Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
fala_aud_09
Título
Jovens
Descrição

O vídeo apresenta jovens de variadas cidades brasileiras contando um pouco de suas suas histórias, desde as suas origens e os seus gostos até curiosidades do cotidiano.

Transcrição do áudio:

Mateus Brito MB (Rio Branco, AC)

“Aí ó, certo dia, eu tava chapadão. Já era muito tarde, resolvi pegar o busão. Tava na larica, depois de uma sessão, quando, na parada, um estudante estende a mão. O busão tava lotado, gente no teto e no chão. No empurra-empurra, se esvai o dia, se vacilar, leva pisão. A tia do lado tava com medo, fez até uma oração. Do outro lado, alguém cantava uma desafinada canção. Era um converseiro danado. Tinha choro, esperneio, mas não tinha o que fazer. O busão já tava cheio. O busão da minha cidade que só vai trabalhador Toda vez que se atrasa, é porque o busão atrasou.” [declamando] Então, meu nome é Matheus Brito MB, tenho 17 anos. Sou artista, poeta, MC. Sou técnico em audiovisual, sou estudante também. E faço parte do movimento Islã, do coletivo Poetas Vivos. Algo que transformou minha vida, assim, de uma maneira extraordinária. Que, devido ao convívio e o lugar que eu ocupo, eu nasci na periferia de Rio Branco, da parte alta, no bairro Caladinho, mesmo na fronteira, onde tinha todas as possibilidades de eu estar hoje no tráfico ou em qualquer outro caminho. “Sou a favela e vários jovens sonhador, enquanto um político não joga caô, mas no aumento da passagem, nós sabe quem foi a favor.” [declamando] Eu não sabia de muita coisa. Eu gostava de escrever poesia e fazer aquilo por hobby. E foi quando eu comecei a entender que poesia não é hobby, é bem mais que isso tudo que a gente pensa. Poesia é um sentimento por escrito. É algo que vem da alma, assim, e resgata pessoas, assim como me resgatou. “Metade da população não tem transporte particular e depende do busão. Mas se o transporte é público, então partiu meter pulão.” [declamando]

Ana Júlia Azevedo Alegretti (São Paulo, SP)

Oi, eu sou a Ana Júlia, tenho 14 anos, moro em São Paulo e eu sou bailarina. É o que eu sou, o balé, não tem outra explicação. É como se tivesse um sentimento dentro de mim e eu quisesse que ele saísse de alguma forma. E toda forma de expressão que eu tenho corporal é o que mostra pras pessoas que eu tô aqui e que eu tenho minha voz, mas ela é diferente.

João David Veloso (Belo Horizonte, MG)

“Eu me apeguei, apaixonei pela pessoa errada Eu vacilei imaginando dar certo essa parada. Mas eu fracassei, falhei na missão. Se tu não percebeu, ainda machucou meu coração. Mas se tu pensa que eu sou bobo, não é bem assim. Me esparrou pra tuas amiga, tá de lerozinho. Te dei oportunidade, brincou com meu sentimento Gata não valorizou, fazê o quê, eu só lamento.” [cantando] É isso aí, essa é a música que eu... Essa música eu fiz porque na época, tipo, eu tava ficando com uma menina, só que aí eu percebi que era só ilusão e aí eu fiquei triste, meio abalado e aí eu peguei e tava saindo na rua assim, e do nada eu comecei a pensar e eu falei: “Ah, vou fazer uma música!” Comecei a cantar, tipo, triste e aí saiu essa música. Eu voltei pra casa correndo, comecei a escrever e aí deu essa música aí. Ainda tô trabalhando nela. Aí eu vou fazer a gravação dela e tudo mais. Já tá marcado, só tô esperando o money cair pra poder fazer isso.

