Museológico

Língua e opressão 2

2020

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
fala_aud_18
Título
Língua e opressão 2
Descrição

O vídeo é uma entrevista com diversos intelectuais, artistas, pesquisadores e professoras especialistas da língua portuguesa. Dentre os assuntos, elas falam sobre os termos e palavras que são usados muitas vezes como forma ofensiva e como isso reflete os valores da própria cultura e das relações sociais.

Transcrição do áudio:

Amara Moira, escritora e professora de Literatura

A partir do momento que criaram essa categoria de pessoas trans, de pessoas travestis e tudo mais, o que não perceberam, o que não se deram conta é que estavam criando uma categoria, a categoria oposta também. Porque se existem as pessoas que são trans, existem as pessoas que não são trans. E é preciso que a gente nomeie isso. Para que essas pessoas que não são trans, elas deixem de se ver como pessoas normais. Uma coisa que é terrível é justamente isso. As pessoas se verem como pessoas normais em contraposição a outros grupos sociais. Eu quero que as pessoas tenham vergonha de ser consideradas normais, de se sentirem normais. Eu quero que elas tenham medo disso. Isso é pesado. A norma, ela cria exclusão, ela cria violência, ela cria opressão contra grupos inteiros.

Francisco Bosco, poeta e filósofo

A linguagem não é um campo neutro, esvaziado de sentido político. Ao contrário, a linguagem é precisamente o lugar onde se formulam, se reproduzem, se naturalizam e se perpetuam os preconceitos que, por sua vez, mantém as estruturas das relações sociais. Essa premissa é a premissa fundamental em jogo e ela me parece irrefutável.

Amara Moira, escritora e professora de Literatura

Então, quando a gente cria a categoria “cis”, a gente está simplesmente pegando a palavra “trans”, indo no dicionário latino e percebendo qual é o oposto de trans, que é justamente cis. “Trans” é aquilo que cruza uma dada linha. Então, eu fui criada para ser um homem e reivindico uma identidade feminina. Eu cruzei uma linha imaginária que separaria homens de mulheres. Num mundo que não deveria isso acontecer. [música ao fundo] Cis é aquilo que permanece sempre de um lado. Cisjordânia é uma região que está de um lado do Rio Jordão. Então, ou seja, tem algo que cruza uma linha definida e tem algo que fica apenas de um lado, sem nunca cruzar isso. As pessoas que não cruzam não são pessoas normais. Elas são pessoas que não cruzam. Não cruzam por mil motivos. Podem não cruzar por medo, inclusive. Francisco Bosco, poeta e filósofo O que é importante? A partir dessa premissa, o importante é fazer com que as pessoas tomem consciência do sentido político da linguagem. Ou seja, de que o uso de determinadas expressões que designam pejorativamente indivíduos pertencentes a grupos subalternizados, esse uso faz com que as estruturas sociais permaneçam rígidas e hierárquicas, cheias de preconceito. Então, se você quer mudar as relações sociais, você tem que mudar a língua.

Leo Castilho, arte-educador e artista

Um exemplo: este é o sinal para “indígena”. Entre os povos indígenas existem diferenças. Os indígenas do Brasil são diferentes dos de outros países. Durante anos o sinal de “indígena” era feito desta forma: Onde você viu um índio brasileiro com duas penas na cabeça fazendo esse movimento? Onde você viu essa cultura? Aqui no brasil não é dessa forma! Hoje sinalizamos assim: Alguns usam alargadores pelo corpo, outros usam cocar, como os pajés, são várias culturas. Então usamos como referência para sinalizar as especificidades das suas culturas.

Glauco Mattoso, escritor

Eu não gosto de politicamente correto. Eu acho que as coisas têm que ser... As palavras estão no dicionário. É que nem o verbo judiar, que os judeus não gostam. E realmente não é para gostar! Porque tem um histórico, né? Isso aí remete a todas as perseguições e todos os pogroms e todos os nazismos que perseguiram os judeus. Por isso que o verbo judiar está lá. Mas, ao mesmo tempo, o Noel Rosa falava de judeu como sinônimo de avarento, nas letras dele. Você vai apagar isso? Não tem como. Então, a cultura está aí e, embora ela esteja eivada de coisas negativas, a gente tem que trabalhar com isso. Nós temos que conviver com essa miscelânea, com essa mistureba. Então, faz parte. E os termos mais chulos e mais pejorativos, eles fazem parte da língua e a gente não pode fingir que eles não existem.

Djamila Ribeiro, filósofa e escritora

As pessoas falam: “Ah, mas que chato, agora eu não posso mais falar, isso é mimimi, vocês querem impedir as pessoas de falar.” Primeiro que a gente não pode impedir ninguém de falar nada. As pessoas, elas falam, mas elas podem ter um entendimento daquilo que carrega. Se eu acho que algo que eu falo carrega um valor que é opressor, que vai machucar a outra pessoa, se eu vivo em sociedade, e viver em sociedade significa que a gente tem que aprender também os limites que é disso, por que eu não posso refletir, e falar : “Pô, eu não vou mais falar isso!”, porque não me custa nada não falar aquela palavra. Mas falar aquilo pra pessoa custa muito, custa, muitas vezes, a autoestima dela. Eu fui uma criança com vários problemas de autoestima em relação ao cabelo, por conta das piadas que eu ouvi a minha vida inteira em relação ao meu cabelo, isso custa muitas vezes a pessoa sentir vergonha de quem ela é.

Amara Moira, escritora e professora de Literatura

E hoje, eu gosto tanto da palavra travesti, porque ela é a palavra maldita, essa é a palavra que não pode frequentar os espaços. As pessoas muitas vezes me apresentam como mulher trans, apesar de eu nunca praticamente usar essa palavra. Num jornal, numa reportagem, tudo, vão lá e colocam: “Amara Moira, mulher trans”. Eu não uso essa palavra, as pessoas não me veem usando essa palavra, mas colocam por achar que travesti é uma palavra que remete muito a essa vida marginalizada, excluída de direitos, uma subvida muitas vezes. E eu gosto de forçar essa palavra a frequentar esses espaços que não estão acostumados a vê-la tão pertinho.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:06:10
Formato
MOV

Contexto de produção

Amara Moira ParticipantePessoa
Leo Castilho ParticipantePessoa
Glauco Mattoso ParticipantePessoa
Djamila Ribeiro ParticipantePessoa
Exótica Cinematografia ProduçãoInstituição
Francisco Bosco ParticipantePessoa
Local de Produção
Contexto de produção
Desde a colonização, a língua introduzida pelos portugueses entrou em contato com uma multiplicidade de línguas indígenas e, posteriormente, com as línguas trazidas pela diáspora africana. Esse embate inicial não foi apenas linguístico, mas também cultural e político, estabelecendo o português como língua de dominação enquanto suprimia outras línguas e modos de expressão. Ao longo dos séculos, esse português brasileiro foi se distanciando do europeu, desenvolvendo características fonéticas, sintáticas e lexicais próprias. No entanto, longe de ser homogêneo, a língua reflete as profundas desigualdades sociais do país. A língua padrão, associada às elites, tornou-se um instrumento de poder e normatização, enquanto as variedades populares e os falares regionais foram frequentemente estigmatizados. Nesse sentido, a língua não é um sistema neutro, mas um campo de disputa onde se negociam identidades e hierarquias. O vocabulário e as estruturas linguísticas carregam consigo valores sociais que podem perpetuar preconceitos de raça, gênero, classe e capacidade.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Cessão
Proveniência
Exótica Cinematográfica
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações

Exposição