rio Oyapock que, mais do que uma fronteira geopolítica entre Brasil e Guiana Francesa, é um ponto de conexão ancestral e circulação entre essas comunidades.
A rica pluralidade sociocultural e linguística da região fronteiriça do Oyapock foi um dos focos centrais do Colóquio. Mesas como a dedicada às “Políticas do Multilinguismo” aprofundaram o debate sobre o intenso contato linguístico na faixa de fronteira, onde línguas indígenas, crioulas e as línguas europeias (português e francês) coexistem em complexas dinâmicas. Foram discutidas as estratégias necessárias para a proteção e promoção dessa diversidade, o impacto da colonialidade nos sistemas educacionais e a possibilidade de cooperação transfronteiriça, visando ao fortalecimento das línguas indígenas.
Confira alguns registros das apresentações (Museu da Língua Portuguesa / Foto João Leoci) .
Reunindo linguistas, antropólogos, educadores, artistas e, sobretudo, lideranças e vozes indígenas, o evento serviu para fortalecer alianças e dar visibilidade às iniciativas de revitalização e documentação cultural e linguística. Com sessões em português e francês e tradução simultânea, o colóquio cumpriu o papel de refletir sobre os diversos contextos e ações que vêm sendo desenvolvidas para assegurar a autodeterminação dos povos originários, honrando o vasto legado cultural e linguístico que resiste e floresce para além dos limites nacionais.
(Museu da Língua Portuguesa / Foto João Leoci)
O multilinguismo na exposição principal do Museu
O Museu da Língua Portuguesa aborda a vida multilíngue da língua portuguesa em diversas áreas de sua exposição principal.
Em Nós da Língua, vemos o português em contato com as demais línguas faladas nos territórios mundiais em que a língua é oficial:
Na experiência Palavras Cruzadas, são apresentadas heranças resultantes do multilinguismo na formação do português brasileiro:
Já em Português do Brasil, vemos como a formação da língua falada no país é a confluência de diversas línguas e culturas – incluindo línguas originárias, africanas e dos imigrantes – antes e depois de sua chegada ao Brasil:
Diversidade por todos os lados
A conversa sobre a diversidade de línguas em convivência com o português também pode ser encontrada em outros materiais do acervo do Museu da Língua Portuguesa!
Plataforma para a Diversidade Linguística
As linguistas Juliana Bertucci Barbosa e Marcia dos Santos Machado Vieira apresentam, em artigo, o projeto para a criação de uma plataforma online que reunirá diferentes bancos de dados das diversas línguas faladas no Brasil. O projeto, que visa à criação de uma plataforma on-line que reúna diferentes bancos de dados, foi um dos temas do I Seminário Internacional Viagens da Língua.
No Acervo do Museu
A publicação “Diversidade linguística indígena: estratégias de preservação, salvaguarda e fortalecimento”, organizada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), reúne os resultados do Encontro Internacional de Diversidade Linguística Indígena (Maloca/UnB, outubro de 2019). O evento, que celebrou o Ano Internacional das Línguas Indígenas (proposto pela Assembleia Geral das Nações Unidas), promoveu a troca de experiências entre pesquisadores/as e professores/as indígenas do Brasil e da América Latina. A obra faz parte do acervo bibliográfico do Museu da Língua Portuguesa.
Celebrando!
Existem duas datas criadas para celebrar as vidas multilíngues e a coexistência linguística, promovendo o multilinguismo e a diversidade cultural.
27 de março: Dia Internacional do Multilinguismo
21 de fevereiro: Dia Internacional da Língua Materna
Aqui no Museu da Língua Portuguesa, todo dia é dia de reconhecer, valorizar e celebrar a diversidade, reconhecendo nela um fator crucial para entender a nossa própria língua!




















