"Futebol na Ponta da Língua" foi uma exposição lúdica e interativa que apresentou as relações entre o futebol e a língua portuguesa, destacando como esse esporte, introduzido no Brasil pelos ingleses no final do século XIX, tornou-se uma paixão nacional capaz de ultrapassar os limites dos campos e influenciar profundamente o vocabulário, a cultura e as formas de expressão do país. A mostra revelou como o futebol cria palavras, metáforas, gestos e códigos próprios, aproximando linguagem esportiva, literatura e comunicação cotidiana. O visitante era convidado a “entrar em jogo” e descobrir que cada movimento, lance e gesto é também uma forma de comunicação, compondo um sistema que funciona como uma verdadeira linguagem — com regras, significantes e significados que vão além da nomeação das jogadas.
A curadoria organizou o conteúdo em três grandes eixos que se entrelaçavam: Futebol na Língua, reunindo termos técnicos, gírias, estrangeirismos e expressões metafóricas derivadas do futebol; Futebol na Literatura, com trechos de autores brasileiros como Lima Barreto, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues, Luís Fernando Veríssimo e Hilda Hilst; e Futebol como Linguagem, que abordava o esporte como um sistema de comunicação visual e gestual baseado em regras, códigos, indumentárias, sinais e condutas.
Cenograficamente, a exposição foi concebida como uma grande instalação, pensada para proporcionar experiências coletivas — ecoando o espírito do próprio futebol. O Ateliê Marko Brajovic desenvolveu a cenografia e a comunicação visual, explorando ideias de esquemas táticos e game-play como forma de integrar os conteúdos linguísticos e futebolísticos. A instalação principal remetia a um campo de futebol com duas grandes telas de vídeo-wall nos gols e 24 esferas luminosas suspensas representando os jogadores. O visitante podia acionar diferentes movimentos básicos — chute, drible, passe e disputa — que, combinados, geravam 107 jogadas apresentadas nas telas junto aos textos explicativos. Uma arquibancada permitia que os visitantes assistissem às jogadas uns dos outros, e nela estavam também sete tablets com um “dicionário” de futebol repleto de termos, expressões e frases que fazem parte da língua do esporte.
Um segundo ambiente expandia a experiência com foco nas sonoridades da língua portuguesa. Nele, as esferas se transformavam em cúpulas sonoras suspensas, distribuindo frases, poemas e músicas relacionadas ao tema. A ambientação incluía também duas TVs de 60 polegadas: uma exibia textos literários mais longos e a outra apresentava uma mesma jogada histórica — o gol de Carlos Alberto na Copa de 1970 — narrada por locutores de diferentes regiões do Brasil e também de Portugal, destacando sotaques, ritmos, jargões e estilos narrativos diversos. Arquibancadas adicionais completavam o espaço, permitindo ao público folhear jornais educativos especialmente produzidos para a exposição.
Montada como uma grande instalação imersiva, Futebol na Ponta da Língua uniu jogo, linguagem, literatura e comunicação em uma experiência divertida, sensorial e coletiva, mostrando como o futebol é, ao mesmo tempo, prática esportiva, expressão cultural e parte inseparável da formação da língua portuguesa no Brasil.