O vídeo é uma entrevista com professoras especialistas e pesquisadoras da língua portuguesa. Dentre os assuntos, elas falam sobre a depreciação e apagamento que a norma oficial da língua portuguesa no Brasil exerce sobre populações marginalizadas e de diferentes povos, como os indígenas e os da diáspora africana, por exemplo.
Eu estava dando um curso no Pará, e o local onde a gente ia dar o curso era um clube lá da terceira idade e tal. E logo que eu entrei, tava muito... chegou um senhor, né? E eu tava toda de branco, muito calor, um vestido bem leve. E esse senhor perguntou assim pra mim: “A senhora é a consultadeira?” Aí eu olhei pra ele assim, e eu tinha visto um cartaz que ia haver uns exames de oftalmologia, né? Exames de visão pras pessoas, então ele tinha ido se inscrever pra fazer o tal do exame. E aí ele me perguntou se eu era a consultadeira. Aí eu disse pra ele: “Não, eu não sou a consultadeira, eu sou a professora, que vou dar um curso pra professores” e tal, tal, tal. Enfim, conversamos um pouco e nos despedimos. Quer dizer, se eu não tenho informação, né? O que eu vou dizer desse senhor? Que palavra é essa, né? O que ele queria dizer? Na verdade ele tava perguntando se eu era a médica, né? [música ao fundo] Se eu era aquela médica que ia fazer o exame de visão dele, né? Então ele usou essa palavra, “consultadeira”, que não está dicionalizada provavelmente, né? Mas que diz que ele sabe da língua, ele sabe, ele conhece a língua dele. Porque ele usou a palavra “consulta”, né? Que médico faz consulta. E usou o sufixo “eira”, que é sufixo de profissão, né? Então quando ele compôs naquele momento a palavra “consultadeira”, ele demonstra que é um usuário que conhece a língua. [música ao fundo]
É importante sempre a gente entender que como a gente passou por um processo de colonização, a língua também faz parte desse processo. Então. há uma imposição da língua que a gente fala hoje, né? E que isso apaga todas as outras línguas. Indígenas, as próprias línguas dos povos africanos que vieram para cá. E a própria contribuição na formação dessa língua desses povos também acaba sendo apagada, ou hierarquizada, ou tratada de uma maneira como se fosse algo inferior. A própria Lélia Gonzalez, quando ela traz a questão do “pretoguês”, que é a valorização da língua falada pelos povos africanos no Brasil, ela mostra o quanto que as pessoas riem quando umas pessoas falam errado, entre aspas, né? E não entendem que aquilo tem mais uma questão fonética, a depender da língua que a pessoa falava.
A fala é como se fosse a segunda pele da pessoa. Então se você discrimina essa pessoa, sobretudo na escola, os nossos professores têm que ter essa consciência, os professores de língua portuguesa e os professores em geral. Porque imagina, se o aluno chega numa sala de aula e pergunta pro professor: “Professora, nóis vai estudar o que hoje?” Aí a professora chega e fala para ele: “Nóis vai não, meu filho, isso é coisa de gente ignorante.” Ignorante tá sendo essa professora, e ela tá cometendo uma violência cultural contra o seu aluno. Por quê? Esse aluno volta para casa, de noite o seu pai trabalhou o dia todo, chega para sua mãe e pergunta: “Minha filha, nóis vai jantar o que hoje?”Como é que esse aluno vai ver seus pais? Que são gente ignorante? Porque a escola está ensinando isso para ele. Então a escola pode ensinar, dizer para esse aluno: “Nós vamos, aqui na escola nós dizemos nós vamos, em casa você pode falar “nóis vai””. Você não se veste de uma forma pra dormir e outra para vir para a escola? Em casa você fala “nóis vai”. Agora aqui, quando você for escrever, vamos falar “nós vamos”, porque essa é a linguagem da escrita.
Há um pesquisador que disse que nós temos que ser poliglotas na própria língua. Olha que ideia bonita. Então, você vai falar, você tem que conhecer os vários falares da sua própria língua e decidir. [música ao fundo] Agora a escola, ela forma monoglotas. Porque se ela ficar nessa visão do certo e do errado, reduzido, simplista, ela vai formar monoglotas.
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