O vídeo é uma entrevista com diversos intelectuais, artistas, pesquisadores e professoras especialistas da língua portuguesa. Dentre os assuntos, elas falam sobre os termos e palavras que são usados muitas vezes como forma ofensiva e como isso reflete os valores da própria cultura e das relações sociais.
Eu gosto de ser chamada por uma palavra que, em português, tem muito lastro. Ela tem muita história, não só no português, mas nas línguas europeias mais conhecidas, que é a palavra “travesti”. Essa palavra veio para o português pelo francês, então no século XIX, se a gente checa, vai consultar as revistas antigas, os jornais antigos, a gente vai encontrar a palavra sempre em itálico, o “baile em travesti”, o “teatro de travesti”, sempre em itálico a palavra, porque era nitidamente um neologismo, uma palavra importada, um galicismo.
Eu faço parte da comunidade LGBT, eu sou gay. Então percebo que alguns sinais não combinam. Aí precisa mudar, mudar... Tem alguns sinais que são machistas! Ah, esses sinais não combinam! Então existe uma discussão sobre o sentido subliminar dos sinais. Tipo... alguns usam esse sinal para “lésbica”, já outros sinalizam desta forma: “lésbica”. Uns falam: “gay”. Outros falam: “G-A-Y”. “Gay”. Porque anos atrás era só esse sinal, “gay,gay,gay,gay,gay”, tudo era sinalizado de uma única forma, “gay”, devido a uma referência assim: “afeminado”. Mas tem homens que não são afeminados, não apresentam nenhuma característica afeminada. Não tem nada a ver com feminilidade. Nada a ver. Eles podem dizer: “Ah, não sou assim...” “Eu sou G-A-Y”. Então agora estão surgindo outras formas de sinalizar “gay”. “Ah, você é gay.” “Ah, você é gay.” Mas a forma como eu quero ser chamado, eu que decido: “gay”, “G-A-Y”, ou bicha! Eu sou bicha surda! Amara Moira, escritora e professora de Literatura Eu gosto muito dessa palavra porque ela sai do teatro, ela sai desses bailes de fantasia, e começa a ganhar as ruas. E começa aqui no Brasil a nomear um conjunto muito marginalizado de pessoas e um conjunto que começa a se ver à partir dessa palavra e transformar os sentidos que ela tem. Então, aqui no Brasil, final do século XIX, começo do século XX, a gente já vê pessoas sendo chamadas de travestis e de alguma forma se chamando também de travestis.
O sinal de “travesti” pode ser assim: Mas algumas pessoas não gostam. Aí tem este outro sinal: “travesti”,que outros não gostam, por apontar a garganta. O problema é que estereotipa a pessoa. Já a palavra “trans” pode ser sinalizada de algumas formas: “trans, trans”. Tem variações dependendo do lugar. A partir do conhecimento adquirido em cada época, os sinais vão se transformando. Mudam, a cada época. É isso!
Olha, desde muito cedo, desde muito criança, eu parto de escolas e de movimentos em que eu escutava muitas coisas sobre a minha identidade. Muitas pessoas me definindo a partir do que elas entendiam como era melhor. Então, desde o “moreninha” até o “mulata”, que viam sempre muito fortes, nunca a palavra “negra”, porque as pessoas sempre entendiam que a palavra “negra” era uma palavra ofensiva. Quando eu comecei a tomar conhecimento da minha própria identidade e me autodeterminar, que eu acho que é um processo muito importante, eu entendi que a palavra “negra” era a palavra que eu queria ser determinada, que era a palavra que eu queria usar pra dizer o que eu era.
Então, pra mim nada mudou. Durante toda a minha vida fui chamada de muda e mudinha. Desde a infância as pessoas sempre me chamaram de muda. Acontecia o mesmo no ambiente de trabalho, nas brincadeiras, como amigo secreto. Diziam: “Ah, aquela que é muda”, e eu sabia que estavam se referindo a mim, por causa da leitura labial. Em uma outra situação, uma secretária disse: “Ela é surda-muda”. Eu a questionei: “Nós não estamos conversando?”, “Sim, estamos conversando”, ela respondeu. “Então por que você me chamou de muda?” “Ah, é o hábito de falar assim.” Eu disse: “Hábito de quem? Eu que te ensinei?” “Não.” Então?” “Ah, Sylvia, não esquenta a cabeça!”