Uelton Rodrigues Pereira (Serra Preta, BA)

“Eiiiii... Eu sou Chico Aboiador, e a cultura não vou faltar. Sou fazendeiro bacana, canto pra não errar. Sou da cultura nordestina, e meu setor vou lembrar. Ê Boi!” [cantando] O gado, quando a gente... Tem um dizer: “Quando chama, o gado urra. Quando grita, o gado vem”. No aboio, o gado berra e aí agora a gente, chamando, o gado atende. Eu mesmo costumo dizer: “Quando eu vou levar um gado, eu boto um colega na frente e eu vou aboiando atrás. Aonde eu vou, ele me acompanha.” “Ô gado, ôôô...” [cantando]

Ian Uviedo (São Paulo, SP)

“Nossa pele brotava quente sob o sol do meio-dia. Aquele péndulo oscilando em cima dos corpos apodrecidos nos devorava, dia após dia. Dentes de mormaço pairando entre as raízes. Ardendo, apesar da noite de ventos frios. As mulheres, silenciosas, sozinhas. Cachorros sedentos e famintos que gemiam pelas ruas, sempre com desfalques nos pêlos, vãos na pele, manchados de lama e sangue e suor canino. Fedendo, malditos. Pequeninos demônios nômades, só queriam o mesmo que nós, prazer.” [lendo] [música ao fundo] A literatura, ela parte de um processo de criar sensações subjetivas e abstratas a partir de um sistema que se pretendia exato, que é a língua, né? As línguas. Dandara de Oliveira (Salvador, BA) [som de atabaque e vozes ao fundo] Ave maria, ó! Eu tô agora nesse momento, que eu tô exatamente, sem saber exatamente o que eu quero. Entre o que eu amo fazer, que é mais de uma coisa, e entre o que talvez eu consiga me virar e me desenvolver dentro dos espaços onde eu estou. Então, eu amo muito estudos coreográficos, que no caso é dança, eu amo muito estudar dança, viver a dança mesmo. Teatro também, eu me reconheço muito dentro de teatro. E nesse “rolê” mais de produção cultural, não sei o quê...bá bá bá dê rê rê, eu também gosto muito, mas eu tô muito assim: “O que é que eu acho que eu sei fazer bem?”

Ian Uviedo (São Paulo, SP)

Nunca experimentei da fruta. Sentia prazer matando pássaros e torturando cães malditos. Outro dia lembrei que elas estavam sempre nuas, existe algo de amargo nisso. Na terra ninguém se despia, porque galhos, raízes e espinhos adentravam cegos em todos os orifícios. A pele mordida, a terra castigava. Dia desses, voltei lá e constatei que a árvore havia sido derrubada e não se fala mais nisso. Não sei ao certo o que sentir, provavelmente nada.

Dandara de Oliveira (Salvador, BA)

[som de vozes ao fundo] Eu não acho que eu tenha essa bagagem toda acadêmica pra dizer assim, e falar em palavras difíceis e trazer aqueles trabalhos rebuscados. Então, eu acho que eu prefiro, se for pra me expressar com o meu corpo ou com alguma coisa que eu invente aqui agora e pegue um papelão e uma folha e bote e faça, talvez seja algum tipo de coisa na minha cabeça, mas pra mim é mais fácil ter os atravessamentos da vida mesmo, assim. Pai Pablo de Iemanjá (maricá, RJ) [som de tambor e atabaques ao fundo] Tudo começou através de umas energias que eu andava sentindo, não sabia distinguir que energia era. Tipo, eu frequentei evangélico, a igreja evangélica, a Universal, pra dizer a verdade. Fiquei um tempo lá, mas só que nada dava jeito. Sempre estava com essa energia, esse trâmite no meu corpo e tal. Aí, eu procurei junto com a minha madrinha, né? Que hoje atualmente é madrinha de umbanda. Ela me levou pra uma atual casa que eu estou hoje, na minha mãe de santo, Lady. E lá eu comecei a sentir uma vibração muito melhor do que eu sentia no evangélico, entendeu? Porque eu realmente era catiço. Catiço na minha linguagem é brabo, eu era horrível tipo, demais, né? Rebelde, vamos botar assim. “Vovó, vovó das almas, não me deixa andar sozinho.” [cantando]

Luciana Barreto da Silva (São Caetano do Sul, SP)

O que eu faço? Eu faço várias coisas, eu... Principalmente eu ando de skate, sou fotógrafa também, sou atriz, faço trabalhos como modelo também, em propagandas e várias coisas, acho que eu faço, eu sou a vida do corre, várias coisas ao mesmo tempo.

