Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
fala_aud_03
Título
Griots
Descrição

Idosos de diferentes idades e de várias regionalidades se apresentam dizendo seus nomes, e alguns suas descendências. Cantam, leem, falam de suas atividades, oram e contam suas histórias de vida.

Transcrição:

Mestre Zé Ferreira - Adalberto Gomes Ferreira (Nazaré, RO)

Deus, quando Ele fez o mundo, Ele pelejou, pelejou. Quando chegou em meio-dia, Ele se levantou e falou assim: “Esse é um bom dia para vocês. Eu dou um bom dia para a senhora, a senhora me dá um bom dia para mim. Então nós temos de parar bem (estamos de parabéns), porque nós temos um bom dia, tanto a senhora como eu.” Eu sou um caboclo, caboclo brasileiro, amazonense. Sou filho de gente pobre, nunca estudei, não sei a língua holandês e nem francês. Só sei um pouquinho a língua português, mas eu tiro o meu chapéu da cabeça e me arrepresento na frente de vocês, dizendo que o meu nome é Adalberto Gomes Ferreira, sendo criado de todos vocês.” [declamando] “Quando eu tinha cinco ano, meus pais não me levaram pra estudar. Eles só me levaram foi lá pro seringal. Quando eu cheguei no seringal, fui correr com medo das onças, espantado das visage, foi o que eu fui buscar. Meus amigo e minhas amiga, escute o que eu vou falar. Hoje o tempo tá bom só para quem gosta de estudar.” [cantando] Eu fui me criando nas matas, me criando. O que eu aprendi, eu conversando com as pessoas, as pessoas não sabem nem o que foi. Eu sou professor de borracha, sei difumar borracha, imprenso borracha, difumo borracha, tiro tara de borracha, faço sapato de borracha, faço bolsa de borracha, saca de borracha, tudo isso. Eu sou professor de borracha. [música instrumental ao fundo] Oremos [Reza em Latim] amém. “Padre Cícero, Nossa Senhora de Nazaré, São Pedro, São Sebastião, Santo Expedito e Nossa Senhora de Fátima do Rosário. Tudo vocês se ajoelhe nos pés de Jesus e venha abençoar esse pessoal que estão aqui com nóis. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém, Jesus.” [rezando]

Dona Zenaide - Maria Zenaide de Souza Carvalho (Tarauacá,AC)

Eu componho qualquer música, até desse encontro aqui, eu posso compor uma música. “Amigas, brigado eu dou, por tudo que vocês estão fazendo. Amigo, brigado eu te dou, por tudo que vocês estão fazendo. Vim de tão longe pra me levar, pra me ser reconhecida lá. Amiga, faz bem direitinho, não deixa eu chorar e nem chore também, porque vocês são para mim uma flor, uma flor. Eu quero vocês, não é só agora, é sempre. Eu quero vocês para ficar no meu coração, não pense que eu vou esquecer de vocês, não, não, não vou, não.” [cantando] O meu nome é Maria Zenaide de Souza Carvalho, eu venho de uma família de seringueiro com parteira, nasci e me criei no rio Taravacá e sempre, sem saber ler nem escrever, porque nessa época lá não tinha escola, não tinha professor, não tinha nada. A gente vivia lá, era excluído na mata, sem ter uma formação de nada. Eu sei que eu fui crescendo e fui crescendo em sabedoria natural, né? E acompanhando sempre a minha mãe nos partos, até que com idade de dez anos eu fiz o primeiro parto. Eu fiz o primeiro parto, eu tinha dez anos, porque a minha mãe e minha tia estavam todas as duas grávidas e botaram pra parir tudo num dia. Eu já fiz parto em indígena, já fiz parto em branca, fiz parto em tudo que é coisa e graças a Deus, o que é diferente, o parto, é mulher que tem onze anos quando vai parir, que a parteira vai assistir com ela. Já fiz vários partos numa criança com onze anos. onze anos, antes de completar onze anos, eu fiz um parto numa moça, que ela teve um menino com cinco quilos e seiscentas grama. Quando ela tá no sofrimento de parto, no trabalho de parto, sempre eu gosto de cantar música minha mesma assim pra ela, [musicazinha] boa, eu invento as [musicazinha] maravilhosa pra ela, né? “Não chora, não fica triste, não! Mamãe querida, do meu coração. Eu tô aqui, mas eu vou chegar Mamãe, não fique triste, não vá chorar. Eu não posso impedir a dor. Eu não posso impedir o sofrer. Mamãe, tenha paciência e faça eu nascer “[cantando]

