"O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre as aproximações, diferenças e as muitas questões que permeiam a língua portuguesa e a língua de sinais.
No início, quando descobriram que havia surdos, tentaram entender qual era a forma de comunicação usada, e perceberam que era uma comunicação diferente. Houve uma tentativa de nos “consertar” e em meio a essas buscas e pesquisas, perceberam que as Libras era uma resposta e essa língua foi difundida, abrindo espaços, abriram inclusive escolas. Até que, em 1880, houve um congresso de educação em Milão, onde foi discutido o uso da língua, e concluíram que surdo não podia aprender língua de sinais, precisava oralizar. Os ouvintes sentiam que não tinham acesso aos surdos por isso quiseram nos “consertar”. Aí começaram a nos proibir de usar a língua de sinais, fomos obrigados a oralizar, isso em todas as escolas.
Era como se eu tivesse muito medo de falar errado e apanhar, me pediam para falar a palavra “água”, “homem”, mas eu falava com uma expressão de medo, porque eu não conseguia oralizar perfeitamente e, quando algum surdo conseguia, era aplaudido. Já eu, não, e isso me deixava triste. Eu não conseguia falar “banheiro” por causa do “nh”. O “nh” eu não conseguia oralizar, então era difícil pra mim a palavra “banheiro”. Então se eu pedia: “Posso ir ao banheiro?” Diziam: “Não, você está oralizando errado”, mas eu tentava oralizar e não conseguia. Fui proibida de ir ao banheiro por causa disso e acabei urinando na sala.
Então, nas escolas, o ensino predominante era o português, então eu aprendi português, mas também tinha o ensino de Libras, então eu cresci falando as duas línguas. Mas me atrapalhou um pouco no campo da imaginação, porque eu percebi que a minha língua mais forte é Libras, porque pode usar o corpo, as expressões, sinalizar todas as percepções.
Com relação ao bilinguismo, o professor tem que ter fluência nas duas línguas. Se o ensino partir dessa condição, o aluno surdo consegue ter o entendimento da escrita, da estrutura das frases, e assim consegue se desenvolver na escrita. Em outras escolas onde o professor não tem clareza na forma de ensinar o português para o aluno surdo, ele cresce sem entender a estrutura do português e a sua escrita fica prejudicada, porque faltou clareza no ensino do português como L2 (segunda língua).
Por exemplo: quando um professor entra na sala, vê um aluno surdo e se assusta, numa sala de inclusão, ele não teve preparo na sua formação. Estamos falando de um professor que presta concurso para lecionar, é aprovado e quando se depara com um aluno surdo, se dá conta desse despreparo. Isso acontece em todo o Brasil: são aprovados, mas não adequados.
No meu mestrado, por exemplo: a escrita tem que ser acadêmica. Nossa... eu tinha vontade de colocar fogo! Por quê? Vou dar um exemplo: vocês ouvintes escutam as palavras repetidas vezes, então o processo de escrita se dá espontaneamente. Para nós surdos, é diferente, nós sinalizamos. Então perdi o interesse em estudar, porque foi muito traumatizante, chorei muito, sofri. Depois de 10 anos... um amigo insistiu para eu entrar no doutorado. Eu demorei 2 anos para aceitar a ideia, mas aí depois eu pensei e resolvi tentar. Pensei: “É óbvio que eu não vou passar na USP”... mas eu passei!
Um exemplo: a expressão: “sabor de uva”, essa preposição “de” não faz o menor sentido para nós, surdos. Quando eu tinha 20 anos de idade, um professor surdo disse que ia me explicar o uso da preposição “de”, e eu fiquei muito curioso pra saber o que ele diria. Ele sinalizou o “de” da expressão “sabor de” como “próprio”, eu estranhei a frase “sabor próprio”... “próprio”? Não, quero dizer que em “sabor de uva”, o sinal “de” diz respeito ao sabor específico daquela fruta. Ah!!! Agora entendi o uso da palavra “de” no português e como ela se apresenta na minha língua! Está se referindo ao sabor de uma fruta! Ah! Entendi! Mas só aos 20 anos, quando houve uma tradução correta! Com explicações claras com esta, fica possível escrever corretamente o português. No ensino falta clareza, por quê? Por quê?
Um exemplo: um tempo atrás me mandaram uma mensagem, eu conhecia a palavra em questão, mas não entendia o uso naquele contexto. Eu conhecia, mas não sabia o que a pessoa queria dizer. A mensagem dizia: “Ah, meu bem!” A pessoa escreveu: “meu bem”. Fiquei ali tentando entender, “será que significa se eu estou bem?” Eu demorei para descobrir que significa “meu amor”!
Tenho sorte em estar em uma área que eu gosto, a Neurolinguística. Eu gosto muito dessa área, é minha área de pesquisa. Claro, tem o português, que ainda é um desafio pra mim, mas eu estou escrevendo do meu jeito. O meu orientador me auxilia. E eu quero ter prazer, não sofrer como eu sofri. Mas, infelizmente, a maioria dos surdos não tem esse vínculo com o português e eu acredito que isso ocorre devido à falta de ensino do método L2 de forma correta."
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