Alessandro Branco Filho (Alter do Chão, PA)

Meu nome é Alessandro Branco, sou acadêmico de educação física, termino no final do ano. E eu já tive algumas experiências com futebol, já participei de alguns elencos profissionais. [música ao fundo]

Luciana Barreto da Silva (São Caetano do Sul, SP)

Assim, eu que comecei a andar de skate desde muito pequena, eu tinha vergonha de andar com o skate até debaixo do braço, porque você era muito julgada: “Ah, tá andando com o skate só vai debaixo do braço, não sabe andar nada!” Você tem que provar pra pessoa que sabe andar, tipo, como assim? Eu não tenho que provar nada pra ninguém, entendeu? [música ao fundo]

Alessandro Branco Filho (Alter do Chão, PA)

Então, como eu sou goleiro, em relação a torcida quando a gente faz alguma defesa importante ou algum pênalti, algo que motiva a gente. Ao contrário do que é a motivação, são os xingamentos, né? Então enquanto a torcida adversária tá te xingando é porque você está fazendo um bom trabalho.

Rayanne Pessôa Diniz (Nazaré da Mata, PE)

Boa tarde, meu nome é Rayanne Caroline Guerra Pessoa Diniz, sou educadora social da MUNAM, tenho 26 anos sou formada em serviço social e aqui na MUNAM eu trabalho como produtora cultural de projetos e no maracatu eu sou a dama de passo. A dama de passo é a madrinha do maracatu, é o personagem que cuida da boneca, da calunga que é a proteção do maracatu. A função da dama de passo no maracatu é proteger dos olhares, dos, como posso dizer assim, da inveja e da rivalidade que existe entre os maracatus. E como o maracatu nazareno é o único do mundo só de mulheres, os homens olham assim, quem teve de maracatu olha assim, pra ver se realmente é uma mulher que tá dançando ali e avaliar se ela tá fazendo bonito ou não. E a gente faz cultura assim, faz muito bem, obrigado. [música cantada ao fundo]

Pedro Henrique de Oliveira (Belo Horizonte)

Eu sou de Belo Horizonte, meu nome é Pedro Henrique, eu tenho 27 anos, trabalho em banco há cinco anos, no atendimento ao público, em agência. Kari / OPNI (São Mateus, SP) Eu sou a Kari, nasci Karina, assino Kari. Eu trabalho com arte, tento ir por vários caminhos, assim, não consigo me definir como grafiteira, ou como tatuadora, ou como designer de estampa, alguma coisa assim, porque eu gosto de fazer um pouco de tudo, né? [música ao fundo]

Pedro Henrique de Oliveira (Belo Horizonte)

Quando eu era pequenininho mesmo, era muito comum o Banco Imobiliário, o Monopoly, e o legal é que eu achava esses jogos muito simples. Então, por exemplo, o meu Banco Imobiliário, eu aprimorava um pouquinho, ele tinha uma bolsa de valores, então, por exemplo, o valor do seu imóvel, que você ia comprando e colocando a casinha lá, ele ia aumentando quando você desse voltinhas. Kari / OPNI (São Mateus, SP) Eu sou, tipo, totalmente a ovelha negra, assim: “Ah, porque a Karina cortou o cabelo, porque a Karina fica na rua até tarde pintando muro.” Tipo, isso faz com que eles me vejam de uma forma negativa, sem entender realmente o que eu tô fazendo, assim, meio que um olhar de fora. E, nossa, às vezes é mó perreco, e você faz uma coisa mais séria, e a pessoa fala: “Ah, agora vai, né?” Assim, tipo, pra você ter aquela credibilidade, você tem que ou tá na TV ou tá rico, né?

Karine Montenegro Soares (Araçuaí, MG)

Quando eu vim morar em Barbacena, foi um susto muito grande, porque eu falava muito rápido e muito alto, porque todo mundo da minha cidade é assim, eu costumo dizer que o pessoal da minha família, todo mundo tem calo nas cordas vocais, porque todo mundo fala alto e muito rápido. Família grande, né? É uma disputa pra quem vai falar mais alto, quem vai ser a estrela do assunto. Pedro Henrique de Oliveira (Belo Horizonte) E o mineiro, ele gosta de ser muito bem tratado, tem um viés muito do relacionamento, sabe? Então, ainda mais em cidades pequenas, porque você percebe que o público da capital é um público diferente de uma cidade pequenininha em Minas. Então, você tem que dar um bom dia, né? Às vezes é um cliente rotineiro, você tem que perguntar como é que vai a família, ciclano, porque isso acaba abrindo portas pro negócio.