Marcia Vinci (Poços de Caldas, MG)

Eu sou uma pessoa que tive o privilégio de brincar na rua. Era uma manifestação da palavra, dos falares, né? Do falar cantado e do cantar falado. “Ladeira das raparigas. Carro de boi descendo a ladeira, levando a gente, nós, criançada. Onde a vida, a cidade, acontecia. Na esquina, o casarão amarelo das putas meninas, tão belas em seu vestir, na moldura das janelas. A boca do povo dizia: “Caíram na vida novinhas.” E a gente se perguntava: “Como se faz para na vida cair?” Se todos nós estamos dentro da vida caídos.” [lendo]

Dona Zenaide - Maria Zenaide de Souza Carvalho (Tarauacá,AC)

Um belo dia, eu tava em [Tomatú], de lá veio um homem atrás de me estuprar, e bateu na minha vista e espocou esse olho. Perdi a minha vista. Mas não é por isso, que eu perdi a minha vista, que vai empatar de eu estar aqui, conversando com vocês nessa entrevista. Não vai empatar de eu ser mulher, de eu sair por aí, pela Europa, por todo canto, né? Cantando, louvando, glorificando. Me arrumando um horror de amigos, um monte de contatos maravilhoso. De todos os cantos aí, até da Alemanha, da França, por todo canto, sabe? Isso aqui não vai empatar não, de eu fazer isso não. Por quê? Porque a mulher, não agravando os hôme, mas as mulheres, elas têm sete qualidades de boa, sabe? A mulher é boa. O homem é bom, mas a mulher é boa! Mulher é boa, com a boca cheia! Por quê ela é boa? Porque ela tem marido, tem filho, tem comadre, tem parto, tem tudo pra fazer. Tem almoço pra fazer, tem tudo pra fazer. E na hora tá tudo feito, a mulher é boa!

Marcia Vinci (Poços de Caldas, MG)

“Travesseirinho” “As mulheres e as meninas, da casa familiar, colhiam folhas de laranjeira pra encher o travesseirinho. Que ia servir de repouso para a cabeça do morto, deitado na grande mesa, onde depois se ia comer. Comer o brodo do luto, feito de erva perfumada e massa na mão amassada, porque a vida continua, e todos um dia vamos nesta mesa jazer.” [lendo] Então, eu me chamo Márcia Vinci de Moraes. Eu só adoto Márcia Vinci pra escrever. Agora eu tô com 86, e eu publiquei com 84, é.

Mestre Nado - Aguinaldo da Silva (Olinda, PE)

“Seio, a vida morre na terra. Todo ser precisa dele usar. No princípio o Criador soprou na escultura, transformando em criatura. No princípio o Criador soprou na escultura, transformando em criatura. Olha, eu já compus várias música. Música assim de aniversário, de encontro religioso. Me dá o tema que eu faço tranquilo, tenho essa abertura na mente, sabe? Por exemplo, se for cantar um rap no meu som, eu vou cantar: “O desafio continua sendo a gente se mantendo no que sabe fazer Faz porque gosta, gosta porque faz Pesquisando, aprendendo, querendo aprender mais.” [cantando] Olha, a primeira coisa primeiro fundamental é você saber que tem um superior, né? Que manda em você. E o restante é você crer e pôr as mãos naquilo que você sabe. O que se transforma na minha música, “Querendo Aprender Mais.” Isso vale pra todo mundo. Valorizar o que você é, o que você faz, e sem se importar com o outro. Porque aí é onde vem a cópia. “O cabelo de fulano é cortado assim, eu quero o meu também assim, eu quero o meu” Então isso é que polui muito a história da gente.

