Neste vídeo, atores e atrizes interpretam textos de diferentes escritores e artistas, abrangendo tanto obras clássicas quanto produções contemporâneas.
[Texto “Da Paz”, de Marcelino Freire] “Eu não sou da paz. Eu não sou da paz. Não sou mesmo, não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não senhor. Não solto pomba nenhuma, não senhor. Não me venha pedir pra chorar mais. Secou! A paz é uma desgraça. Uma desgraça! Carregar essa rosa boba na mão, nada a ver, vou não. Não vou fazer essa cara chapada. Não vou rezar! Eu é que não vou tomar a praça nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Pra onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Você viu lá? Aquela atriz no trio elétrico. Aquele ator, vou não, não vou. Se quiser vá você, diacho! Eu é que não vou derramar uma lágrima. A paz é muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. E vem governador participar, prefeito, senador, até jogador. Vou não, não vou! A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho pra fazer hoje? Arroz, feijão! Arroz e feijão, sem contar a costura. O meu juízo não tá bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito, sinto! A paz não vai estragar o meu domingo! A paz nunca vem aqui, no pedaço, reparou? Ela fica lá, ó. Lá! Tá vendo? Um bando de gente dentro dessa fila demente. A paz é muito chata! A paz é uma bosta! A paz não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Taí uma coisa que eu não gosto: Esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora aqui, no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue. Já disse: “Não quero!” Não vou a nenhum passeio. Nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta, nem que a paz venha aqui, bater na minha porta! Eu não abro, eu não deixo entrar! A paz está proibida! Proibida! A paz só aparece nessas horas em que a guerra é transferida. Agora que a cidade se organiza? Pra salvar a pele de quem? A minha que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo, Amém! Eu aqui não vou acompanhar dor de ninguém. Não vou. Não vou. Quer saber? Eles é que se lasquem! É eles é que caminhem a tarde inteira, porque eu cansei. Eu não tenho mais paciência. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os seus terços, nervos, dentes estridentes. Reparou? Eu vou fazer mais o quê? Hein? Eu vou fazer mais o quê? Hein? Quem vai ressuscitar o meu filho? Joaquim. Eu aqui não vou levar a foto do menino lá embaixo. Ficar esfregando na avenida minha ferida a marchar. Eu não vou. Muito menos ao lado de polícia. Toda vez que eu vejo a foto de Joaquim, dá uma saudade, sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito sem fim. Uma dor. Dor. Ai! Ai! Ai! Ai! Que a minha vontade é de sair gritando urrando, soltando tiro. Eu juro, meu Jesus, matando todo mundo! Ai, eu matava todo mundo! Todo mundo, pode ter certeza! Mas a paz é que é culpada. A paz é que não deixa.”
[Trecho de Bispo, de João Miguel e Edgard Navarro] “Tu tá vindo sempre aqui no horário certo, hein? Eu acho que tu tá me tratando. Tu tá tratando daqueles outro doido também? É tudo doido, não falam nada com nada, eu não posso me misturar. Eu sou bispo de Jesus. E você, Rosângela, Maria de Jesus. Eu sou um enviado de Deus, isso tá com muitos anos já. De modo que eu sou um trabalhador braçal a serviço de forças ocultas. Segundo foi determinado, Ele vai suspender a Terra e, com a ajuda de dois mestres, arrasar o mundo. Aí não vai ter mais doença, não vai ter mais miséria, será tudo de plano na terra. Isso é o que Ele mais se interessa mesmo. Tudo plano, porque a terra é grande e dá muito bem pro povo morar, residir. Seu Artur Bispo do Rosário. Esse negócio de doença, de miséria, de tristeza, tudo isso vai acabar. A minha estadia aqui junto com o meu povo vai ser a vida. A vida para todos os tempo e glória, mais nada. Olha, eu vou dizer um negócio pro senhor. Isso já não é de seu Artur, mas cabe em seu Artur. Foi uma senhora no hospício que eu ouvi dizer e ela falava, eu vou dizer um negócio pro senhor: “Eu não tenho medo da minha loucura, não. Tem loucura até que é boa. A loucura dá alegria mesmo, acho que ela pega a gente assim pra cima, a gente vai vendo tudo colorido, vai ficando feliz, vai dando uma alegria danada no juízo. Agora, o que não presta é a loucura da tristeza. Essa aí não, essa pega a gente, a gente vai indo pra baixo, vai vendo tudo escuro, não vai entendendo nada, vai ficando doente. Essa aí não.” Aí o seu Artur fala, a palavra de seu Artur fala: “Eu devo ta pronto daqui a uns seis, cinco meses com a ação resplendor dos pés à cabeça. Eu vou estancar e apresentar o meu resplendor ao mundo dentro dessa representação aqui. E quem deve me apresentar, segundo os interessados aqui da colônia, diz eu, segundo a habitação de Cristo, devo apresentar a minha transformação diretores, mais nada.”
