Pessoas de diversas faixas etárias e regiões do país se apresentam dizendo seus nomes. No decorrer do vídeo, compartilham suas ocupações e experiências de trabalho, que incluem atividades como as de pantaneiro, cabeleireiro, professor, cozinheiro, desenhista, cartunista, compositor, cantor, líder comunitário, entre outras que revelam a diversidade de ofícios e saberes presentes no Brasil.
O que é o pantaneiro? Olha, vou explicar pra você. O que é o pantaneiro? Vocês mesmo consegue ser um pantaneiro. Porque vocês são animados. Vocês entra em qualquer lugar do Pantanal, o que vale é animação e é se dar com todo mundo. É assim que é a vivência no Pantanal. Porque se você entrar no Pantanal meio bruto, assim, meio estúpido, querer ser alguma coisa, brabo, não vive muito tempo. Logo, se apaga. Eu passei a ser um coringa da fazenda. Eu fazia de tudo, lavava banheiro, eu fazia comida pra eles, esquentava água pra eles tomar banho, saía na comitiva de cozinheiro. Aí eu passei a ser um segundo da fazenda. Mas era a mesma coisa. Todas essas boca bravas, eles me jogavam, né? Porque pra acontecer, até no dia, pra mim ser um homem pra tomar conta da fazenda. Então, eu sou um homem analfabeto e eles criaram aquele amor em mim. Fomo criados juntos, tomei conta esses 19 anos.
Então, eu me chamo Mohana Nogueira Marialva, eu tenho 33 anos, sou trans, moro em São Paulo tem 3 anos. Eu sou cabeleireira, trabalho na área tem 20 anos e também sou professora e bailarina de dança do ventre, que eu pratico desde os 8 anos. Luiz Nogueira de Sousa (Santarém, PA) Meu nome é Luiz Nogueira de Souza, tá? E eu sou filho de Altamira, não sou daqui, só que eu me considero daqui porque quando o meu pai veio pra cá pra morar aqui, eu vim com 3 anos de idade. [música ao fundo] Eu tenho uma mania de chamar, às vezes a pessoa entende que pode ser até uma coisa errada, mas sempre eu trago “meu amor”, “meu amor pra cá”, “meu amor pra ali”, “meu amigo”, “valeu amigão”, e assim, obrigado, tá? E é assim que eu vou fazendo. [música ao fundo]
Tipo, quando eu quero que você preste atenção, eu falo: “aquenda!”, né? Que são palavras baseadas do Iorubá, que todas as trans e o público LGBT acabam usando, né? Então eu falo muito isso: “aquenda!”, ou uma coisa da minha cidade que é, quando você tem carinho por uma pessoa, você chama: “Ei maninha, vem cá!”, “ei maninho, vem cá!”. Luiz Nogueira de Sousa (Santarém, PA) Quando eu vou chegando, é pelo Assobio. [assovia]
Eu ia chegar, tem um gado lá, um lote de gado, eu chegava daqui eu fazia: “Oh, oh, oh, oh, oh”, chamava. Parava tudo e vinha de encontro comigo. Renato Borghetti (Barra do Ribeiro, RS) Tem termos, tem termos que, por exemplo, um gaúcho chega pro outro e diz: “Buenas!” O Buenas vem muito do espanhol, essa coisa de fronteira, né? O Buenas e o Gracias, assim como o “Olá” e o “Obrigado”. Jorge de Oliveira (Alvorada, RS) “Ah, pá, tchê, hoje tá um frio de resguiar cuco, tchê!. “De resguiar cuco!“. “Pô, aqui, ó, o negócio hoje é chima e uma berga e o seguinte, meu, curtir o finde.” Deu pra entender? Tá um frio demais, até os cachorros tão rengueando as patas, tá? “Chima” pra nós é chimarrão, “finde” é fim de semana. E “berga” é bergamota, que pra vocês lá é mexerica, sei lá qual é o outro nome. [som de sanfona]
Vamos falar de Lupicínio Rodrigues, um grande músico, grande compositor, mas não da área regional gaúcha, na área do samba, mas fez um verso chamado “Amargo”, uma música: “Amigo boleia a perna, puxa um banco e vai sentando, encosta a palha na orelha e um crioulo vá pitando, enquanto a chaleira chia, um amargo vou cevando.” Isso eu acho que no Brasil inteiro ninguém vai entender.