Ana Mae Barbosa (Recife, PE)

A primeira cultura com nível universitário no Brasil foi a cultura das artes visuais, com a criação da “Escola de Belas Artes”, que era chamada “Academia Imperial de Belas Artes”. Foi uma transplantação do neoclássico no momento em que ele era moda em Portugal, eu acho que foi a transplantação mais moderna para o momento em que houve essa imitação do ensino europeu. [música instrumental ao fundo] Como ficou muito ligada as elites, a formação das elites, a “Escola de Belas Artes”, ela ajudou o preconceito contra a arte no Brasil, essa ideia de se achar que arte é coisa de elite. É elite porque a gente deixa que seja de elite, somente. Porque a gente não luta o suficiente pra incluir as artes no ensino, especialmente no ensino público. [música instrumental ao fundo] Como é que eu iria em comunidades como eu trabalhei, comunidades dos alagados do Recife. Eu ia trabalhar só com o código erudito, tive que trabalhar com o código estético reinante na casa deles. E depois interligar com o código erudito, porque eu acho que todos têm direito a conhecer o código erudito, porque é o código do poder. E se você não conhece os códigos do poder, você nunca chega a ele. Agora, só trabalhar com o código do poder, significa alienar a pessoa da sua própria cultura. [música instrumental ao fundo]

Madrinha Chica Gabriel - Francisca Campos do Nascimento (Rio Branco, AC)

Bom, o que eu faço? Posso dizer que não estou fazendo é nada. Bom... Eu, por exemplo, eu to aqui nessa casa, porque eu me dedico a cumprir uma missão. Todos os dias, nas nossas orações, a gente roga pelas almas. A gente roga pelos [pagães]. As almas dos nossos parentes, nossos antes queridos, mas também rogamos por todas as outras almas. Por todas aquelas que necessitam, que estão, vamos assim, que estão no purgatório. Aquelas que estão nas treva, na escuridão. Aquelas que estão mais distantes de ver a Deus. O que a gente tem que fazer é pedir de Deus, né? Pra que realmente tenha uma boa morte, né? E que Deus tenha misericórdia também de quando nós passar desta vida para outra, porque, na verdade, ninguém sabe... As pessoas dizem, é isso, é aquilo, né? Mas, só Deus sabe o merecimento de cada um de nós. Então, se eu digo aos meus irmãos, às minhas irmãs: “Gente, quando eu morrer, vocês rezem por mim”.

Dona Dadá - Damiana Gonçalves dos Santos (Serra Preta, BA)

[música instrumental ao fundo] Com dois te botaram, com três eu te tiro. Com os poder de Deus e da Virgem Maria, amém! [rezando] Esta mufina, este olhado, esta usura, este quebrante, esse olho maligno que botaram no teu trabalho, no teu luxar, no teu receber de dinheiro, na tuas amizades, no teu vestir, no teu chegar e no teu sair. Esses olho maligno é de [não compreensível] teu corpo, da pele, dos nervos, da carne, dos osso, do sangue e da pele. Jogai pras ondas do mal, aonde não cantar um galo e nem uma galinha, nem se lembrar do Creio em Deus Pai e nem também da Salve Rainha. “Pai de nosso que está no céu, santificado seja Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. Ó pão nosso de cada dia, nos dá hoje, nossas dívidas assim como nós, Perdoando a quem nos tem ofendido, livramo do mal, amém.” [rezando] Quando Jesus Cristo andou no mundo, andou tirando mufina, olhado, quebrante, usura, inveja, bruxaria, tudo o que tiver no teu alcance, Jesus Cristo tirarás. Com os poder de Deus e da Virgem Maria, amém! Ave Maria, Ave Maria, as três pessoas da Santíssima Trindade, Pai, Filho, Esprito Santo, amém! Deus que te põe a santa virtude. Eu rezo todo mundo assim. Eu falo, que é pro povo saber que eu tô rezando. Tem muitos que tá ali de boca calada, pá pá pá, mas ninguém tá sabendo o que tá falando. E eu rezo que é pra pessoa saber. Eu aprendi assim. Porque tem a mufina, você fica abrindo a boca, sem coragem pra nada. O olho ruim, bota em você, você fazendo um trabalho, você não tem coragem de fazer aquele trabalho. Tem que tem muita gente aí que chega aqui: “Dadá, hoje eu não fiz nada, tô cochilando”. Aí eu rezo e vou embora. Quando [não compreensível] :“Dadá, aquela hora que tu me rezou, graças a Deus, fiz isso, fiz aquilo, fiz isso, fiz aquilo”. Eu também eu disse: “No dia que eu rezar, por exemplo, uma dor de cabeça, um ardovento, que a pessoa não ficar sã, não venha mais não, que eu não rezo”. Porque aquela reza não é de reza, é de médico.