[Trecho de Antígona, de Sófocles] “Sentado no rochedo dos presságios, local onde todos os tipos de pássaros se reúnem, ouço os grasnidos das aves agorentas, numa gritaria bárbara e incompreensível. Percebo pelo frêmito dos pássaros que se rasgavam com as garras e se matavam e se dilaceravam. Aterrorizado, tentei um sacrifício no altar dos deuses, mas não se erguia a chama clara. A gordura podre escorria líquida sobre as brasas, fumegava e se desfazia. A bilis estourava e evaporava e os ossos saltavam nus e brancos da carne derretida. O olho do meu menino é que viu, ele é que me guia e eu guio os outros. É da tua cabeça que vem o mal que molesta o Estado. Os nossos altares e os nossos lares foram conspurcados quando os cães e os abutres fizeram um banquete com a carne do filho de Édipo, morto em combate. Os deuses recusam nossos pensamentos e as nossas orações. As chamas não sobem de nossos altares e as aves gritam maus agouros, fartas e enojadas da gordura e do sangue humano. Ouve o que eu te digo, meu filho. Todos os homens estão sujeitos ao erro, mas aquele que o reconhece deixa de ser tolo e infeliz, remediando o mal que cometeu. Vai, filho, cede ao morto e poupa esse homem que já nem é mais homem. Que grande trunfo é matar o morto. Ouve o que eu te digo. É bom ouvir quando é amiga a voz que fala. [interpretando]” Esse é o Tiresias. Ele é cego. Na verdade, o Creonte que assumiu o poder, ele diz que os inimigos têm que ser humilhados. Então, quem morreu na guerra e era inimigo, ele põe em praça pública pra ser comido pelos urubus e pelos cachorros. O filho de Édipo é um desses caras, ele tá lá pra ser comido. Essa coisa que a gente ouve agora, que os inimigos têm que acabar.
[Trecho de Antígona, de Sófocles] “O futuro já passou. Uma cidade soterrada. Os grandes empresários onde nada cresce. A lama, corpo morto, shopping center, empresários. A avalanche de lixo, 4 milhões. A terra morta, o corpo morto. Sob o mangue, nada cresce. A cidade estuprada. O menino já passou, dizem. Refugiados, corpo morto, uma cidade. Futuro shopping center, empresários, dívida pública. Corpo morto, terra salgada, lixo, lama. Nada cresce. Escolas públicas, uma praia, estrada clara, o futuro, o tempo de se crer. Algo há de brotar, o manifesto agrícola, rural, minha roça. Contra as sementes inférteis, contra os transgênicos. Pelos transgêneros, algo há de brotar. Torto, belo. Que a flor antigue se restaure. Remexa tudo por dentro. Passe tudo num moinho. Moa a carne, meu tormento. Carmento, venemoinho. Primavera, que alguém te cante e te descante. Arvorezinha, empate escolar. Feijãozinho no algodão. Manifesto do meu peito duro de argila seca. Pela vida que pulsa. Primavera, eu fiz um discurso. Primavera, me perdoa.” [declamando]
[Trecho de Aldeotas, de Gero Camilo] “Minha mãe dizia: “Impossível meninos morarem no centro da terra.” Ãh? Pois um dia me levaram pessoalmente para conhecer o Caruso. Mas eu tinha que jurar que nunca na vida, nunca. A não ser em caso de cura de dor, eu poderia contar a alguém. Eu jurei com os dedos em cruz, eu corri para dentro de casa, eu peguei a minha merendeira e falei: “Eles falaram, é preciso levar comida.” Eu levei. “O caminho é demorado, você vai sentir fome.” Então eu peguei os bolinhos e entrei, no centro da terra. Eles avisaram que no princípio eu estranharia a escuridão. Mas que depois os meus olhos se acostumariam e aí eu voltaria a ver. Aí eu falei: “Tudo bem!” Respondi: “Eu não tenho medo do escuro.” Eu menti. É preciso