Quando eu comecei a ler quadrinhos, ali pelos anos cinquenta, era muito comum as traduções serem feitas de um jeito que eu, eu não sei como é que as pessoas escolhiam aquilo, mas você via o Mickey falando assim: “Ó, eles nos ludibriaram!”. Você via coisas desse “naipe” assim, em legendas de filmes também, porque na televisão passava filme legendado, ainda não tinha dublado. Então você via Roy Rogers, Alpalhão Cassidy, tudo com legenda. E as legendas eram nesse “naipe” assim: “Vamos!” “Corramos!”. A fala mesmo, eu até hoje me vejo com esses problemas, tendo que explicar pra editores, que não é para corrigir isso aqui, não é para corrigir, eu sei que é irregular, mas... “Mas você usou “tu” aqui, usou “você” aqui!” É assim, é assim mesmo. As pessoas falam assim, né?
“Antes de te conhecer, eu já conhecia o samba, sempre nas rodas de bamba também aprendi a versar. Antes de te conhecer, eu já estava apaixonada, pelo som da batucada é meio complicado mudar.” [cantando] Meu nome é Júlia Rocha, eu sou médica e sou cantora. Minha mãe é cantora, meu pai é médico, e na minha família tem muitos músicos, tem muitos médicos, e outras profissões da área de saúde também. Então, parece que eu não tive que escolher, parece que foi naturalmente. Eu fui crescendo, e quando eu percebi, eu era cantora e era médica. Jorge de Oliveira (Alvorada, RS) Eu me considero mais um, como é que a gente diz? Me Ajuda, pá. Líder comunitário, sabe? Porque tudo que a pessoa vê errado, eles vêm pro bar ali se queixar para mim, e a gente procura, com o conhecimento que a gente tem, procura um, procura outro, e o que dá a gente resolve. O que a gente pode resolver, a gente ajuda a resolver. Eu sou como todo brasileiro, a gente faz de tudo um pouco, sabe? Trabalhei muito tempo em ônibus, depois eu trabalhei em bancas de fruta no centro de Porto Alegre. Depois me aposentei, botemos um estabelecimento, um bar.
Eu sou pescador, eu sou músico, carpinteiro, pedreiro alguma coisa. E comerciante também, porque a gente tem o lanche aí e eu faço parte dele. Hoje, como é o “Dia do Chorinho”, eu já me acordo com um astral diferente, por causa da música, né? [música ao fundo] Mas eu não me considero músico, porque eu não leio absolutamente nada. Eu sou leigo, mas eu toco sax alto, sax tenor, trombone, flauta. Percussão, todas.
A arte, de um modo geral, ela traz uma percepção diferente das coisas. E na lida com o ser humano, com a dor do outro, essas coisas, elas não são objetivas, não é uma matemática. [música ao fundo] Eu olho um paciente que entra, na hora que ele senta, o jeito que ele me olha, a forma como ele fala, a voz, o corpo, o ombro. A gente já tem uma leitura que é uma leitura subjetiva. Alfredo José Branco (Alter do Chão, PA) A história que rola aqui de pescador é a história de Boto, né? Que dizem que o Boto, ele se transforma em gente. Na maioria das vezes, ele tenta seduzir principalmente as moças, né? Mas o que eu sei do Boto é que ele é um ajudante do pescador. Tem uma pescaria que a gente faz com uma lanterna e um “pau de bico”. Você ilumina e pega o peixe no pau de bico, uma “zagaia” que a gente chama. Quando não tem Boto, você custa a achar peixe. Mas se tiver um Boto, ele espanta o peixe lá fora, ele vem pra beira. Por isso eu digo, o Boto, ele ajuda o pescador em determinada pescaria.