Toshi Tanaka (São Paulo, SP)

[música instrumental ao fundo] Performance. Performance é inglês, né? Mas hoje em dia existe este campo de performance. Eu coloquei o nome, Performance “Fugaku Fue” Vento, o vento, né? “Gaku” é arte, caminho de arte, alegria. Buscando este arte, arte de vento. Por isso aqui também a gente colocou o nome, “Casa do Vento” Ontem, tinha uma pessoa de... Um jovem Tupi Guarani. Eu tenho bastante curiosidade de cultura indígena, entre cultura japonesa e indígena. Dança, Postura, até língua. Quando conversava a gente descobriu em comum, quando fazer pausa, quando um pouquinho cansa, um pouquinho pensa, né? Então, vamos começar de novo. [música instrumental ao fundo] Geralmente os japoneses querem estudar arte marcial, dança, né? Eles já falam: “Kata”. Kata é como se fosse um código de movimento, um código de linguagem do corpo. No Japão quando fala filosofia, diretamente é ligado com corpo também, né? Uma filosofia é natural, natureza. Harmonia. Como realiza este harmonia? Entre nós e a natureza.

Cacique Getúlio Juca - Awá Poty Werá (Dourado, MS)

... [em Kaiowá] "Frases na língua Kaiowá." Somente a minha pessoa sabe mexer com a casa de reza e sabe lidar com a casa de reza. Porque tem Kaiowá hoje, é novo, alguns kaiowá que não tem chiru, curuçu, não pode usar a casa de reza só pra boniteza. Botaram fogo na casa de reza e queimou. Então os Kaiowá ficou muito triste. Tem alguns Kaiowá que eles falaram: “Queimaram o nosso... Queimaram o Kaiowá”. Eu falei: “Sim, mas o espírito dos Kaiowá tá vivo. Então, vamos continuar”. [música ao fundo] Mestre Chico Malta – Francisco Cardoso Feitosa (Alter do Chão, PA) Agora peço licença a todos os mestres e mestras do carimbó. Quero pedir licença a mestre verequete Lucindo Cupijó. Quero pedir licença à minha mestra, Dona Mocinha, do Quilombo Saracura. Quero pedir licença ao meu mestre, Silvito Malaquias. Dona Benita, Dona Teté, Dona Luzia, as mestras de Alter do Chão. Mestre Magnólio e Mácio e Lília Pacheco, da Bahia Mestres de Griôs. Aos Griôs de tradição oral, eu sou o mestre, sou a raiz, mas o Griô é a rama.

Mestre Chico Malta: [em Tupi-Guarani]

Com as bênção de todos os mestres, eu saúdo esse momento e me apresento como mestre do Carimbó, mestre da cultura popular. “Sou caboclo, não minto, posso não saber tudo, mas do meu pouco estudo, sei que Norte é Brasil. Quizumba, quizumba com tudo, quizumba, mas não zomba de mim.” [cantando] Eu tenho duas raízes, que é do Munduruku e o Wai Wai [povos indígenas brasileiros] Munduruku por parte de pai, Wai Wai por parte de mãe. [música] “Curimbó vem do Índio, que o negro tocou. O branco coloriu. Carimbó transformou. Dê licença, senhora. Dê licença, senhor. Pro meu carimbó, ufar seu tambor” [cantando] [música Carimbó ao fundo] O carimbó, ele tem uma raiz que liga todo o Pará. E hoje, a maior parte do carimbó, como você pode ver, ela é feita através da roda. Por quê a roda? Porque a roda é assim: Eu tô aqui de olho na roda, o meu olhar é de cento e oitenta graus. Cento e oitenta graus. Meu olhar. É o olhar do camaleão. Se eu consigo ver cada um dentro da roda, então a roda tá feita. E quando eu faço essa roda, é o momento que tudo se transforma dentro dessa roda. [música Carimbó ao fundo]

Mestre Aldenor - Aldenor da Costa Souza (Cruzeiro do Sul, AC)