levar comida. Me diziam eles: “O caminho é demorado, você vai sentir fome.” Então eu fui lá e roubei os bolinhos de milho. Pus água no cantil. Me despedi do meu cachorro, do Joca. E entrei no fundo da terra. Eu tinha medo. Eles falaram: “Você tem que conversar com a rainha.” A rainha do formigueiro, ela era a guardiã do centro da terra. E aí no início eu senti medo, porque vai que ela não fosse com a minha cara. Mas eu topei. Eu topei o desafio, eu entrei no formigueiro. Que ficava entre a mangueira e a pimenteira que a minha avó plantou. No início eu nunca que dava para enxergar. Eu só enxergava os olhinhos dos meninos assim, piscando, feitos vagalumes. Tudo de diamantes. Não tinha valor nem de riqueza, nem de pobreza, de nada. Só de brilho mesmo, na escuridão. E o meu coração? Ele batia tão forte que fazia eco. Nós passamos por várias formigas, várias, elas não paravam pra nada. Elas passavam e cumprimentavam ligeiras, assim. [risada] Até que chegamos aonde vivia a rainha. Uma senhora formiga, com um olhar sábio. Ao contrário das outras, calma, com gestos demorados. Ficou me olhando ali um bom tempo, até que duas outras formiguinhas, dessas mais nervosinhas, foram onde eu tava, pegaram a minha merendeira e levaram até a rainha. Aí a rainha abriu a minha merendeira. Ela tirou um bolinho. Nem tocou na água. E ela devolveu o resto. Ela olhou nos meus olhos e sorriu, porque bicho também ri. E ela liberou a entrada. Aí os meninos riram de contentamento e correram porta adentro, e eu olhei pra rainha... Eu fiquei meio encabulado, sei lá, meio envergonhado. Eu não sabia se eu... Eu não falava a sua língua, então, eu dei uma piscada de olho pra ela. Eu achei que era um jeito de agradecer. É que como eu não falava a sua língua, eu achei que com isso ela entenderia. Então, eu ouvi: Obaiê, Obaiê... [cantando] O nome que eles me deram. Obaiê, Obaiê.. [cantando] E aí eu corri em busca do canto dos meus amigos para retornar à margem do meu quintal.”
[Improvisos] “Olá, senhoras e senhores, criançada amiga! Eu sou Tililingo Catibiribingo Serra Matitingo. E vim aqui porque eu sou um grande especialista em... Em... Eu não sou especialista em nada, não, eu sou só em palhaçada. Atenção, vocês! Eu sou o Palhaço Bomba. Se você fizer alguma coisa que me chama a atenção, eu posso explodirrrrrr!” [risos] [interpretando] Tem também um tipo de bufão, completamente bonachão, que é aquele cara que só diz coisas impróprias, completamente reacionário, o símbolo daquilo que você não gostaria de ouvir. Como um churrasqueiro que eu faço, no Prego na Testa”, e que trata todo mundo muito bem, apesar dele estar cometendo as maiores atrocidades. “Ô, querido, outro dia eu encontrei lá um mendiguinho na rua. Eu ia... Pus a mão no bolso e ia dar uma nota de 2 real pra ele. Rapaz, quando eu joguei, era aquela nota da mesma cor, de 100 real, como eu fiz uma burrada daquela?!” [representando um personagem] Então, é o tipo de cara que vai fazer uma idiotice, que parece que ele tá ajudando alguém, mas ele odiaria ajudar alguém. Então tem uma raiz aí nos vários tipos de palhaço que eu acabo representando e que expõe várias faces. E talvez o que simbolize, é o fato dele traduzir algum tipo de poesia. E por estar dentro de um museu que fala da palavra, eu gostaria de citar um verso de palhaço que eu mesmo fiz. O verso é assim: “Estou cagando e andando. Estou cagando e andando. Estou cagando e andando. Mas, como a terra é redonda, eu sempre acabo pisando nas merdas que faço.”