Eu sou a Camila Achutti, eu sou professora de tecnologia, de programação. Eu ensino as pessoas a falar com máquinas. E hoje, uma das pautas que a gente mais tem que lutar, é conseguir trazer diversidade para esse mundo da tecnologia. André Asai (São Paulo, SP) Quem produz jogos aqui no Brasil, e mesmo aqui em São Paulo principalmente, com a justificativa: “Ah, tem que ser comercializado internacionalmente.”, eles pegam ali temáticas que já são um lugar comum. Ou então uma fantasia medieval, no esquema do Tolkien, assim né? O “Dungeons & Dragons” de RPG. Ou então quando vai ser um negócio moderno, é sempre uma cidade meio Nova York, com arquitetura americana assim. A presença da linguagem portuguesa, das nossas narrativas, ela é bem esparça, né? Não quer dizer que não exista, mas não é um lugar comum.
Mas eu já vi, assim, eu coleciono muitas histórias legais de gente que... Sei lá, mulheres encarceiradas que não tinham autoestima e que reconheciam que a vida delas tinha acabado. E aí elas recebem uma aula, elas aprendem a programar e elas descobrem que elas podem fazer um e-commerce e que elas vão vender pro mundo. Esse é o poder, da gente conseguir tirar uma fala que era localizada e que estava totalmente à margem da sociedade e conseguir colocar ela em pauta de uma forma que consiga se espalhar numa velocidade que nem ela imaginava. [som de pássaros ao fundo] [som de animais ao fundo]
Eu sou do lar mesmo, meu serviço é em casa mesmo. Eu sou de Rio Verde, Mato Grosso do Sul. Daí criei minhas duas filhas, tipo como eu fui criada, pela minha mãe. Pra namorar também mesma coisa também. Aí, inclusive quando a mais velha se perdeu, que a gente fala: “Se perdeu!”, né, falava na época. Aí eu peguei e perguntei para o rapaz: “mas você já...? A vaca já foi pro brejo? Ele disse: “Já né?” Porque a língua nossa naquela época era essa palavra que a gente falava quando a menina desonrava. Aí ele: “Já!”. Aí eu falei para ele, falei: “Então é o seguinte, a partir de hoje você vai cuidar dela. A despesa toda vai ser sua e eu não quero saber que judia dela, porque eu não sou obrigada. Você desonrou a menina, então você vai morar.” Naquele tempo era rígido, era desse jeito que tinha que ser.
Quando chegaram aqui na nossa região, primeiro a nossa aldeia tiraram o nome, que não era Alter do Chão. Então, Alter do Chão é o nome de uma cidade de Portugal. Nossos eram os povos da “aldeia Borari de Alter do Chão” e depois tiraram nossa língua. Nós fomos proibidos de falar a nossa língua, né? E foi colocado um nome português em todos os indígenas que moravam aqui. Nós ganhamos um nome, português. Então, o meu nome, da minha família, da família do meu pai, ficou “de Vasconcelos”, que é de Portugal. [música ao fundo] Carlos Henrique Almeida (Castelo do Piauí, PI) Meu nome é Carlos. Eu nasci e me criei aqui na região, e sou da família dos André. Por isso que é conhecida essa região como “Pico dos André”. Por causa da nossa família, que foi os primeiros habitantes que chegaram aqui nessa região. E eu e meu bisavô, que era o Zé André, então por isso que entrou esse nome de André.
Aqui no Pantanal, pode ser aonde eu entrar, daqui até Curumbá. O meu nome é limpo, é sagrado. Todo mundo me conhece, porque eu nunca fui capataz de fazenda, não trabalhei de peão quase, só o tempo que eu tava aprendendo. Entendeu? E o tempo que você tava aprendendo, você ia começar a ganhar com dezoito, dezenove anos, se você fosse bom de serviço. Se você não fosse bom, você ia ser muito judiado, que na época era triste.
