Museológico

Acordos ortográficos

2020

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
fala_aud_23
Título
Acordos ortográficos
Descrição

O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre as transformações da língua portuguesa e sua dinamicidade. Além disso abordam também questões relacionadas às problemáticas existentes no acordo ortográfico.

Transcrição do áudio:

Dante Lucchesi, pesquisador e professor de Língua Portuguesa

A língua está sempre se transformando, acompanhando as transformações culturais. Então, não se pode querer engessar a língua numa forma. Isso é uma característica das chamadas sociedades civilizadas, letradas, ou seja, civilizada no sentido, inclusive o termo civilização vem da palavra latina “civis civitatem”, ou seja, o “civis civitatem”, que é cidade. Então, nessas sociedades, se criou a necessidade de fixar uma forma de língua para ser usada na escrita. [música ao fundo]

Alfredina Nery, professora de Língua Portuguesa e Literatura

O que você tem, e que algumas vezes eu acho que faz uma confusão, o que você tem é uma grafia, digamos, uniformizada. Inclusive a escola fez essa confusão durante um tempo. Quando se falava em língua portuguesa, se pensava sempre o quê? Em ortografia, e se “orto”, que é “correto”, grafia, correto, pronto, você já aliava a ideia de certo e de errado. O que hoje a gente questiona muito, nós temos muitas informações da sociolinguística, enfim, da análise do discurso, de uma série de correntes que discutem a língua, de que não há essa perspectiva nem de uniformidade, que é impossível, e nem da ideia de certo e errado.

Glauco Mattoso, escritor

O que falta, na minha opinião, é mais etimologia. Etimologia é justamente procurar a origem da palavra, o histórico dela, por que ela foi usada em determinada época, e por que ela caiu em desuso, ou por que ela tende a cair em desuso. E é justamente por causa da etimologia que eu não sigo a ortografia atual, e sim a ortografia clássica, que é exatamente a maneira correta de grafar as palavras, que é seguida pelo idioma francês, pelo idioma inglês, mas não pelo espanhol e pelo italiano. Mas o espanhol e o italiano, eles já, desde o tempo de Cervantes e de Dante e Petrarca, eles já eram simplificados, então filosofia já era com F. Ao contrário, o português não, o português tinha ”philosofia”, com “ph”, por que era como o philosophy, do inglês e o philosophie do francês, exatamente. Não tinha nenhum motivo para ser diferente, é o histórico da língua, você não pode negar isso. Alfredina Nery, professora de Língua Portuguesa e Literatura Os mais tradicionalistas falam: “Ai, a língua está se deteriorando, vai acabar”, é isso mesmo. A língua é dinâmica, ela é viva, ela vai se transformar como a sociedade se transforma. Então essa sensação de perda é uma bobagem, por que acontecerá, haverá mudança no tempo e haverá variação no espaço, é isso, toda língua é isso.

Glauco Mattoso, escritor

Na época do Getúlio Vargas, por uma simples decisão assim, uma canetada, para agradar alguns acadêmicos da ABL, que eles queriam o Trianon, que era propriedade do governo, e o Getúlio doou o Trianon pra academia. Em troca, ele foi eleito acadêmico, sem ser escritor, disfarçaram lá que tinham uns discursos que ele proferiu, que eram literários, reuniram em livro e ele se tornou acadêmico. Ai virou moda nomear político para a Academia Brasileira de Letras, eleger político. E ai ficou essa mamata, né? Reformaram a ortografia para vender mais dicionário e gramática, e isso continua até hoje, de vez em quando fazem uma nova reforminha, bem fajuta. E eu não quero saber disso, eu acho que a gente tem que se rebelar também nesse ponto, nós temos que ser independentes. O livre pensador, ele tem que ser independente. [música ao fundo]

