Imigrantes de diferentes idades se apresentam dizendo seus nomes e de onde vieram. Ao longo do vídeo, cada um deles contam sobre suas descendências, atividades e experiências.
“Criança negra, minha mãe, fica longe de mim, fica perto de mim. Oh minha mãe, que é o mar. Oh minha mãe, que é a minha esperança. Oh minha mãe, que é a minha vida, Oh minha mãe, que me ensinou, que abriu e me deixou a chave da vida.” [declamando] Agradeço a minha mãe, que é tudo pra mim. Eu sou Adama Konate, do Mali, era estudante e poeta. Pela literatura conheci o Brasil e me sonho muito um livro do meu professor e eu queria fazer a mesma obra dele, por isso que pensei em vir aqui no Brasil e fazer o mesmo caminho. Com esse sonho me trouxe eu vir aqui no Brasil em 2012.
Oi, meu nome é Renée Abegail Ross Londja, eu sou da Guiana inglesa. Em Brasília eu trabalho como artesã, sou bonequeira e também faz muitas coisas, tudo com tecido africano. Lucy Ah Lum Han (Coréia do Sul) Meu nome é Ah Lum Aram, mas eu adotei o nome Lucy pra conviver com o pessoal aqui no Brasil, porque toda vez que eu falo: “Ah Lum Aram”, todo mundo pergunta: “Como? Ahn?” Bryan Rodriguez (Bolívia) Salve! Meu nome é Bryan, Bryan Rodriguez, eu sou nascido em El Alto, uma cidade de La Paz, na altitude dos Andes, país da Bolívia.
Eu nasci na Coreia, na cidade de Incheon, é como se fosse Rio de Janeiro aqui no Brasil, e vim com nove anos pro Brasil e fui morar em Pirituba.
Até a época da faculdade eu sempre fui o único boliviano da minha sala, então, isso carregava várias questões de xenofobia, de racismo, essas coisas, esses baratos aí eu já acabei superando com o tempo, porque na minha época ainda era muito escasso, então hoje em dia se você vai em umas escolas, principalmente aqui pelo centro, são vários alunos imigrantes, não só bolivianos, tem árabes, tem coreanos, tem africanos. [música ao fundo]
Meu nome é Vensam Iala, sou da Guiné-Bissau, a Guiné-Bissau pra quem não sabe é um país que fica na costa ocidental da África, e assim como o Brasil, foi colônia portuguesa também, então a língua oficial é português.
Meu nome é Eawa Alsagheer, tenho 23 anos, sou da Palestina, nascida na Síria, tenho aqui no Brasil 4 anos, refugiada pela segunda vez aqui no Brasil, eu trabalho com, faço parte na cinema, que eu já estudei um pouquinho na Síria, e aqui agora estou trabalhando contando histórias árabes pra criança, e também faço aulas de dança tradicional da Palestina. [música ao fundo]
Quando a gente é imigrante, a gente sempre sai em busca de sonhos, né? A gente vai pra melhores condições, e aí meus pais são separados, né? Então, minha mãe resolveu primeiro ir pra Estados Unidos, só que ela não conseguiu, então ela veio pro Brasil.
Eu sempre sonhei em ser um jogador de futebol, e pra jogar futebol o Brasil é uma referência, então eu cresci com esse desejo de conhecer o Brasil, e não consegui vir como jogador, mas eu resolvi vir pra estudar. [música ao fundo]
Eu vim pro Brasil porque meu marido não pôde entrar no meu país, então eu vim pro Brasil por causa de amor. [música ao fundo]
Eu não poderia ir pra Guiana Inglesa porque ali é complicado pra ter documentos, é só agora que eles estão a aceitar, mas é muito complicado, então vivemos, eu pessoalmente, vivi na Amazônia, em Manaus, quase 7 anos. [música ao fundo]
Manaus é bom porque é bem perto do meu país, pega um ônibus e chega no meu país, mas São Paulo é melhor pra trabalhar. [ao fundo som característico da vida urbana – burburinho de pessoas, etc]
Cheguei no Brasil aqui em 2009, por causa da guerra no Congo. Você tem família, muitos deles não estão ali, mas tem amigos, tem a minha terra, um dia estou pensando em ir e voltar aqui no Brasil, sim.