Bom, então, meu nome é Adailson Rodrigues, mas desde pequeno meus pais me chamam de Hinho. E aí ficou. Todo mundo hoje me chama de Hinho. Então, eu nasci na beira do Tapajós. Moro aqui em Alter do Chão, mas eu nasci do outro lado do Tapajós, do outro lado do rio, lá em Nova Vista do Tapajós, eu sou Munduruku, com muito orgulho. [música ao fundo]
Geralmente aqui, o trabalho nosso mais é em roça mesmo. A gente planta o milho, o feijão, o arroz, a gente “veve” disso. E eu também tenho uma criaçãozinha de carneiro. Então, atualmente é do que a gente “veve”.
Cresci na cidade, estudei, e a minha mãe era costureira. E desde pequeno, assim, que a minha mãe começava a costurar, eu pegava um banquinho e já botava do lado dela ali, sentava, né? E ela se incomodava, né? Ela costurava e: “Menino, vai brincar, né? Vai jogar bola, jogar futebol.” E aí eu: “Não!”. Eu ficava ali olhando até a hora que ela saía pra fazer alguma coisa, e eu sentava na máquina, mexia até eu quebrava a agulha dela e deixava lá. Aí a gente começou a costurar, a fazer saias, né? As pessoas olhavam. “Nossa, que saia linda, faz uma pra mim!” Aí a gente começou. Começamos a fazer as saias de carimbó, as camisas. E hoje a gente tem uma grife, né? Que é a “Sandrinho”, de Sandra e Hinho. [música ao fundo]
Eu já andei bastante, mas eu, pra mim, o meu lugar é aqui, é no mato. Quando eu tô no mato, eu tô bem, tô sossegado. Também isso é o nosso GPS, né? Que nós temos os planetas, que a gente se baseia por eles pra voltar pras trilhas ou pra casa, né? Como aqui nós tem os sete estrelas, tem o Cruzeiro do Sul, a gente chama Três Marias. Então tudo é planeta que a gente tá na mata, à noite, nós sabe pra onde é que tá. O leste, o oeste, o norte, o sul, a gente se baseia por isso, né?
Então, a nossa riqueza aqui é a simplicidade, sabe? É as pessoas que chegam alegres, sabe? Sorrindo, com alegria, sabe? Que conversam, vem lá do outro lado do mundo, mas chega aqui e conversa com você, sabe? De igual pra igual, sem... sabe? Sem te olhar assim, sem te olhar assim... não. Aqui no olho, sabe?
Ah, esqueci de falar, “Surara” significa “guerreiro” ou “guerreira” em Angatu. Então, “Surara” é o grito de força da região do Baixo Tapajós. E foi o nome dado pela população mesmo, por nós, porque ao final das nossas falas a gente sempre falava “Surara”. Então as pessoas começaram não chamar pelo nosso nome, mas chamar a gente de “Surara”. “Sou guerreira Surara, eu sou, eu sou. Sou guerreira Surara, eu sou, eu sou. Não venha mexer comigo, que é forte o meu tambor. Não venha mexer comigo, que é forte o meu tambor.” [cantando]
“Hoje é o dia a dia nosso de viver, trabalhando com o maior prazer.” [cantando] De vez em quando a gente fazia isso aí, e conversa um com o outro, a gente fica conversando com os meninos. A minha casa é assim, “Casa de ferreiro, espeto de pau”. A minha casa, lá em casa é de palha, “simplesinha”, ela... Entendeu? Eu vou morrer, eu não vou levar nada, significa pra quê? Morrer eu não tenho que... Como vou dizer, deixar a casa, deixar um monte de coisa pra “tarem” brigando, pra “tarem”... Eu acho que não preciso disso, eu sou muito feliz assim.