Valter Hugo Mãe, escritor

O acordo ortográfico tem muitos erros, tem várias propostas que me parecem abusivas, mal pensadas, mas há algo no acordo ortográfico que me interessa, que é a ratificação dos diversos casos, ou seja, deixar de considerar as variações que o Brasil propõe, que Angola ou Moçambique possam a propor, deixar de considerar erros à luz da ortodoxia da língua portuguesa. Isso parece-me fundamental. Eu posso dizer que cresci um pouco enfrentando alguns preconceitos em relação às formulações que não eram de Portugal, e isso sempre mexeu comigo, porque como aproveitei da poética de todos os países, e como me parece que a amplitude que eles permitem, que eles trazem à língua é preciosíssima e imperdível, horroriza-me, e eu creio que é ofensivo, que possamos considerar que as decisões que os brasileiros tomam sejam erradas. Por isso, nesse aspecto, eu acho que o acordo ortográfico é válido e poderá ser até um instrumento de dignificação. Isso serve para dignificar as decisões que são tomadas por outros povos que não o povo português.

Glauco Mattoso, escritor

Se você estuda a origem das palavras, você vê o que vem do latim, o que vem do grego, o que se formou no próprio idioma, o que veio de dialetos africanos e idiomas indígenas, que não tinham literatura, eles só tinham linguagem falada, então nós é que interpretamos o que eles falavam e escrevemos. Por isso que Curitiba tem Y no TI, que foi a maneira como se convencionou grafar. Então, se convencionou, não pode mexer. Eu sou muito contraditório, você tá percebendo, não é? Eu sou muito avançado em algumas coisas e muito conservador em outras, mas isso faz parte da minha filosofia de vida. A aranha arranha a aranha e o rato rói a roupa rococó do rei de Roma. Três tristes tigres trepam em Sodoma, a plebe aplaude o pleito do playboy. Mamão maduro mancha a mão que o mói. A dama do mazoca o soca e doma. Glauco Matoso é o globo com glaucoma O dedo do detento é duro e dói. Bilu tetéia, pinto, pingulim, escubidu, banzé, pluto, capeto, Snupe, rintintim, milu, tintim Só sinto sono se me sai soneto. Pirlimpimpim pra mim é pó marfim. Pois o peito do pé do Pedro é preto.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:04:45
Formato
MOV

Contexto de produção

Exótica Cinematografia ProduçãoInstituição
Dante Lucchesi ParticipantePessoa
Alfredina Nery ParticipantePessoa
Glauco Mattoso ParticipantePessoa
Valter Hugo Mãe ParticipantePessoa
Local de Produção
Contexto de produção
Originária do latim vulgar trazido pelos colonizadores a partir do século XVI, a língua não foi simplesmente introduzida, mas reconstituída em um novo contexto. Esse desenvolvimento deu-se por meio do contato intenso entre falares de populações indígenas, afrodiaspóricas e dos próprios portugueses, resultando em uma rica variedade linguística. Ao longo dos séculos, consolidou-se uma norma padrão, principalmente a partir da transferência da corte portuguesa em 1808 e da posterior independência, quando a língua se tornou um símbolo de unidade nacional. No entanto, paralelamente a essa norma, uma vasta gama de variedades regionais e sociais continuou a florescer, cada uma com suas particularidades. Esta realidade evidencia que o português brasileiro não é uma entidade homogênea, mas um conjunto de falares que refletem a complexa formação social do país. No século XX e XXI, o debate sobre a língua intensificou-se, abrangendo discussões sobre identidade, prestígio e variação. A tensão entre uma visão que compreende a língua como um sistema dinâmico e vivo e outra que a vê como um código fixo e uniforme tornou-se central. Nesse panorama, questões sobre a representação da diversidade linguística e os mecanismos de sua padronização, como reformas ortográficas, ganham relevância, ilustrando o contínuo e necessário diálogo entre a unidade da língua escrita e a pluralidade de suas manifestações orais no território nacional.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Cessão
Proveniência
Exótica Cinematográfica
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações

Exposição