O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre os usos e origens de "palavrões" na língua portuguesa do Brasil, assim como seu "puritanismo".
“Passada! O ocó, cê acredita que ele pediu pra eu nenar na neca dele? Ainda bem que na neca e não na boca, porque você sabe que tem. Três horas fazendo a chuca e me aparece o lixo. A hora que eu passo o cheque, eles enfiando fundo no edí da gente, horas e horas. “Ai, que nojinho!”, fazem escândalo. “Como você é porca, desse jeito não tem mais como.” Hum, essência de flores, é o que eles queriam ali, acredita? Ali não é bem o que tem. Tem é o jantar de ontem.”
O que a gente observa na cultura, e principalmente com a história recente do Brasil, que alternou períodos de ditadura militar com períodos mais democráticos, é justamente isso. Eu que fui bibliotecário, sou formado em biblioteconomia e trabalhei como estagiário ou visitante em várias bibliotecas, eu observei que no inferno das bibliotecas, que são aqueles depósitos onde ficam os livros que não podem ser consultados, por algum motivo, você sempre encontrava livros de pornografia, livros que atentavam contra os bons costumes, né? [música ao fundo] Amara Moira, escritora e professora de Literatura Mas, checão deles, parcelado e com fundo. Esse, oh, se tem fundo, aí tem que lidar normal. Cheirão babado, empestando ar e a cara de paisagem do infeliz. “O que foi que eu fiz? O que foi que eu fiz?” Glauco Mattoso, escritor Ao contrário, você via, por exemplo, uma literatura marxista ser censurada numa ditadura de direita, e aí, quando era o contrário, você via livros como “Mein Kampf” (Minha Luta – Adolf Hitler) ou aquele do tal do Ustra lá, serem condenados como completamente inadequados num regime de esquerda. Ao contrário, a pornografia, ela é condenada em todos os regimes. Ela é sempre mal vista, o pornógrafo é sempre tido como alguém de mau gosto, alguém que é pernicioso, alguém que não respeita padrões civilizados. Isso é que é bom, isso é um estímulo, porque, como diz o ditado português, “O proibido aguça o dente”. [música ao fundo]
O Brasil tem essa fama de país esculhambado, da sacanagem, do carnaval, da putaria, mas na linguagem, tanto na escrita como na falada, principalmente na escrita, que não aparece nada, é como se a gente fosse um bocado de freiras. Os livros têm muito pouco, a literatura brasileira moderna já tem mais, mas o Jorge Amado é o autor que usa mais palavrão no Brasil. Tem uns poucos exemplos, mas, no geral, a gente é muito recatado na hora de escrever literatura e um pouco também na fala.
A gente tem uma linguagem coloquial que é diferente da linguagem formal escrita, mas isso não inviabiliza o uso de ambas e, muito menos, o conhecimento que o escritor deve ter do idioma. Ele pode usar conscientemente, como eu faço, todos os palavrões, as gírias, os eruditismos e tal, os cultismos, mas tem que ser uma coisa com conhecimento de causa, não pode ser no chutômetro. Aliás, “chutômetro” é uma palavra maravilhosa, é como “sambódromo”. Vocês já repararam que “dromo” é do grego, né? Então, você teria que ter uma palavra grega para juntar com outra palavra grega para formar uma palavra pura, como “hipódromo”, “hipo”, cavalo e “dromo”, lugar onde isso circula. Agora, “sambódromo” é africano com grego, é aquela antropofagia típica da língua portuguesa, e “chutômetro” é maravilhoso. Soneto, sina, fesenina. Propuseram ao poeta versejar sem palavrão. Respondeu-lhes: “Essa meta não condiz com o meu colhão.” “Mas você não interpreta o que fala o coração?” Insistiram. “Não! Me afeta só tesão.” lhes disse então. “Mas talento você tem, poderá criar também, outra coisa!” Alguém rebate. “Vão tomar no cu, que merda! Quem dissade os temas erda, falem foda, a testa ouvate.”
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