“Que estranha forma de vida Tem este meu coração Vive de vida perdida Quem lhe daria um condão Que estranha forma de vida Coração independente...” [cantando] Não sei, eu acho que o Português, a gente cultiva um pouquinho a saudade mesmo, não é à toa que tem tanto imigrante português no mundo. Porque eu acho que tem a ver com a raiz assim, com o povo, porque povo de marinheiro, tem toda a questão da colonização também, então essa questão dos portugueses, os marinheiros saíam, as mulheres ficavam esperando, o fado também surgiu daí, né? Então todas essas questões, a palavra “saudade”, que só tem em português, eu acho que a gente tem um pouquinho essa tendência a cultivar, eu sinto isso um pouco, sabe, estar longe, é doido né? Dá aquela saudade, mas parece que a saudade às vezes é gostosa e eu acho que chega a ser criativa também. “Se não sabes onde vais, para, deixa de bater, eu não te acompanho mais.” [cantando] [música ao fundo]
Meu nome é Sandra Moreno, eu sou nascida na Espanha, na cidade de Valência, atualmente moro na Alter do Chão, Pará. Então, na real, começou quando eu tinha 21 anos, eu tinha começado uma faculdade, aí não gostei, comecei outra, comecei naquela coisa que não sabia muito bem o que fazer, era como, aos 18 anos ter que decidir o que eu ia ser, o que eu ia fazer durante o resto da minha vida, e acho que isso me superou assim, porque eu não sabia o que eu queria fazer. Aí claro, vai na inércia, nas expectativas da sociedade, da família, de eu mesma até, né?
E aí, eu com 9 anos, você tem que brincar, eu não entendia uma palavra, mas eu ia na rua, brincava, e aí eu conheci, fiz amizade com as meninas da rua. Meus vizinhos eram maravilhosos, e eu acho que eu vim num tempo muito bondoso na verdade, onde as pessoas eram mais acolhedoras, né? Sandra Moreno (Espanha) E comecei a ver outros estilos de vida possíveis, que, por exemplo, onde eu morava, cidade, capital europeia, é como que tudo está muito estabelecido.
Eu lembro que meus vizinhos faziam cantata de Natal na porta da minha casa, coisa que eu não tinha ideia assim, na Coréia. Porque na Coréia a gente não comemora muito Natal, pra começar, e aí eu já tava num país totalmente oposto, porque é oposto mesmo, oposto assim de abrir torneira, é oposto também. [som de percussão ao fundo]
Claro que eu não sinto que eu estou refugiada, porque eu já nasci refugiada por causa da luta palestina, da questão palestina. Porque na Síria, a lei fala que quem nasce filho ou neto, ou bisneto do refugiado palestino venho no ano 48 pra Síria, ele fica refugiado pra não perder o direito de retornar pra Palestina. Então, eu já nasci refugiada. Então, eu estou um ser humano antes de ser refugiada.
... [canta em espanhol uma música não identificada] Eu lembro que quando eu cheguei na escola falava só espanhol e tal, a professora chamou meus pais de orelha e falou: “Ó, vocês tão falando espanhol com seu filho, seu filho não pode falar mais espanhol, senão ele vai se atrapalhar aqui, vai atrapalhar os outros alunos e tal.” Aí, meu pai ali, leigo ali, a única coisa que ele soube fazer foi me dar uma bronca e falar: “Ó, a partir de hoje, em casa, você não fala mais espanhol!” Sabe? Pai antigo, tá ligado? Aquele bagulho era mais gritando, mais agressivo. E a partir disso, eu fiquei, acho que em num hiato de uns 8 anos, praticamente, sem falar espanhol.