Senhoras e senhores, não se mexam, sim, a senhorita, vai passando. Não, não atenda esse telefone, isso, disfarça. Ah sim, agora que você está me olhando, a gente pode conversar melhor, é ou não é? Você tá indo embora? Tá com pressa? Fica mais um pouco. Já viu tudo? Tem muita coisa pra você ver ainda, se a gente se encontrou só agora, como é que você viu tudo? [som de percussões ao fundo]
Eu faço comédia aqui na cidade, sou do mercado de publicidade também, redator publicitário, já fui roteirista de rádio também. Cal - Claudio Mascarenhas (Serra Preta, BA) Na verdade eu sou Cláudio, né? Eu sou conhecido como “Cal”, que todo mundo me conhece como “Cal”, né? Eu sou agricultor familiar, porém estou assumindo cargos público hoje.
Aqui na Bahia, a gente tem um significado meio diferente pra algumas coisas. Por exemplo, palavras que terminam com a letra U, ou que terminam com a sílaba AU, aqui a gente troca por IVES, porque a gente evita a rima, entendeu? Aquela rima desagradável, e isso foi levado pra televisão até. Tinha um narrador de futebol aqui, que uma vez tava tendo um jogo Náutico e Bahia. E aí o mascote do Náutico é um Timbu. E ele falou: “Olha lá, uma torcedora com um Timbu. Aí ele falou: “Não, peraí, Timbu não, Timbives, vamos ter calma aí que nós estamos na Bahia.”
A gente tem várias formas de falar, a gente já chega brincando, se o cara for meio beiçudo, já chega chamando, e aí, “beiço de mula”, nós vamos fazer isso, né? A gente já tem esse jeito de chegar, como diz o baiano: “de chegar chegano”, né? E conquistar logo a pessoa, brincando, entrando na intimidade dele. [som de percussões ao fundo] Ricardo Gadelha - Palhaço Protocolo (Rio de Janeiro, RJ) Rapaz, Protocolo já me botou em apuros, quantas vezes. Perguntar pra pessoa se ela tá grávida, sem tá, não indico. Perguntar se ela era filha de alguém e era esposa. A palavra, ela tem esse, esse... Ela corta, ela é fogo, lâmina cortante.
“Ah, mas rapaz, viu? É melhor você ficar na tua aí, fica quietinho na tua aí, porque ninguém te bole, né? Se tá atrapalhando, se tá se incomodando, “dá linha na pipa”, “pega teu rumo”, “pega a beirada aí” e vai-te embora.”
Saiu da boca, ela tá dada, tá posta, não dá tempo de deletar, não é uma mensagem, não é uma carta, não é... Então ela, ainda mais no contato com o público, que no caso de um artista de rua é o seu cliente, porque você vai passar o chapéu depois, é um limite tênue e fino, né? Uma grande parceira, mas uma dose a mais, uma dose a menos, você pode ser totalmente mal entendido.
Olha, no começo, eu variava muito. Teve uma entrevista que eu dei no Roda Viva, eu vejo hoje, eu usava “ele”, o masculino ou o feminino, assim, pra mim, alternando. A Ana Verônica Maltzner chama atenção pra isso, no fim. Mas com o tempo tá ficando mais natural pra mim me referir no feminino. Eu não sei, pra algumas pessoas é um ponto muito importante. E... A busca de uma correção na forma como as pessoas se dirigem a gente, não é exagerada, não. É correto isso. Agora, pra mim, eu levo em conta que eu fiquei quase até 60 anos sendo conhecida como “um cartunista”, assim, no masculino. Então eu levo isso em conta. A maior parte dos meus amigos são amigos antigos e se dirigem a mim no masculino. E não é um problema. Meus pais falam comigo usando masculino também. Também não é um problema. Eu não sei, eu acho divertido essa busca, assim. E faz sentido, do ponto de vista de uma nova forma de ver gênero, né? Se eu me recuso a ser macho ou fêmea, homem ou mulher, masculino ou feminino, e eu quero uma área de ambiguidade, eu busco uma área de trânsito aqui no meio, eu posso propor também questões de um novo léxico, né? Uma forma pronominal, uma flexão mais flexível.