Karine Montenegro Soares (Araçuaí, MG)

Mas tem umas palavras ótimas, assim, lá as pessoas são tratadas como “nego” e “moça” e “moço”. Diz assim: “Ô moça, ô nega, vem cá!” E assim, não importa, eu que, por exemplo, sou branquela, lá em Araçuaí todo mundo me chama de nega. “Ô nega!” E tem umas palavras super diferentes, assim, moeda lá é “nica”, “rilia” é farra. “Nossa, eu tava na rilia ontem.” É farra. [música ao fundo] Mhoska Dancer – Wisailton Lima dos Reis (Castelo do Piauí, PI) Bom, meu nome é Wislailton, tá? Mas eu sou conhecido dentro da minha arte como Mhoska Dancer, tá? Tenho vinte anos. Bom, eu trabalho com dança há cinco anos, né? Treino danças urbanas há cindo anos aqui no meu grupo, “Dança do Rio Castelo”. Castelo do Piauí sempre foi destaque. Danças urbanas, a gente bota “danças urbanas” no Google, aparece lá, Castelo do Piauí, Grupo Dança do Rio Castelo, entendeu? Sempre foi destaque nessa área, apesar de ser um pouco... Não ser muito conhecido, né? Algumas pessoas falam: “Mano, tá com raiva, tá com sentimento de tristeza, vai, conta até dez que passa.”, né? Já eu não, eu falo assim: “Mano, tá com raiva? Dança que passa.” “Mano, tá triste? Dança que passa.” [música ao fundo] Eu particularmente gosto mais das músicas em inglês, né? Porque eu acho que quando eu não sei o que tá sendo cantado, o meu corpo consegue interpretar melhor, né? Eu consigo, por exemplo, a música faz um efeito, tal hora, meu corpo não vai só pra fazer esse efeito, entendeu? Ele quer fazer isso. [música ao fundo] [salva de palmas ao fundo]

Carú de Paula Seabra (São Paulo, SP)

“Por muito tempo questionaram a potência do meu corpo, mas por muito menos, por muito menos me fizeram parecer aquela coisa desmilinguida, do nojo, do processo de ser sumariamente louco. Por muito tempo, mas por muito tempo mesmo, o meu corpo parecia se expressar como uma minhoca, um rato que perpassa cada parte do esgoto de São Paulo. Mas eu, eu. Eu provei pro mundo que eu posso ser muito mais forte, presente e inteiramente inconsequente, ainda que assim, potente em ação com a minha voz, com o meu corpo, com a minha inteligência, com a minha capacidade de reverter o estado contínuo que a razão branca fez, a qual seria a única coisa delimitada ao meu corpo.” [declamando] Eu acho que a minha voz pouquíssimas vezes foi ouvida. Isso inclusive nos espaços nos quais eu percorro. E a minha voz enquanto psicólogo e transmasculino é ouvida, porque eu acredito muito na minha capacidade, né? Assim, enquanto psicólogo. Eu costumo dizer que eu tive que ser muito mais inteligente do que muitos pra ser um psicólogo trans atuando no que eu atuo, assim. E tendo a minha voz reconhecida, enquanto saber, enquanto potência de saber. [som de tambor e flauta ao fundo] “Com a minha voz, com o meu corpo, eu marco o mundo com a ancestralidade que muitas vezes vocês esqueceram. Mas é que o meu corpo é grande demais pra caber na piquenês do desejo da branquitude.” [declamando] [som de tambor e flauta ao fundo]

Maria Eulália Lobato (Alter do Chão, PA)

A voz. A voz é um poder, né? Se você diz que você tem voz, não significa que você está em um grupo. Significa que você está na frente de todos. Eu gosto muito de falar na frente, principalmente pras pessoas entenderem o que eu quero representar, o que eu quero falar. Meu nome é Maria Eulália. Eu sou daqui de Alter do Chão, sou Borari. Tenho 21 anos, eu faço o sétimo semestre de jornalismo e faço parte de um coletivo de mulheres indígenas que lutam pelos direitos indígenas, que lutam pela reconciliação.

Javali – Eliel Ribeiro (Nhecolândia, SP)

Meu nome é Eliel, né? Pelo apelido de Javali, que o povo conhece muito eu, né? Eu fui criado aqui na fazenda do finado Dr. João de Barro. Manuelzinho é meu patrão, gosto muito bem dele, trato ele bem.