“U portunhol salbaje es la língua falada en la frontera du Brasil com u Paraguai por la gente simples que increiblemente sobrevive de teimosia, brisa, amor al imposible, mandioca, vento y carne de vaca. Es la lengua de las niñas que de noite vendem seus sexos na linha da fronteira. Brota como flor de la bosta de las vakas” [lendo] Eu sou o Douglas Diegues, eu nasci do amor de uma hermosa Gigi Paraguayenses e um jornalista carioca, em 65, no Rio de Janeiro, e fui criado na fronteira do Brasil com o Paraguai. Bryan Rodriguez (Bolívia) “Nadie nace con racismo en la mente. Trata-se de educación para respetar lo diferente. Flaco, gordo, mudo, sordo, alto, bajo, sano, loco, blanco, rojo, negro, moreno, ateu, rodeboto. Caos gera óbito, te deixa claustrofóbico. O bagulho tá mais bagunçado que quarto de filho pródigo. É insólito, virou rotina, é lógico. Que se ninguém tratar, pra que exame periódico?” [cantando]
E nessa casa onde eu cresci, só se falava o portunhol. Na rua se falava um portunhol, mas mesclado com outras línguas, porque eu descobri há pouco tempo, relembrando, que eu cresci numa rua poliglota. Uma rua pequena, pobre, mas onde estava o comércio do meu avô. Ao lado estava o seu Simeão, que era árabe. Na frente estava... Do outro lado tava o “Supermercado Sano”, que era japonês, na frente estavam os judeus. Sempre haviam ingleses ou norte-americanos passando por ali. E eu, desde que publiquei o primeiro livro, que foi um livro de poesia em portunhol, que se chama “Dá Gusto Andar Desnudo Por Estas Selvas”, em 2002, até hoje, eu só escrevo em portunhol. [música ao fundo]
Eu falo muitas línguas. Eu falo francês, falo inglês, falo português, falo swahili, falo tetela, falo lingala, e outra língua que é parecida a tetela, é [não compreensível], eu falo também isso.
Os colonizadores, quando chegaram em África, sabiam que uma das formas de conquistar o continente seria através da comunicação. Então começaram então a implementar e definiram o inglês, o português, o espanhol e o francês como a língua base de todo o continente. Isso, de alguma forma, acabou por matar um pouco as línguas tradicionais. Então imperou o português. Mas após a colonização, há um dado muito interessante, os países africanos de língua portuguesa, falando especificamente da Angola, começaram a se reinventar. Hoje você já não encontra um português original. Claro, o português ainda é do Portugal. Mas você encontra aqui já algumas variantes, já algumas línguas tradicionais que, de alguma forma, acabam por fazer parte do dia-a-dia e se misturar com a língua portuguesa.
É muito engraçado que a Guiné-Bissau consegue a sua independência de Portugal, e logo, a língua oficial do país se torna o português. É muito engraçado isso. Então é uma questão que a gente questiona bastante. “Por que o crioulo não é uma língua nacional, não é uma língua oficial da Guiné-Bissau?”
“Wasekele” é a forma como nós cumprimentamos numa das nossas línguas tradicionais. Sou João Pedro Canda, nasci na província da Huíla, no Brasil seria no estado da Huíla.
Bom, realmente a língua, não sabia falar nenhuma língua portuguesa. Mas eu falava, cheguei falando francês, espanhol, inglês.
Na verdade, foi muito difícil para mim essa coisa de tradução. Porque tem muitas palavras que o significado em árabe a gente não acha em português. Então, fica mais disso que eu aprender português aqui no Brasil. Então, foi muito difícil até eu aprender português. Porque eu demorei um ano e meio, mais ou menos, para conseguir falar uma frase inteira.
Ah não, eu tinha uma amiga que me ensinava as coisas, só que ela me ensinava errado. Tipo assim, ela falava assim, ela sempre andava de bicicleta. Aí ela trazia a bicicleta e falava: “Monta, monta!” E eu achava que ela tava me ensinando o nome da coisa. Que era bicicleta, mas para mim era “monta” aquilo.
A maioria da língua portuguesa é difícil para mim, porque vocês falam “do nariz”. E a língua árabe fica “de garganta”.
E ela me levava nas festinhas de aniversário do bairro. E ela me fazia cantar parabéns em coreano em todos os aniversários. E é incrível que todo mundo cantava junto, sabe? [música ao fundo]
O taxista me trouxe aqui no hotel. Quando eu cheguei no hotel, eu precisava ligar a minha família, principalmente. Me ajudou a comprar o chip. Eu entrei no celular, comecei a ligar a minha família e não consegui. Então o operador tava falando, era Vivo, falando que é CPF. Que eu não sabia CPF, não sabia o que é CPF.
