O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre os usos e origens de "palavrões" e termos da língua portuguesa do Brasil usados por grupos minoritários e marginalizados, como a população LGBTQIA+.
Se considerarmos que vários termos são chulos e tem gente que não gosta de pronunciar, até “cueca” tem gente que não gosta de falar, eu gosto do “chulé” [risos], eu acho que o chulé é maravilhoso. O “chulé”, o dicionário mais antigo que eu tenho, eu tenho vários, é o do Aulet de 1881, que tem aquela ortografia que eu gosto e tal. E lá ele diz que vem de “solea”, latim. Agora alguns até inventaram uma etimologia falsa, uma fake, que seria “shoeless”, “sem sapato”, em inglês.
Eu gosto, por exemplo, de um xingamento que minhas amigas falavam o tempo inteiro: “Maricona do Edí roto!”. Edí é cu, maricona não é só um gay, maricona é um homem gay, é um homem, não é gay, é um homem que gosta de ser passivo com uma travesti, geralmente mais velho. Então, “maricona do Edí roto”, roto, do italiano de “arrombado”, assim. Então, ou seja, “maricona do edí roto”, e é isso, é o que você não esperaria que uma travesti dissesse e elas dizem de forma cotidiana, assim, né? “Bicha, às vezes você faz umas caras, e bicha não é que eu estou te xoxando não, viu? É pajubá, língua das bichas, aqui é tudo travesti. Só ficar aqui por um tempo e você já vai catando. Eu nem penei tanto, acho, acho que só fui indo, ouvindo, falando aqui um pouco, um pouco, outro ali, igual quando eu tava em Madrid, é que dá o truque no castelhano: “Soy brasileña carinho, te gusta?” “Las mariconas se quedavam doidas com a gente, doidas, doidas.”
O campo da teoria dos gêneros, ele inventou, ele se radicalizou tanto no sentido de... É como se tivessem achado uma mina de ouro, no sentido de uma interpretação das relações sociais, que é muito fecunda, e isso acabou fazendo com que a teoria dos gêneros formasse assim uma espécie de língua própria, um jargão próprio, né? Então hoje em dia você vai ler determinados textos, assim, que vêm de teóricos de gênero ou de ativistas de gênero, LGBT e tal, e é quase como se você estivesse lendo uma espécie de pajubá ali, um jargão próprio.
Eu gosto muito dessa palavra, essa palavra, se você for no dicionário de Orubá, vai descobrir que significa segredo, e aí quando as travestis, que historicamente foram segregadas e impossibilitadas de frequentar as religiões de matriz cristã aqui no Brasil, ou seja, um coletivo inteiro de pessoas, toda a comunidade LGBT de alguma forma, mas sobretudo as pessoas que encarnavam isso no próprio corpo, que eram identificadas imediatamente por serem LGBTs, que eram as travestis, né? Essas figuras foram impossibilitadas de poder cultivar sua relação com o espiritual dentro das religiões cristãs, e aí elas foram buscar esse espaço de lidar com o espiritual, com a religiosidade, dentro das religiões de matriz africana, Umbanda, Candomblé, e dentro desses lugares começaram a ter acesso, e ganhar intimidade com o Iorubá que era usado nesses espaços, para os rituais, sobretudo, e começaram a se apropriar dessas palavras para criar um dialeto que somente elas conhecessem e que seria uma espécie de um dialeto de segurança, um código de segurança.
Eu tenho minhas dúvidas se o efeito social disso é positivo, porque o que se deseja é justamente trazer qualquer forma de gênero, qualquer escolha de objeto sexual, qualquer identidade de gênero para o campo da normalidade. Então, o jargão eu acho que tende a exotizar essas formas de vida em vez de trazê-las para o campo da normalidade.
Justamente agora, nesse momento que estamos tendo um boom de visibilidade, estamos podendo acessar tantos espaços, sendo reconhecidas como figuras centrais pra gente pensar questões da nossa época e da nossa sociedade, esse é o momento em que talvez essa língua não precise mais ser uma língua de segurança, que essa língua possa começar a circular em outros espaços como a própria literatura, e aí tô gostando de brincar com isso na literatura, por exemplo. “Af! Fora o leitinho na boca, a minha, e todos, todos, parece até ensaiado: “Confia em mim, sou casado, doador de sangue.” Sei, anel no dedo? Até tem, mas o de trás já virou pulseira de tanta neca que rodou ali, a maioria no pêlo, aposto. Conheço! Edivaldo, Edivaldo, você não me engana nada... Fui brincar ali com o dedinho, conhecer o terreno, um dois, um dois, ele quase engoliu minha mão, só imagina a necometragem do lixo, depois vem se arreganhando pra cima de mim, querendo pôr cem, vê se eu deixava entrar, maricona toda desentendida. Qu'est ce que c'est? Qu'est ce que c'est? Senhor! Como eu odeio essas trucosas malditas! Viu? Eu arranho o Françoise, vez ou outra. S'il vous plait, obrigada. Não, não, obrigada é merci, merci beaucoup, grazie mille, tá, meu bem?” É muito divertido falar com uma travesti que viveu muito tempo na Itália, que ela vai falar metade da frase em português, metade em italiano, e aí vai ficar brincando de: “Ah, eu não capisco mais português!” [risos] E fica assim, num italiano, num portuliano, num italiano oral, num italiano todo particular da comunidade travesti brasileira nesses países, não é o italiano que um italiano entenderia muito facilmente, muitas vezes, né? E isso é tão rico, sabe, isso é tão poderoso, o Joyce, ele era apaixonado pelos idiomas, mas ele gostava tanto do idioma falado com muita propriedade e correção, mas ele gostava também do idioma falado porcamente, assim, dos idiomas estrangeiros falados porcamente, né? Eu lembro do Blum, do Leopold Blum, no Ulysses, tem um momento, assim, que ele vê uns italianos conversando na rua, ele fala: “Bella poetria!” [risos] Tipo, criando um italiano que não existe, poetry, ele coloca em italiano, em vez de bella poesia, bella poetria, né? E aí o Steven, que fala italiano fluentemente, olha pra ele e fala: “Eles estão brigando, eles estão se xingando, e você tá entendendo a língua deles como poética?” Então, ou seja, era isso, sabe? É fascinante, sabe? Eu quero trazer essa confusão de idiomas, e esses idiomas mal falados, eu quero ver a beleza do idioma mal falado, um idioma que não se adequa às normas, né? Acho que um pouco o espírito anárquico brasileiro tem isso, desde o nosso modernismo ali, que a gente institui a contribuição milionária de todos os erros, né? Então, acho que isso, pra mim, é o que mais me encanta.
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