Museológico

Língua e opressão 3

2020

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
fala_aud_19
Título
Língua e opressão 3
Descrição

O vídeo é uma entrevista com diversos intelectuais, artistas, pesquisadores e professoras especialistas da língua portuguesa. Dentre os assuntos, elas falam sobre os termos e palavras que são usados muitas vezes como forma ofensiva e como isso reflete os valores da própria cultura e das relações sociais.

Transcrição do áudio:

Francisco Bosco, poeta e filósofo

Se eu vou dar uma palestra e tô me dirigindo a uma plateia que tenha homens e mulheres, tradicionalmente, eu começaria com um bom dia a todos. As razões desse plural de gênero misto ser masculino, elas são controversas. Há linguistas que dizem que isso obedece apenas a uma evolução fonética da língua, que não tem nenhuma relação com o campo da teoria dos gêneros. Ok. Ainda assim, eu acho que esse caso do plural de gênero masculino é um caso que, na prática cotidiana da língua, acaba naturalizando uma espécie assim, de submissão do feminino ao masculino. Parece que o masculino é o universal. Ora, esse é um dos atributos que deve-se desconstruir na relação entre gêneros, como se o masculino fosse a regra, o neutro, o universal, e o feminino tivesse um conjunto de atributos. A mulher é uma coisa concreta, o homem é o universal, o neutro. Então, essa prática do plural de gênero masculino, ela reforça isso. Eu acho, portanto, justo e pertinente as tentativas de desconstruir isso.

Glauco Mattoso, escritor

Não, eu resolvo quando é possível, não é? Tem coisas que são... Você vê que é engraçado, né? Presidente é para os dois gêneros. Não existe presidento e presidenta, só existe presidente. Então, é simples, a língua já resolve, a regra da língua resolve. Quando é poeta e poetisa, diferencia o gênero, aí eles não querem, aí querem uma coisa só. Quando é presidente, que é uma coisa só, aí quer diferenciar, quer que tenha a “presidenta”, né? Você vê que não tem coerência nenhuma, né? [música ao fundo] Amara Moira, escritora e professora de Literatura Para mim, é um erro acreditar que “todes” seria uma forma de respeitar pessoas não binárias ou pessoas trans. Todes, para mim, é mais uma tentativa, é uma experiência, um experimento linguístico pra gente romper com o sexismo do nosso uso cotidiano do português. A gente assume que o português é uma língua machista mesmo, a gente sempre marca o masculino como plural, ou então o homem como a humanidade, mas a gente não se dá conta que a língua tá em constante transformação e depende muito de o que a gente quer transformar. Existe uma vontade de transformar algumas coisas que pode criar novos usos e permitir que, no futuro, a língua não seja tão sexista como ela é hoje.

Francisco Bosco, poeta e filósofo

Esse é um exemplo que eu acho pertinente. Há outros que eu acho impertinentes, sei lá, trocar “esclarecer” por “negritar”. Por que eu acho impertinente? Porque eu acho que a palavra esclarecer, quando a gente usa: “Vou esclarecer um problema”, a gente não está querendo dizer que a gente vai torná-lo mais claro no sentido do fenótipo, da cor da pele. A gente tá se reportando a um fenômeno óptico. Pra que a gente enxergue qualquer objeto, é preciso que tenha mais iluminação. Então, esclarecer significa mais luz e não mais claridade, que por sua vez remeteria à cor da pele.

Glauco Mattoso, escritor

Até o verbo “denegrir”, o verbo “denegrir” é muito interessante. Porque aí o “denegrir” está usando a cor preta para significar que você está diminuindo, mas ao mesmo tempo não tem nada a ver com raça. Não tem nada a ver com raça. Quando você fala assim: “Ih, a coisa tá preta”, é sinal de que esse preto é sinônimo de escuridão mesmo. Escuridão é como um obscurantismo, é uma coisa negativa. Você não consegue enxergar nada no escuro. Então realmente a questão está mais na falta de luz, e não tem nada a ver com a cor da pele. Eu sou a favor da preservação de cada palavra do idioma. Se dependesse de mim, nenhuma palavra cairia em desuso. [música ao fundo] Por exemplo, tem umas palavras como: “asinha”. Asinha significa depressa, rapidamente. “Alhures”, “antanho”, e “nenhures” ainda, nenhures é mais bacana ainda. Nenhures é nowhere. [música ao fundo]

Djamila Ribeiro, filósofa e escritora

Eu acho que questionar, não naturalizar as coisas, é o fundamental, porque a gente acaba naturalizando muitas coisas. E acho que, nas redes, a gente começa a questionar, muitas vezes, verdades que são tidas como absolutas. A gente começa a questionar coisas que são colocadas, parece que foram providencialmente fixadas e não construídas. Acho que isso que as pessoas estão dizendo: “Não, mas isso é uma construção.” E toda tradição é inventada. “Ah, mas é uma tradição.” Mas toda tradição é inventada. Se é inventada, a gente pode inventar outra.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:05:28
Formato
MOV

Contexto de produção

Amara Moira ParticipantePessoa
Glauco Mattoso ParticipantePessoa
Djamila Ribeiro ParticipantePessoa
Exótica Cinematografia ProduçãoInstituição
Francisco Bosco ParticipantePessoa
Local de Produção
Contexto de produção
Desde a colonização, a língua introduzida pelos portugueses entrou em contato com uma multiplicidade de línguas indígenas e, posteriormente, com as línguas trazidas pela diáspora africana. Esse embate inicial não foi apenas linguístico, mas também cultural e político, estabelecendo o português como língua de dominação enquanto suprimia outras línguas e modos de expressão. Ao longo dos séculos, esse português brasileiro foi se distanciando do europeu, desenvolvendo características fonéticas, sintáticas e lexicais próprias. No entanto, longe de ser homogêneo, a língua reflete as profundas desigualdades sociais do país. A língua padrão, associada às elites, tornou-se um instrumento de poder e normatização, enquanto as variedades populares e os falares regionais foram frequentemente estigmatizados. Nesse sentido, a língua não é um sistema neutro, mas um campo de disputa onde se negociam identidades e hierarquias. O vocabulário e as estruturas linguísticas carregam consigo valores sociais que podem perpetuar preconceitos de raça, gênero, classe e capacidade.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Cessão
Proveniência
Exótica Cinematográfica
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações

Exposição