O vídeo é uma entrevista com professoras especialistas e pesquisadoras da língua portuguesa. Dentre os assuntos, elas falam sobre a depreciação e apagamento que a norma oficial da língua portuguesa no Brasil exerce sobre populações marginalizadas e de diferentes povos, como os indígenas e os da diáspora africana, por exemplo.
Um sujeito que às vezes não usa a língua formalmente, ele é visto como indigno, ele é visto como descartável, ele é visto como um ser que não merece ser ouvido. Isso pra mim é um absurdo, isso pra mim não deixa de ser uma violência. Ao mesmo tempo que você vive num país em que o acesso a essa língua formal, quanto mais difícil ele é, mais ele protege quem determina que o outro tá errado, que o outro não deve falar. Por isso que a gente está falando sobre poder.
Dentro da escola onde eu estudei, normalmente era mais forte a presença do português. Porque nas escolas, antigamente, era proibido usar Libras. Naquele tempo, batiam e amarravam as mãos dos surdos. Sylvia Lia, professora de Libras Deviam pensar que o uso da língua de sinais aumentaria a minha “deficiência”. Era preciso oralizar de um jeito “normal”, “corretamente”. Batiam em nossas mãos e falavam: “Para com isso, sinalizar é feio. Você precisa oralizar!” Isso gerava constrangimento para o surdo!
Há uma disputa nesses falares, digamos assim. Não só temáticos, mas do próprio modo de falar. Pra questionar, pra criticar esse “falar” oficial. Enfim, do mando. [música ao fundo] E aí vale uma referência que eu acho muito interessante, que a norma padrão, porque você tem a norma gramatical, você tem a norma culta, a norma padrão, são normas da língua. E a norma padrão, que é só idealizada, não existe como língua. A palavra “patrão” tem a mesma origem da palavra “padrão”. Padrão e patrão. Então, a norma padrão vem de patrão. Quer dizer, é a fala do patrão, quer dizer, é a fala de quem manda.
E nisso, eu acho que o que mais me afeta, enquanto mulher negra nessa sociedade, é parar pra pensar no tanto de gente que tem um poder enorme com as palavras, que tem um poder de escrita, de fala, de movimentação a partir do discurso, e que se sente inseguro nesse lugar, porque acha que não está seguindo as normas corretas do português. Isso me preocupa muito, porque eu conheço uma série de mulheres que escrevem muito, mas elas nunca publicam, elas nunca mostram, elas têm medo.
Mas a gente é muito atacada na Academia, é muito interessante. Nós que somos acadêmicas que dialogamos, isso é visto como algo menor, porque o correto é você falar de uma maneira rebuscada que ninguém vai entender. Mas como eu sou feminista negra, e elas fazem esse debate de que a gente precisa falar de modo que as pessoas entendam, não porque as pessoas não têm capacidade, não é um debate sobre capacidade, é um debate sobre oportunidades. Muitas das mulheres como eu não tiveram oportunidade de estudar, de fazer um ensino superior. Então, a gente tem que falar com as pessoas de modo que elas vão entender o que a gente tá falando, porque elas não tiveram oportunidade de acessar muito dos espaços que a gente está. E linguagem é poder. Então, eu estudei filosofia. Quem não estudou filosofia não tem a mínima obrigação de entender o que eu tô falando. E se eu falar numa linguagem muito, eu brinco, “filosofês”. Porque se eu estou fazendo um debate sobre raça, sobre gênero, mas eu estou falando de uma maneira extremamente rebuscada, como que eu vou querer que outras pessoas, que não tiveram as mesmas oportunidades do que eu, entendam o que eu estou falando? O debate é pra, de fato, a gente construir uma luta, uma luta que vai contra essas assimetrias históricas, ou é um debate para manutenção de poder, ou é um debate para o nosso ego, ou é um debate para ficar preso criando nichos de poder. Acho que são essas as perguntas que as pessoas precisam se fazer.
Acho que eu sei escrever nessa linguagem acadêmica. Na verdade, eu estou querendo desaprender a escrever nessa linguagem muito pedante, muito cisuda, muito contida. Eu acho que eu aprendi muito a escrever nesse modelo e cada vez mais eu quero vazar esse modelo. Eu queria conseguir escrever um ensaio literário usando termos do Pajubá como conceitos de literatura. Então, “fazer a chuca”. Eu queria pensar como a gente poderia transformar a “chuca” num conceito literário, ou outras palavras ali. Só que ainda não consegui sentar e jogar isso tudo no papel. Mas isso é um plano, é um projeto. Mas, enquanto isso, algo que eu vejo de muito nítido assim na minha transformação de como eu enxergava a literatura antes da minha transição e depois da transição, é o quanto essa nova perspectiva que eu assumo, ela torna algumas questões tão visíveis que antes coisas que eu não percebia.
Houve um momento na história de construção dos estados nacionais em que se trabalhou muito a unidade, o homem, os direitos do homem, em como se fosse tudo muito homogêneo. Um país, uma nação, um povo, uma língua. Isso é uma construção da cultura. E como construção da cultura, existem outras possibilidades culturais. Na verdade, uma construção cultural muito mais representativa é a da diversidade. Os países não são homogêneos. Eles não têm uma única cultura. Não existe uma única forma de família. Existem muitas formas de família. Existem muitas formas de comportamento. Existem muitas formas de língua.
Por exemplo, eu desde muito cedo usava a oralização para me comunicar. Com o passar do tempo, com as experiências em viagens, idas a festivais em diferentes lugares do mundo, diminuí a oralização do português e aumentei o uso da língua de sinais. O meu corpo ficou potente e a vontade de sinalizar cada vez mais aumentava. Então eu prefiro oralizar menos e sinalizar mais. Sylvia Lia, professora de Libras Eu não gosto, eu não quero falar com a minha voz, porque eu já falo com as minhas mãos! Eu já falo com a mão, pra que eu preciso usar a voz? Por quê? Eu não consigo entender. Eu escolhi falar com as minhas mãos. Com elas eu posso ser eu.
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