Museológico

Libras e Português 1

2020

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
fala_aud_24
Título
Libras e Português 1
Descrição

O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre as aproximações, diferenças e as muitas questões que permeiam a língua portuguesa e a língua de sinais.

Transcrição do áudio:

Sylvia Lia, professora de Libras

Algumas pessoas já me perguntaram: “Sylvia, a Libras tem quantas palavras?” “Oi? O português tem quantas palavras?” “Ah, muitas!” “Então: Libras também, muitas”. “Ah, mas Libras tem sentimento?” Oi? Nossa! Que pergunta! Estamos no século XXI! Ok, aí eu tento explicar: “Sim, tem emoção, tem tudo!” Esses questionamentos são estranhos. Em outra situação, um ouvinte me pergunta: “Libras tem verbo?” Peraí. “Você não entendeu o conceito de língua?” “Língua significa que ela tem tudo!” “A língua portuguesa é completa, tem tudo!” “As línguas africanas são completas, da mesma maneira é com a Libras!” “Ah, mas a Libras é mímica.” “Eu estou fazendo mímica para você?” “Não.” “Então!” Erika Mota, tradutora e intérprete de Libras A língua de sinais é um conjunto de línguas visuais, né? E a língua de sinais brasileira é a Libras, então eu posso falar “língua de sinais” ou eu posso falar “Libras”. Se eu falo: “Língua de sinais”, eu posso me referir a qualquer país do mundo, as línguas de sinais. “Libras”, é só aqui no Brasil.

Ricardo Nakasato, pedagogo e professor de Libras

Língua? Qual é o conceito de língua? A Libras é uma língua. Dentro dessa língua existem características próprias, como gramática, conceitos, etc... E na língua portuguesa? As palavras são ligadas às sonoridades, pois os ouvintes separam as sílabas de acordo com o som. Já na Libras não utilizamos o espaço sonoro. Utilizamos o espaço visual. Fábio de Sá, professor de Libras e artista Por exemplo, quando um surdo vê uma sinalização em Libras surge uma visualização mental em língua de sinais e não uma visualidade mental com frases em português. Surge uma visualidade mental em língua de sinais ou a visualidade do próprio objeto, ou ainda a visualidade desses dois planos.

Erika Mota, tradutora e intérprete de Libras

É... Não consigo dimensionar o tanto que expandiu o meu universo a partir da língua dos sinais. É... É uma língua corpo, visual, e potencializou muito a minha comunicação a partir da aquisição dessa língua. Então, nesse encontro do oral, da língua oral para a língua imagem, é... Eu aprendi que eu vou com o corpo inteiro aqui na imagem.

Leo Castilho, arte-educador e artista

Existe um incômodo para os ouvintes e para os surdos. Quando estão numa conversa falando sobre a vida, os ouvintes dizem, “por que nunca pensei nisso antes?” Vou usar e tentar criar regras e escolher regras que combinem, porque os ouvintes podem conhecer as regras pra poder participar e ter empatia para aprender, aprender tudo, não é só falar, falar, falar, é mais abrangente. Por isso a gente costuma dizer: “quer saber qual o sinal para saudade?”. A palavra “saudade” é bonita, mas é muito mais bonito: [faz o sinal de *saudade*]

Erika Mota, tradutora e intérprete de Libras

A relação das duas línguas quando elas se encontram é de atrito, de fricção, de tensão. É... Quando ela não parte da subordinação, né? Quando não tem uma língua maior que a outra, ela entra em tensão, porque eu preciso me avizinhar dessa outra língua. Porque não é só transpor de uma língua para a outra. É transformar. Trans. Porque a tradução, ela passa pelo imaginário da pessoa também, né? O olhar que ela tem sobre aquilo. Por isso que é necessário avizinhar e conhecer os espaços, porque você cria um repertório, um imaginário daquele lugar sem estereotipar. Que é a grande questão. Leo Castilho, arte-educador e artista Eu me lembro do início do Corposinalizante no MAM (Museu de Arte Moderna de SP), a gente começou a conversar, a bater papo, sobre a criação de performances, aí começamos a falar sobre um determinado texto poético e ficamos na dúvida, porque era um manifesto, mas nunca havia surdos sinalizando nesse contexto de uma forma poética, sabe?