Maria Eulália Lobato (Alter do Chão, PA)

Quando eu falo “égua”, quando eu falo “iácua”, quando eu falo “saru”, quando eu falo várias outras coisas, as pessoas de fora, muitos de meus familiares são de fora. Então eles falam assim: “Que negócio é esse, menina? Por que tu tá falando desse jeito?” Só que eu falo assim, sabe? Eu acho que existe muito preconceito linguístico e a gente acaba tendo que se... Se guardar, guardar o que somos de verdade pra poder chegar numa entrevista de emprego e falar somente coisas que o cara que tá entrevistando a gente quer ouvir, somente palavras bonitas. Mas na verdade, do que adianta você chegar numa entrevista de emprego e falar coisas que no seu dia-a-dia de trabalho você não vai falar? Porque você vai tratar, principalmente quando você trabalha com pessoas. Você vai tratar as pessoas de uma forma boa, e pra você tratar as pessoas de uma forma boa, você tem que ser carinhosa. E pra você ser carinhosa, você tem que ter expressão. E pra você ter expressão, você precisa falar palavras que agradem as pessoas, palavras que as pessoas gostam de ouvir.

Javali – Eliel Ribeiro (Nhecolândia, SP)

Mas assim que nós temos que fazer, tratar os outros bem, bem respeitado, ter o respeito das pessoas pra ser bem respeitado também. O certo é a educação da gente em primeiro lugar, né? Então, é assim que nós aprende a viver, tudo.

Maria Eulália Lobato (Alter do Chão, PA)

Se você fala de uma forma carinhosa, porque o pessoal diz: “Ah, o pessoal do Pará é muito chamegado.” “O pessoal do Pará é muito carinhoso.” Justamente pelo nosso sotaque, pela nossa forma de falar, pela nossa forma de acolher. É uma coisa diferente. Não tendo preconceito com as outras línguas, com as outras pessoas, mas o Brasil engloba muita coisa boa, sabe? O Brasil vem do puxado, vem do escorrido, vem do calado, vem do “shhh”, que a gente nem entende, mas nós falamos roiz, sabe? ] Uma coisa que se mistura. E quando se mistura, eu acho que fica realmente a língua verdade. [música ao fundo]

Javali – Eliel Ribeiro (Nhecolândia, SP)

Eu parei de estudar pra vir trabalhar aqui. Morei com a minha mãe, voltei a voltar a estudar de novo. Mas não completei da escola, vim embora pra cá de n sim que nós vai vivendo e aprendendo. Devagarzinho, mas tá indo. Tem que aprender a trabalhar um pouco da vida das coisas. Quando tiver homem já feito, já sabe fazer um pouco de tudo. [música ao fundo]

Abayaneh Silva Machado (Salvador, BA)

[som de berimbau] “Ano de 64, ano de 64 Em cinco de fevereiro, [não compreensível] fechou o arquivo, E se abriu pro mundo inteiro Entrou de [não compreensível] na terra Pra Jesus Pai Verdadeiro Camará, Água de beber...” [cantando] A capoeira pra mim, além de ser uma prática física, é uma filosofia de vida, onde você aprende o respeito pelo próximo, a educação que você vai ter fora da capoeira, que não é só dentro da capoeira que você vai aprender, também na rua você aprende. “Vou dizer ao meu senhor Que a manteiga derramou A manteiga é do patrão, mas caiu na água, se molhou.” [cantando] Desde quando eu andava na [não compreensível] da minha mãe, eu já jogava capoeira. Mas assim, quando eu comecei a levar a sério pra treinar, foi com seis anos de idade. E esse ano eu completo nove anos de prática de capoeira. “Olha a manteiga do patrão, olha a manteiga do senhor.” [cantando]

João Paiva (Belo Horizonte, BH)