[Trecho do espetáculo Van Gogh, de Elias Andreato, a partir de cartas de Vincent Van Gogh a seu irmão Theo] “O que é que eu sou aos olhos da maioria? Uma nulidade, um homem excêntrico, desagradável, alguém que não tem uma situação na sociedade ou que não a terá, enfim, pouco menos que nada. Bom, que seja exatamente assim, então. Eu gostaria de mostrar por minha obra o que existe no coração de tal “excêntrico”, de tal “nulidade”. Esta é a minha ambição, que não está fundada no rancor, mas no amor, apesar de tudo. Mais fundada no sentimento de serenidade que na paixão. Ainda que frequentemente eu esteja na miséria, há, contudo, em mim, uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha, no mais sórdido do cantinho, vejo quadros e desenhos e meu espírito vai nessa direção por um impulso irresistível. O tempo dirá quem está certo. O futuro ainda é difícil. Acredito muito na vitória final, mas será que os artistas chegarão a desfrutá-la e verão dias mais felizes, mais serenos? Você sabe, meu irmão, que os marujos, quando têm que carregar um fardo muito pesado ou levantar uma âncora, eles todos cantam juntos para se animarem e para darem força uns aos outros. É isso que falta aos artistas. Nós, artistas da sociedade atual, não somos mais que uns vasos quebrados. Ah, se todos os artistas tivessem com o que viver, com o que trabalhar. Você já reparou como os preços dos acessórios para desenhistas e pintores aumentaram terrivelmente? Certamente mais de um pintor deve estar contrariado. Eu prefiro rir de mim a me sentir só. Acho correto que você diz que meu trabalho deve melhorar, mas também acho que sua energia para tirar proveito dele poderia ser um pouco mais acentuada. Você jamais vendeu nada meu, nem pouco, nem muito. E, na verdade, você nunca tentou, sempre se diz: “Não é vendável, não é vendável, não é vendável, não é vendável, não é vendável, não é vendável, não é vendável, não é vendável, não é vendável.””
[Trecho de Vaga carne, de Grace Passô] “Sinto tudo esvaziar. Está tudo mais deserto e vazio. A pena, a pena que um dia eu penetrei e me fez voar por cima de prédios e montanhas, a imagem parece sumir de mim, as palavras também, a minha capacidade de contorná-las, está tudo indo embora. Todos os campos de algodão que eu vivi, cada cocô que eu invadi e bebi da sua água, está tudo, tudo, tudo indo embora... Entrei um dia num sonho de uma raposa e no sonho ela copulava com uma manada de elefantes, mas eu não consigo me lembrar mais... Como eram os elefantes? Ai, ai que saudade do pato, ai... Minha criança... Minha criança... Criança, vem aqui, vem... A máquina, a máquina dessa mulher está desviando o percurso correto do sangue, a sua consistência está invadindo tudo e eu ainda não consigo sair daqui, ai que horror! Onde estão as palavras? Onde estão as palavras? Onde...? Onde estão as palavras? Onde, onde...? Onde estão as palavras? Onde estão as palavras? Onde estão as palavras? Onde... Onde estão as palavras!?”
[Depoimento] Bom, por falar em palavra, aconteceu um acidente que o barco da Chica da Silva virou e, eu não sei nadar, e quase morri afogada, era uma represa de 12 metros de profundidade, que é na cena em que ela pede ao João Fernandes para conhecer o mar, e não tem mar, né? Em Minas. Então ele ilude ela fazendo, mandando fazer o barco que ela pediu e esse barco virou, e já que estamos falando de palavras, sabe o que aconteceu comigo? Eu tive que ficar, bom, eu afundei várias vezes e voltei, acho que fui meio que salva, bom, claro, por Deus, a roupa ajudou muito porque era muito pesada, eram saias de veludo com muitas anáguas, engomadas. Tinha inclusive uma armação de arame embaixo da saia, era desse tamanho, então eu boiava, eu ia lá embaixo e voltava. E numa das vezes que eu voltei, eu me apoiei no próprio barco e eu aprendi nessa cena o quanto você fica forte quando você está correndo perigo, ou frágil. Eu sei que eu me apoiei numa salienciazinha do barco e ali fiquei, quando eu tava desistindo, perdendo as minhas forças, eu ouvi a voz do Cacá dizendo: “Calma, eu estou chegando!” Porque ele lembrou que eu tinha comentado na véspera que eu não sabia nadar e aí aconteceu uma coisa inédita na minha carreira, que eu fiquei em estado de choque, vinte e quatro horas sem falar.
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