A primeira vez que eu tentei falar em português de Portugal, eu lembro bem. Eu fui numa padaria e eu pedi um pão de queijo. Eu pedi em português de Portugal: “Eu queria um pão de queijo, faz favor.” E o cara falou: “Oi?”. Eu falei: “Um pão de queijo”. E ele: “Não entendi”, Eu falei: “Um pão de queijo!” E aí ele entendeu. Mas enfim, é uma questão... Eu percebi na hora que se eu quisesse trabalhar como atriz, etc. Eu já tava com a cabeça mais formatada mesmo para ter que adaptar o meu sotaque. Eu tinha que abrir mão do jeito que eu tava acostumada a falar, né? [música ao fundo]
Na verdade, eu resisti muito para não perder aquilo que é meu. Porque eu acho que é aquilo que me singulariza. Que é a minha identidade, aquele português que eu falava. Sandra Moreno (Espanha) Eu não sei diferenciar esse [não compreensível], pra mim tudo é igual. “ “ab” e “av”, aos pouquinhos eu fui pegando, eu já acho que vou melhor. “Azete”, né? “Azete”, tá vendo, não consigo. É mais a pronunciação, eu acho. Renée Abegail (Guiana Inglesa) Quando as palavras tem feminina, masculina, isso é difícil pra mim. Porque às vezes eu falo: “Um menina. Uma menino” “Um menina”. Preciso lembrar isso. Porque eu penso em todas as palavras com “vowel”s, “vowels”? Por exemplo, as palavras dia. A palavra dia. Não é “uma dia”, é “um dia”.
Suco para a gente é sumo. Eu fui no restaurante pedir um sumo. Eu queria tomar um sumo. Fiquei falando sumo miliano. O cara não entendia. Tive que explicar mesmo: “Não, de laranja.” “Ah, não, é suco”. Suco para a gente é... Em crioulo, “suco” é “soco”.
Estou aprendendo ainda. Eu costumo dizer, eu falo “portuglês”. É uma mistura de inglês e português. Porque eu não estudo. Eu aprendo português falando, assim, com a gente. Também eu escuto muita música. Inês Soares Martins (Portugal) Eu acho que vai entrando assim. E eu acho que o português do Brasil, ele é mais melódico mesmo. Ele é mais cantado. O português de Portugal é mais fechado. É uma coisa mais solene assim. Parece mais sério. Mais para d Então, como não é tão articulado, eu acho que é mais difícil entender às vezes. E eu acho que é a falta de referência também. Porque aqui chega muito pouca coisa de Portugal.
Por exemplo, eu não tenho imagens de uma música portuguesa. Eu não tenho conhecimento de filmes ou novelas portuguesas na minha infância. Mas eu tenho de novelas brasileiras, “Chica da Silva”. Eu já ouvia Djavan.
Quem não lê muito, quem não convive muito, quem não assiste muito TV. Eu acho que até hoje minha mãe não sabe falar uma palavra em português. Com o pessoal da loja, do convívio brasileiro que ela convive, ela fala em coreano. E é incrível que os brasileiros entendam o que ela fala.
Geralmente, quando passo de uma língua a outra, eu mudo mesmo de mentalidade para me focalizar no ambiente dessa língua ali. É assim. Mas alguma vez, quando você passa duma língua para outra, você pode esquecer e utilizar as palavras de outra língua. Mas, é como uma segunda natureza, é como uma terceira natureza.
“Por que escrebo? Escrebo para ficar menos mesquino. belleza de lo invisible non tem nada a ver com versinho. Tô dito certinho. Em el culo de qualquer momento Escreber pode ser mais que apenas ir morrendo” [lendo] O Portunhol Selvagem ele é, digamos que, um movimento insubmisso à língua enquanto império estatal. É um movimento contrário à língua enquanto ditadura gramatical dos adultos. A minha maneira de mexer com o Portunhol, que é a maneira “salvaje”, vai ser diferente da sua. Ninguém... Não é uma fórmula fixa. Não são apenas mesclas de castelhano, português e guarani. Você pode misturar inglês, italiano fake, franchute fake, alemão, guarani, guaranhol, as 20 línguas que existem ainda, as 20 línguas ameríndias que existem ainda no território paraguaio. Você pode incorporar, se você conseguir, até línguas extraterrestres, digo eu.
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