O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre as transformações da língua portuguesa e sua dinamicidade. Além disso abordam também questões relacionadas às problemáticas existentes no acordo ortográfico.
A língua está sempre se transformando, acompanhando as transformações culturais. Então, não se pode querer engessar a língua numa forma. Isso é uma característica das chamadas sociedades civilizadas, letradas, ou seja, civilizada no sentido, inclusive o termo civilização vem da palavra latina “civis civitatem”, ou seja, o “civis civitatem”, que é cidade. Então, nessas sociedades, se criou a necessidade de fixar uma forma de língua para ser usada na escrita. [música ao fundo]
O que você tem, e que algumas vezes eu acho que faz uma confusão, o que você tem é uma grafia, digamos, uniformizada. Inclusive a escola fez essa confusão durante um tempo. Quando se falava em língua portuguesa, se pensava sempre o quê? Em ortografia, e se “orto”, que é “correto”, grafia, correto, pronto, você já aliava a ideia de certo e de errado. O que hoje a gente questiona muito, nós temos muitas informações da sociolinguística, enfim, da análise do discurso, de uma série de correntes que discutem a língua, de que não há essa perspectiva nem de uniformidade, que é impossível, e nem da ideia de certo e errado.
O que falta, na minha opinião, é mais etimologia. Etimologia é justamente procurar a origem da palavra, o histórico dela, por que ela foi usada em determinada época, e por que ela caiu em desuso, ou por que ela tende a cair em desuso. E é justamente por causa da etimologia que eu não sigo a ortografia atual, e sim a ortografia clássica, que é exatamente a maneira correta de grafar as palavras, que é seguida pelo idioma francês, pelo idioma inglês, mas não pelo espanhol e pelo italiano. Mas o espanhol e o italiano, eles já, desde o tempo de Cervantes e de Dante e Petrarca, eles já eram simplificados, então filosofia já era com F. Ao contrário, o português não, o português tinha ”philosofia”, com “ph”, por que era como o philosophy, do inglês e o philosophie do francês, exatamente. Não tinha nenhum motivo para ser diferente, é o histórico da língua, você não pode negar isso. Alfredina Nery, professora de Língua Portuguesa e Literatura Os mais tradicionalistas falam: “Ai, a língua está se deteriorando, vai acabar”, é isso mesmo. A língua é dinâmica, ela é viva, ela vai se transformar como a sociedade se transforma. Então essa sensação de perda é uma bobagem, por que acontecerá, haverá mudança no tempo e haverá variação no espaço, é isso, toda língua é isso.
Na época do Getúlio Vargas, por uma simples decisão assim, uma canetada, para agradar alguns acadêmicos da ABL, que eles queriam o Trianon, que era propriedade do governo, e o Getúlio doou o Trianon pra academia. Em troca, ele foi eleito acadêmico, sem ser escritor, disfarçaram lá que tinham uns discursos que ele proferiu, que eram literários, reuniram em livro e ele se tornou acadêmico. Ai virou moda nomear político para a Academia Brasileira de Letras, eleger político. E ai ficou essa mamata, né? Reformaram a ortografia para vender mais dicionário e gramática, e isso continua até hoje, de vez em quando fazem uma nova reforminha, bem fajuta. E eu não quero saber disso, eu acho que a gente tem que se rebelar também nesse ponto, nós temos que ser independentes. O livre pensador, ele tem que ser independente. [música ao fundo]
O acordo ortográfico tem muitos erros, tem várias propostas que me parecem abusivas, mal pensadas, mas há algo no acordo ortográfico que me interessa, que é a ratificação dos diversos casos, ou seja, deixar de considerar as variações que o Brasil propõe, que Angola ou Moçambique possam a propor, deixar de considerar erros à luz da ortodoxia da língua portuguesa. Isso parece-me fundamental. Eu posso dizer que cresci um pouco enfrentando alguns preconceitos em relação às formulações que não eram de Portugal, e isso sempre mexeu comigo, porque como aproveitei da poética de todos os países, e como me parece que a amplitude que eles permitem, que eles trazem à língua é preciosíssima e imperdível, horroriza-me, e eu creio que é ofensivo, que possamos considerar que as decisões que os brasileiros tomam sejam erradas. Por isso, nesse aspecto, eu acho que o acordo ortográfico é válido e poderá ser até um instrumento de dignificação. Isso serve para dignificar as decisões que são tomadas por outros povos que não o povo português.
Se você estuda a origem das palavras, você vê o que vem do latim, o que vem do grego, o que se formou no próprio idioma, o que veio de dialetos africanos e idiomas indígenas, que não tinham literatura, eles só tinham linguagem falada, então nós é que interpretamos o que eles falavam e escrevemos. Por isso que Curitiba tem Y no TI, que foi a maneira como se convencionou grafar. Então, se convencionou, não pode mexer. Eu sou muito contraditório, você tá percebendo, não é? Eu sou muito avançado em algumas coisas e muito conservador em outras, mas isso faz parte da minha filosofia de vida. A aranha arranha a aranha e o rato rói a roupa rococó do rei de Roma. Três tristes tigres trepam em Sodoma, a plebe aplaude o pleito do playboy. Mamão maduro mancha a mão que o mói. A dama do mazoca o soca e doma. Glauco Matoso é o globo com glaucoma O dedo do detento é duro e dói. Bilu tetéia, pinto, pingulim, escubidu, banzé, pluto, capeto, Snupe, rintintim, milu, tintim Só sinto sono se me sai soneto. Pirlimpimpim pra mim é pó marfim. Pois o peito do pé do Pedro é preto.
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