O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre as aproximações, diferenças e as muitas questões que permeiam a língua portuguesa e a língua de sinais.
Algumas pessoas já me perguntaram: “Sylvia, a Libras tem quantas palavras?” “Oi? O português tem quantas palavras?” “Ah, muitas!” “Então: Libras também, muitas”. “Ah, mas Libras tem sentimento?” Oi? Nossa! Que pergunta! Estamos no século XXI! Ok, aí eu tento explicar: “Sim, tem emoção, tem tudo!” Esses questionamentos são estranhos. Em outra situação, um ouvinte me pergunta: “Libras tem verbo?” Peraí. “Você não entendeu o conceito de língua?” “Língua significa que ela tem tudo!” “A língua portuguesa é completa, tem tudo!” “As línguas africanas são completas, da mesma maneira é com a Libras!” “Ah, mas a Libras é mímica.” “Eu estou fazendo mímica para você?” “Não.” “Então!” Erika Mota, tradutora e intérprete de Libras A língua de sinais é um conjunto de línguas visuais, né? E a língua de sinais brasileira é a Libras, então eu posso falar “língua de sinais” ou eu posso falar “Libras”. Se eu falo: “Língua de sinais”, eu posso me referir a qualquer país do mundo, as línguas de sinais. “Libras”, é só aqui no Brasil.
Língua? Qual é o conceito de língua? A Libras é uma língua. Dentro dessa língua existem características próprias, como gramática, conceitos, etc... E na língua portuguesa? As palavras são ligadas às sonoridades, pois os ouvintes separam as sílabas de acordo com o som. Já na Libras não utilizamos o espaço sonoro. Utilizamos o espaço visual. Fábio de Sá, professor de Libras e artista Por exemplo, quando um surdo vê uma sinalização em Libras surge uma visualização mental em língua de sinais e não uma visualidade mental com frases em português. Surge uma visualidade mental em língua de sinais ou a visualidade do próprio objeto, ou ainda a visualidade desses dois planos.
É... Não consigo dimensionar o tanto que expandiu o meu universo a partir da língua dos sinais. É... É uma língua corpo, visual, e potencializou muito a minha comunicação a partir da aquisição dessa língua. Então, nesse encontro do oral, da língua oral para a língua imagem, é... Eu aprendi que eu vou com o corpo inteiro aqui na imagem.
Existe um incômodo para os ouvintes e para os surdos. Quando estão numa conversa falando sobre a vida, os ouvintes dizem, “por que nunca pensei nisso antes?” Vou usar e tentar criar regras e escolher regras que combinem, porque os ouvintes podem conhecer as regras pra poder participar e ter empatia para aprender, aprender tudo, não é só falar, falar, falar, é mais abrangente. Por isso a gente costuma dizer: “quer saber qual o sinal para saudade?”. A palavra “saudade” é bonita, mas é muito mais bonito: [faz o sinal de *saudade*]
A relação das duas línguas quando elas se encontram é de atrito, de fricção, de tensão. É... Quando ela não parte da subordinação, né? Quando não tem uma língua maior que a outra, ela entra em tensão, porque eu preciso me avizinhar dessa outra língua. Porque não é só transpor de uma língua para a outra. É transformar. Trans. Porque a tradução, ela passa pelo imaginário da pessoa também, né? O olhar que ela tem sobre aquilo. Por isso que é necessário avizinhar e conhecer os espaços, porque você cria um repertório, um imaginário daquele lugar sem estereotipar. Que é a grande questão. Leo Castilho, arte-educador e artista Eu me lembro do início do Corposinalizante no MAM (Museu de Arte Moderna de SP), a gente começou a conversar, a bater papo, sobre a criação de performances, aí começamos a falar sobre um determinado texto poético e ficamos na dúvida, porque era um manifesto, mas nunca havia surdos sinalizando nesse contexto de uma forma poética, sabe?
Porque o surdo achava que para a poesia era necessário o português. Existia essa dependência, essa preocupação com o português, como se fosse uma tradução. Daí começamos a fazer poesia a partir da nossa língua. Os ouvintes tentam, nos observam, mas é diferente. E, com o passar dos anos, percebemos que na nossa língua é possível fazer uma poesia potente, impactante, forte!
No “poetry slam”, por exemplo, batalha de poesia, né? Quando a gente... Quando a gente recebe um... um texto, o texto não só na forma grafada, mas o texto como... como algo a ser traduzido, né? Você precisa pensar na etnografia, a tradução etnográfica. Não é apenas a palavra da outra palavra. Signo pelo signo. Semântica pela semântica. Ela é além de.
Fiquei analisando, tentando entender aquela situação... É uma batalha de rap? Não, eles estão fazendo poesia... Ah, estão fazendo poesia, é diferente! Aí depois a intérprete foi para o lado do poeta. Nossa! O que é isto?! A intérprete sinalizando numa batalha de poesia... A partir desse dia houve uma mudança radical! Porque ela não era intérprete dessa esfera, ela era professora de Literatura e com uma vasta experiência em Libras, com crianças, com a prática de leitura de muita poesia, mas para ela e para todos os intérpretes, para mim, para os surdos, para todos foi impactante o universo dos slams!
Essa relação de troca potencializa o encontro entre as línguas. A língua de sinais toca, como a oralidade também toca. Quando essas coisas se juntam é uma potência cruzada de muito valor! Leo Castilho, arte-educador e artista Então tem muita gente começando a fazer poesia sem português, porque a gente grava e isso é uma escrita também.
Há uma mudança do ano de 2014 em diante. Por conta da influência dos slams, começamos a construir essas potencialidades poéticas, e acreditamos que estamos indo bem. Hoje o Brasil todo está viciado nos slams e o influenciador foi o Leo Castilho.
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