“A filho não ter o filiação da pai na certidão de nascimento é hábito antiga. Agora, o mãe exigir direito a aborto é uma crima contro o vida. A filho não ter o filiação... A filho... Certidão de nascimento, hábito antigo. Agora o mãe exigir direito a aborto... Crima... A filho não ter... Certidão de nascimento, hábito antiga. Agora o mãe exigir direito... Crime contra a vida... Direito a aborto... Crimo contro o vida... Direito a aborto... Crimo contro o vida... Direito... Aborto... Direito... Aborto... Direito a aborto.” [declamando] Eu acho que uma das experiências mais fortes da minha vida foi quando eu cheguei no Slam da Guilhermina em dezembro, eu acho que foi de 2013, e eu vi ali uma ágora, uma coisa doida, assim. Era sexta-feira à noite e tinha, não sei, umas duzentas, trezentas pessoas em roda pra ouvir poesia. São textos que falam de temas muito urgentes, recuperam uma dimensão pública da poesia que, na história brasileira, a gente vai ver que muitas vezes foi esquecida e restrita às pessoas que têm acesso ao letramento e à alfabetização. Então o slam recupera exatamente essa voz urgente, coletiva, potente, que tem diferentes métricas, diferentes rimas, diferentes performances.
“Chegaram de fora, mataram os de dentro. Os que estavam aqui dentro resistem até agora. O processo é louco, o processo é lento. Tem que ta atento, não importa a hora. A mãe terra grita, a mãe terra chora, assim como a rua mata, cobra, cobra, jiboia. Enquanto pra tu, ela dava o bote para nós, ela dava boia, vocês só querem a joia, são vocês que mutilam nossa gente. Não entende que a Amazônia é feita de múltipla gente? O fogo da artua queimada são quentes, mas não é suficiente para matar a semente. Você mente que nem sente. Diz que vai trazer riqueza, até agora só vi dor. É, até agora só vi morte. Índios Nagô, filhos do norte. A história tem cor do guerreiro mais forte que hoje não usa gravata, não! Só chinelo e short, hei! Só chinelo e short, hã! Só chinelo e short! É que vocês, ó, pensam assim: “Vou derrubar só mais uma”. Vocês estão sendo vigiados pela Samaúma. Enquanto some mil, vocês falam que some uma. Isso me consome. Tu grita: “Consuma!” [declamando]
O meu avô era um poeta escritor, Manuel de Barros. E ele conta muito nos livro dele que era uma infância de brincar na terra, de brincar com coisas do chão. E ele conta que a maior inspiração dele é desse período. Eu, que convivi com ele, consigo, às vezes, achar que entendi a inspiração dele. De qualquer forma, a poesia, a gente só acha que entendeu, mas a gente mais é admira mesmo.
Tem a linguagem, aquele negócio mais estruturado, mais, digamos, padrão, né? Uma coisa da língua portuguesa, da gramática. E tem essas belezas, essa. essa... A potência da arte de transformar... Arte, não só no seu conceito maior de arte, mas nas suas delicadezas do cotidiano que permitem a gente fazer transformações com a palavra. “Tu tá ferrado, acabou a tua forra. O fato é que tô farto, mete o pé, sai fora. Tua farda é fardo, nosso flow é foda. Nossa farda é Frida, a ferida é Kahlo. Me diga que fui, nem no fim não me calo. Não me faço que vou lá, vou lá. E falo! Segura a tua foba, segura esse bafo. O teu filho homofóbico, afinal, tem afeto por falo. O teu filho homofóbico, afinal, tem afeto por falo.” [declamando]
É, eu acho que a poesia chegou em nós através da oralidade, como os ancestrais faziam em Volta das Fogueiras, né? Os griots. E acho que também pegou porque, assim, quem quer ouvir as pessoas da periferia, se não as pessoas da periferia? Então, quando a pessoa vai para o sarau, ela sabe que vai ser ouvida, sabe que vai ser aplaudida. E ainda que ela não fale, ela ouve. Então, a literatura chegou para nós de forma gentil, através da gentileza. Eu faço a gentileza de falar, você faz a gentileza de ouvir. E nessa troca de gentileza, a literatura e a informação chegou até nós. E a Cooperifa se tornou um lugar onde ninguém ensina e todo mundo aprende. [som de percussões ao fundo]
Meu nome é José Oswaldo, conhecido como Brasinha, um apelido que eu ganhei na escola, porque eu não ficava quieto, não sentava, e eles falavam: “Parece que tem uma brasa aí no banco, você não pode sentar?” Eu to aqui em Cordisburgo, uma cidadezinha pequenininha, no centro de Minas Gerais, como diz o nosso grande conterrâneo Guimarães Rosa: “Só quase lugar, mas tão de repente, bonito.” E fiz isso. Simplesmente, as pessoas adoram trazer objetos antigos, as pessoas da cidade e de outros lugares, né? Porque o sertão é do tamanho do mundo, pode vir coisas de outros lugares pra cá. Pra contar história.
