O vídeo é uma entrevista com diversos intelectuais, artistas, pesquisadores e professoras especialistas da língua portuguesa. Dentre os assuntos, elas falam sobre os termos e palavras que são usados muitas vezes como forma ofensiva e como isso reflete os valores da própria cultura e das relações sociais.
Se eu vou dar uma palestra e tô me dirigindo a uma plateia que tenha homens e mulheres, tradicionalmente, eu começaria com um bom dia a todos. As razões desse plural de gênero misto ser masculino, elas são controversas. Há linguistas que dizem que isso obedece apenas a uma evolução fonética da língua, que não tem nenhuma relação com o campo da teoria dos gêneros. Ok. Ainda assim, eu acho que esse caso do plural de gênero masculino é um caso que, na prática cotidiana da língua, acaba naturalizando uma espécie assim, de submissão do feminino ao masculino. Parece que o masculino é o universal. Ora, esse é um dos atributos que deve-se desconstruir na relação entre gêneros, como se o masculino fosse a regra, o neutro, o universal, e o feminino tivesse um conjunto de atributos. A mulher é uma coisa concreta, o homem é o universal, o neutro. Então, essa prática do plural de gênero masculino, ela reforça isso. Eu acho, portanto, justo e pertinente as tentativas de desconstruir isso.
Não, eu resolvo quando é possível, não é? Tem coisas que são... Você vê que é engraçado, né? Presidente é para os dois gêneros. Não existe presidento e presidenta, só existe presidente. Então, é simples, a língua já resolve, a regra da língua resolve. Quando é poeta e poetisa, diferencia o gênero, aí eles não querem, aí querem uma coisa só. Quando é presidente, que é uma coisa só, aí quer diferenciar, quer que tenha a “presidenta”, né? Você vê que não tem coerência nenhuma, né? [música ao fundo] Amara Moira, escritora e professora de Literatura Para mim, é um erro acreditar que “todes” seria uma forma de respeitar pessoas não binárias ou pessoas trans. Todes, para mim, é mais uma tentativa, é uma experiência, um experimento linguístico pra gente romper com o sexismo do nosso uso cotidiano do português. A gente assume que o português é uma língua machista mesmo, a gente sempre marca o masculino como plural, ou então o homem como a humanidade, mas a gente não se dá conta que a língua tá em constante transformação e depende muito de o que a gente quer transformar. Existe uma vontade de transformar algumas coisas que pode criar novos usos e permitir que, no futuro, a língua não seja tão sexista como ela é hoje.
Esse é um exemplo que eu acho pertinente. Há outros que eu acho impertinentes, sei lá, trocar “esclarecer” por “negritar”. Por que eu acho impertinente? Porque eu acho que a palavra esclarecer, quando a gente usa: “Vou esclarecer um problema”, a gente não está querendo dizer que a gente vai torná-lo mais claro no sentido do fenótipo, da cor da pele. A gente tá se reportando a um fenômeno óptico. Pra que a gente enxergue qualquer objeto, é preciso que tenha mais iluminação. Então, esclarecer significa mais luz e não mais claridade, que por sua vez remeteria à cor da pele.
Até o verbo “denegrir”, o verbo “denegrir” é muito interessante. Porque aí o “denegrir” está usando a cor preta para significar que você está diminuindo, mas ao mesmo tempo não tem nada a ver com raça. Não tem nada a ver com raça. Quando você fala assim: “Ih, a coisa tá preta”, é sinal de que esse preto é sinônimo de escuridão mesmo. Escuridão é como um obscurantismo, é uma coisa negativa. Você não consegue enxergar nada no escuro. Então realmente a questão está mais na falta de luz, e não tem nada a ver com a cor da pele. Eu sou a favor da preservação de cada palavra do idioma. Se dependesse de mim, nenhuma palavra cairia em desuso. [música ao fundo] Por exemplo, tem umas palavras como: “asinha”. Asinha significa depressa, rapidamente. “Alhures”, “antanho”, e “nenhures” ainda, nenhures é mais bacana ainda. Nenhures é nowhere. [música ao fundo]
Eu acho que questionar, não naturalizar as coisas, é o fundamental, porque a gente acaba naturalizando muitas coisas. E acho que, nas redes, a gente começa a questionar, muitas vezes, verdades que são tidas como absolutas. A gente começa a questionar coisas que são colocadas, parece que foram providencialmente fixadas e não construídas. Acho que isso que as pessoas estão dizendo: “Não, mas isso é uma construção.” E toda tradição é inventada. “Ah, mas é uma tradição.” Mas toda tradição é inventada. Se é inventada, a gente pode inventar outra.
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