“Parece que a carne não vale o dinheiro da Vale que não satisfaz a sacola do ego dos imperialista. E parece que o coração bate de fora do peito de quem determina quem morre primeiro na lista, capitalista. Parece que a carne não vale o dinheiro da Vale que não satisfaz a sacola do ego dos imperialista. E parece que o coração bate de fora do peito de quem determina quem morre primeiro na lista, capitalista. É pai de família contra pai de família pelo pão de cada dia. Trabalha pra ter mão cheia e morre de mão vazia. Não fala de boca cheia, mas enche a boca pra falar da policia do caralho. Brasileiro conformado e ensinado na escola, vende força de trabalho e será barata, pois o ensino que era médio agora será um tédio, porque naquele prédio ensinaram somente exatas.” [declamando] [vozes as fundo] Sei lá, foi uma salvação pra mim, me salvou. O hip-hop me salvou mesmo de muita coisa. Não só de questão de criminalidade que eu poderia ter entrado, foi pouca coisa, foi isso aqui, foi uma questão também de consciência também. Eu fui evangélico, fui de igreja a maior parte da minha vida. E uma coisa que eu não era consciente. Eu conheço também muitos evangélicos que são conscientes e tudo mais, mas eu não era consciente, eu não sabia o que eu tava fazendo ali direito, e a poesia, o hip-hop salvou minha vida nesse sentido também, de ser uma pessoa consciente da realidade, da política do mundo à minha volta e tudo mais. “Falaram que nós era povo sem fé, antes a morte que a escravidão. Morar na senzala esses índios não quer, nem trabalhar na casa do patrão. A solução foi criar o Pelé, também o tráfico, ostentação. Um joga com a bola importada no pé, gol! Outros com a metranca importada na mão, prou! Na mão de uma criança ou na testa de uma criança é o meia ponta de lança. É a lança no meio da ponta do olho de qualquer esperança de que esse país tem como. Porque eu vejo índio sem terra na terra que ele era dono.” [declamando] [música ao fundo]

Denilson Baniwa (Manaus, MA)

Eu fui obrigado a sair do meu lugar de origem pra viver em outro lugar, pra fugir de ameaças e de problemas que poderiam acontecer comigo e com minha família por conta dessa militância indígena. Principalmente relativo a questões de demarcação, de luta por território, de direitos da população indígena da minha região. Os meus pais, eles têm consciência de que o meu papel, por ter tido contato com a educação não indígena, então eu venho de escolas católicas e domino esse mundo que não é Baniwa. Eles, de certa forma, não só eles, mas a comunidade coloca em mim uma responsabilidade de ser a voz fora da aldeia. E aí o resultado é isso. Sou eu, que sei falar outras línguas que não é do meu povo, que sei utilizar talheres, à mesa, que sei essa educação toda cheia de regras e que vivo interno conflito entre ser quem eu sou, indígena e ser quem eu não sou, indígena. Isso é o meu trabalho, inclusive, enquanto artista.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:27:30
Formato
MOV

Contexto de produção

Mateus Brito DepoentePessoa
João David Veloso DepoentePessoa
Ian Uviedo DepoentePessoa
Dandara de Oliveira DepoentePessoa
Pai Pablo de Iemanjá DepoentePessoa
Rayanne Pessôa Diniz DepoentePessoa
Kari DepoentePessoa
Maria Eulália Lobato DepoentePessoa
Eliel Ribeiro DepoentePessoa
Abayaneh Silva Machado DepoentePessoa
João Paiva DepoentePessoa
Denilson Baniwa DepoentePessoa
Exótica Cinematografia ProduçãoInstituição
Local de Produção
Contexto de produção
A língua portuguesa, presente no Brasil desde o período colonial, nunca se manteve homogênea. Pelo contrário, passou por um processo contínuo de transformação ao entrar em contato com as línguas indígenas que aqui existiam, com as línguas dos povos da diáspora africana e também com as de imigrantes que chegaram ao longo dos séculos XIX e XX, amalgamando-se em um território de dimensões continentais. Esse percurso histórico explica a riqueza de variedades linguísticas retratada no vídeo. Os depoimentos exibem uma pluralidade de sotaques, vocabulário e estruturas sintáticas que desautorizam qualquer noção de um "português brasileiro" único. Do falar do norte ao do sul, passando pelas comunidades indígenas, pelos grupos urbanos e pelas tradições rurais, o que se vê é uma língua viva, em constante movimento. A fala de Karine, de Araçuaí (MG), que menciona palavras locais como "nica" (moeda) e "rilia" (farra), e a reflexão de Maria Eulália, do Pará, sobre o preconceito linguístico, ilustram como a língua é também um marcador de identidade e de pertencimento regional.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Cessão
Proveniência
Exótica cinematográfica
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações

Exposição