“Vítor nasceu… no Jardim das Margaridas. Erva daninha, nunca teve primavera. Cresceu sem pai, sem mãe, sem norte, sem seta. Pés no chão, nunca teve bicicleta. Já Hugo, não nasceu, estreou. Pele branquinha, nunca teve inverno. Tinha pai, tinha mãe, caderno e fada madrinha. Vítor virou ladrão, Hugo salafrário. Um roubava pro pão, o outro, pra reforçar o salário. Um usava capuz, o outro, gravata. Um roubava na luz, o outro, em noite de serenata. Um vivia de cativeiro, o outro, de negócio. Um não tinha amigo: parceiro. O outro, tinha sócio. Retrato falado, Vítor tinha a cara na notícia, enquanto Hugo fazia pose pra revista. O da pólvora apodrece penitente, o da caneta enriquece impunemente. A um, só resta virar crente, o outro, é candidato a presidente. “ [declamando] [Poema “Os Miseráveis” – Sergio Vaz]
Aqui, eu estava aqui um dia, aqui nesse espaço, e tinha dois senhores sentados, dois senhores, também da roça, comversando. Aí, um falou pro outro assim: “Olha, esse ano vai chover pouco.” O outro falou: “Ah, mas por quê?” Ele falou assim: “Porque a cagaiteira...” Cagaiteira é uma fruta aqui de uma árvore do serrado, aqui da região nossa. “Porque a cagaiteira deu pouca cagaita. Quando a cagaiteira dá pouca cagaita, vai chover pouco. Quando ela dá muita cagaita, vai chover muito.” Aí o outro senhor falou assim: “Ahh... Cê falou um negócio certo, eu agora fui na “recordânça” e lembrei da fazenda do meu avô, que tinha um pé de cagaita na porta, e que geralmente era assim mesmo.” “Recordança”... Isso é lindo! Partindo de um homem daquele que sabe o nascedouro da língua. [som de galinhas ao fundo]
É que, eu tô aqui conversando com vocês, falando, e nós tamo no meio do Pantanal. Então, não tem como achar ruim uma mosca que passa, uma Arara que grita, é, nós tamo aqui no meio do Pantanal, é assim mesmo. Tamo todos juntos, então o que eu me esforço, é pra manter a concentração da fala. Eu tava contando, que quando eu estudava, tinha um professor que batia tampa de panela na porta da sala quando a gente tava fazendo prova. E ficava falando e gritando e daí: “Pô professor, por quê você tá fazendo isso?” “Pô, mas quando eu tô dando aula, vocês também ficam com conversinha paralela aí, e isso também tira bastante a nossa concentração, e eu não falo nada, continuo dando a aula, concentrado. Então agora, eu quero ver vocês fazerem prova desse jeito aqui.” E nessa época eu me esforçava e conseguia já terminar minha prova e entregar pra ele. E ele falava: “Eu achava que eu ia ter que parar pra vocês conseguir terminar. Você não quer voltar pra fazer melhor?” Eu falava: “Não, eu consigo concentrar e manter a fala, o pensamento no que eu tô fazendo.” Mas é necessário exercitar, essa mosca tá exercitando bastante aqui a concentração. [risada]
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