Não, eu uso cego, eu não sou politicamente correto, eu não gosto de eufemismos. Não tem, comigo não tem essa história de portador de necessidades especiais. Cego é cego mesmo, puta é puta, não tem conversa. Bicha é bicha, viado é viado. Eu ajudei a fundar a primeira ONG, o primeiro grupo gay organizado no Brasil, o grupo “Somos”, junto com o João Silvério Trevisan, Darcy Penteado, Agnaldo Silva, que era do “Lampião”. E uma das primeiras atitudes que a gente tomou foi esvaziar esses termos. Nós íamos nos apropriando desses termos mais pejorativos, com que nós éramos xingados. Então essa história de chamar de bicha para xingar, a gente mesmo se chamava de bicha para valorizar. [música ao fundo]
E a palavra “transexual”, que vem contrapor-se à palavra “travesti”, ela vai surgir só na metade do século XX. E vai surgir a partir justamente desses pesquisadores, esses cientistas, médicos, que começam a querer, a partir de uma visão cisgênera, ou seja, de uma visão que não é transgênera, definir, rachar no meio a comunidade trans. Essa bipartição, esse racha, essa cisão, eu gosto de falar cisão, cis grandão. É isso, é um olhar cisgênero sobre isso. É um olhar que novamente tenta definir quem somos a partir da relação que temos com o nosso genital. Sendo que hoje, uma das grandes reivindicações trans, do movimento trans, é que o genital não defina de maneira nenhuma o meu gênero e a minha maneira de existir no mundo.
Eu sou surda, mas não sou muda, porque eu me comunico com as mãos, através do meu corpo, das minhas expressões, minhas mãos, tudo isso é a minha voz!
Surdo pode ouvir um pouco, dependendo da porcentagem auditiva. Tem surdo, por exemplo, que não escuta nada, mas fala muito bem! Perfeitamente! Fabio de Sá, professor de Libras e artista Nos olham como se faltasse algo em nós, e questionam o que nos falta. Parecem ficar imaginando: “Surdo é capaz? É capaz de trabalhar? De ser professor?” “Ele dirige carro, como? Como ele vai ouvir?” Se eu não conseguisse enxergar e me perguntassem como eu dirijo, ok, eu sofreria um acidente por não conseguir enxergar, então, como assim?
Mulata é um termo que, se você for parar para pensar, ele vem de mula. A mula é um animal híbrido, que seria de um cavalo em relação a um burro, né? Então cê fica pensando: “Que isso quer dizer quando você associa um mulata à figura de uma mestiça, de uma pessoa negra? O que que, historicamente, na conjuntura de um país em que tem um histórico extremamente escravocrata, extremamente banalizado, extremamente racista, por que que as pessoas estão me chamando de mulata?” [música ao fundo]
É que a língua, ela carrega valores da cultura. Acho que é isso que às vezes as pessoas não entendem, né? Quando a gente usa uma palavra, quando a gente diz, por exemplo, prum menino: “Você joga como uma menina!”, no sentido de querer dizer pra ele que ele joga mal. O que carrega essa palavra “menina”? Então a gente tá dizendo que ser menina, automaticamente, é ser fraca. Stephanie Ribeiro, arquiteta e escritora São uma série de palavras que existem no nosso contexto, que sempre também, de novo, associam o “ser mulher” a algo negativo, algo ruim, né? Tanto que muitas vezes, quando você tem um filho e vai dar uma bronca nele, você fala: “Ah, não chora como uma mulherzinha.”
E quando eu chego para uma pessoa e falo que o cabelo dela é ruim, né? Quando o cabelo dela é crespo, por que o cabelo dela é ruim? Por que automaticamente você definiu que o seu é bom e o meu é ruim? Eu já escutei muito isso: “Ah, você tem um cabelo ruim.” Por que ele é ruim? Eu posso olhar pro seu e de repente achar que o seu é ruim. Stephanie Ribeiro, arquiteta e escritora O “pé na cozinha”, que as pessoas também usam, assim, todo dia, de uma forma bem banal, dando a entender que se você tem o pé na cozinha, na verdade, você tem algum traço ou algo que remeta à identidade negra. E aí, de novo, a gente volta pra entender por que a gente associa a cozinha ao negro nesse contexto desse país. Porque a gente vive num país escravocrata que, inclusive, a área de serviço, a cozinha, ainda são muito associados à senzala.
O Acervo do Museu da Língua Portuguesa disponibilizado nesta plataforma destina-se exclusivamente à consulta. É expressamente proibida qualquer outra forma de utilização. O(a) usuário(a) é responsável por respeitar os direitos autorais, de personalidade e conexos das obras aqui apresentadas. A reprodução total ou parcial de obras originais ou de suas cópias, por qualquer meio e para qualquer finalidade, é vedada, conforme estabelecido pela Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Caso haja interesse na reprodução de qualquer obra — original ou cópia — o(a) interessado(a) deverá entrar em contato com o Centro de Referência pelo e-mail: centrodereferencia@mlp.org.br.