Fábio de Sá, professor de Libras e artista

Porque o surdo achava que para a poesia era necessário o português. Existia essa dependência, essa preocupação com o português, como se fosse uma tradução. Daí começamos a fazer poesia a partir da nossa língua. Os ouvintes tentam, nos observam, mas é diferente. E, com o passar dos anos, percebemos que na nossa língua é possível fazer uma poesia potente, impactante, forte!

Erika Mota, tradutora e intérprete de Libras

No “poetry slam”, por exemplo, batalha de poesia, né? Quando a gente... Quando a gente recebe um... um texto, o texto não só na forma grafada, mas o texto como... como algo a ser traduzido, né? Você precisa pensar na etnografia, a tradução etnográfica. Não é apenas a palavra da outra palavra. Signo pelo signo. Semântica pela semântica. Ela é além de.

Leo Castilho, arte-educador e artista

Fiquei analisando, tentando entender aquela situação... É uma batalha de rap? Não, eles estão fazendo poesia... Ah, estão fazendo poesia, é diferente! Aí depois a intérprete foi para o lado do poeta. Nossa! O que é isto?! A intérprete sinalizando numa batalha de poesia... A partir desse dia houve uma mudança radical! Porque ela não era intérprete dessa esfera, ela era professora de Literatura e com uma vasta experiência em Libras, com crianças, com a prática de leitura de muita poesia, mas para ela e para todos os intérpretes, para mim, para os surdos, para todos foi impactante o universo dos slams!

Fábio de Sá, professor de Libras e artista

Essa relação de troca potencializa o encontro entre as línguas. A língua de sinais toca, como a oralidade também toca. Quando essas coisas se juntam é uma potência cruzada de muito valor! Leo Castilho, arte-educador e artista Então tem muita gente começando a fazer poesia sem português, porque a gente grava e isso é uma escrita também.

Fábio de Sá, professor de Libras e artista

Há uma mudança do ano de 2014 em diante. Por conta da influência dos slams, começamos a construir essas potencialidades poéticas, e acreditamos que estamos indo bem. Hoje o Brasil todo está viciado nos slams e o influenciador foi o Leo Castilho.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:07:23
Formato
MOV

Contexto de produção

Exótica Cinematografia ProduçãoInstituição
Leo Castilho ParticipantePessoa
Sylvia Lia ParticipantePessoa
Fábio de Sá ParticipantePessoa
Ricardo Nakasato ParticipantePessoa
Erika Mota ParticipantePessoa
Local de Produção
Contexto de produção
Desde sua introdução no século XVI, o português entrou em contato com inúmeras línguas indígenas e afrodiaspóricas, resultando em uma rica variedade de falares que se estendem pelo território nacional. Diante desse pluralismo, a língua se estabeleceu não como um sistema monolítico, mas como um conjunto de normas e usos em constante transformação. Assim, a noção de um "português brasileiro" único dá lugar à compreensão de uma língua multifacetada, onde as diferenças regionais e sociais são intrínsecas à sua própria natureza. No entanto, paralelamente a essa diversidade, consolidou-se uma tradição de valorização de um padrão escrito e oral hegemônico, frequentemente associado a grupos sociais privilegiados. Esse pano de fundo de diversidade e tensão entre variedades linguísticas fornece o cenário ideal para se compreender os desafios enfrentados por comunidades que utilizam o português como segunda língua ou em contextos de educação bilíngue. A história interna do português no Brasil é, assim, também a história de seu encontro, por vezes conflituoso, com outras formas de expressão e com os falantes que navegam entre diferentes sistemas linguísticos e culturais.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Cessão
Proveniência
Exótica Cinematográfica
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações

Exposição