Os apóstolos, quando estavam atrás de Jesus, Jesus Cristo, pra matar, essa que é a escultura do começo do mundo. Não se pode se acabar por isso. É sim senhora. Não se acaba, não. E eu disse aí um dia, esse ano aí no carnaval: “Como é que o presidente diz que vai acabar com a cultura? Que isso é coisa do começo do mundo. Como é que acaba? É. Não pode terminar, não. [som de vento] Foi bom. Estudei dois anos só. Aí, Aldenor da Costa Sousa, seringueiro. E aí eu vinha do Alto Juruá tocar essa brincadeira que eu faço. É a Marujada. “O segundo maquinista por ser chefe no galão, foi endireitar as máquinas [não compreensível] é campeão. O segundo maquinista por ser chefe no galão, foi endireitar as máquinas [não compreensível] é campeão. Marinheiro em terra, marinheiro no mar, que nós somo a Marujada, que saiu a passear. Marinheiro em terra, marinheiro no mar, que nós somo a Marujada, que saiu a passear.” [cantando] Trabalhei muito tempo com esses camelinhos, dona, de embarcação, rebocador. A noite todinha ali eu passava no leme. A noite todinha, o dono dos camelinhos, que eram os rico, cheio de grana, ele ia dormir, ele ia dormir com as mulher, o Marmudo, o finado Marmudo. Me deixava lá no comando a noite todinha. Ele tinha a maior confiança em mim, eles tem. Ah dona, eu sou conhecido dos rico e dos pobre. “Ai quem me dera meu tempo de outrora, que eu poderia viver. Os sorrisos da esposa querida meus olhos poderiam ver. Não creio que Deus exista nem na voz do trovão. Perdão, perdão, Deus do céu. Creio em Vossa Divindade. Os raios quando quer me ferir na fúria do alto mar só poderiam ter vibrado, porque na cruz foi cravado e morreu para me salvar.” [declamando]

Dinho Nascimento – Erneides Antônio Cursino do nascimento (Salvador, BA)

“Tem certas coisas neste mundo, ó meu Deus, que devemos dar valor. Tem certas coisas neste mundo, ó meu Deus, que devemos dar valor. A água é uma delas. Fonte da Mãe Natureza. Olha seu menino, já dizia um ditado: “Água mole em pedra dura, colega velho, tanto bate até que fura.” O homem foi a guerra, mas a paz é uma conquista. A lua ilumina a noite, o sol clareia o dia camaradinha, e água de beber ...”[ cantando] Hoje eles falam mestre, né? Mas o meu movimento com a capoeira foi na rua, eu já descia e eu via uma roda de capoeira na Vasco da Gama ali, e já jogando bola como todo moleque, já pulava, já fazia uma [não compreensível], então aprendendo. E na roda, na rua. [som de berimbau ao fundo] Naquele tempo, há décadas atrás, você ia atrás. Não tinha como tem hoje o workshop, oficinas. Não tinha. Você ia procurar o mestre e ia te ensinar, em fundo de quintal, né? [música de capoeira ao fundo] Mas a coisa da rua, a rua que foi uma coisa que me deu muita informação. Tanto que aqui no morro eu falo, quando as pessoas falam pra gente: “Você está tirando as crianças da rua?” Não, eu tô colocando, quero que elas fiquem na rua pra aprender o que é também ser bom na rua. [música de capoeira ao fundo] Então, o que eu acho importante desses mestres é que os mestre de capoeira, o tanto que eu conheci assim, tem essa coisa da paciência, né? É uma coisa muito interessante isso, né? Porque você precisa ter essa paciência de respirar e ter o seu tempo.

Conceição Evaristo (Belo Horizonte, MG)

“Da calma e do silêncio. Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem. Quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano no verbo, para assim versejar o âmago das coisas. Quando meu olhar se perder no nada. Por favor, não me despertem. Quero reter no adentro da íris, a menor sombra do ínfimo movimento. Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixe me quedar. Deixe me quieta na aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas. Há mundos submersos que só o silêncio da poesia penetra.” [lendo] A primeira história que me vem à cabeça, que eu me lembro, foi uma história contada por minha mãe, que era a história da galinha ruiva. É uma galinha que acha um grão de trigo e convida os seus vizinhos pra ajudar, pra ajudar a implantar o grão de trigo, e ninguém, e ninguém ajuda. E o que me intriga é como minha mãe tomou conhecimento dessa história e de outras histórias também, já que ela era uma pessoa praticamente semi-analfabeta. O processo de alfabetização da minha mãe, ele vai se aprimorando na medida que nós também entramos pra escola. À medida que os filhos vão se alfabetizando, minha mãe também vai aprimorando esse processo de leitura. “O olho do sol batia sobre as roupas estendidas no varal e mamãe sorria feliz. Gotículas de água aspergindo a minha vida menina, balançavam ao vento. Pequenas lágrimas dos lençóis. Pedrinhas azuis, pedaços de anil, fiapos de nuvens solitárias caídas do céu eram encontradas ao redor das bacias, e tinas das lavagens de roupa. Tudo me causava uma comoção maior. A poesia me visitava e eu nem sabia.” [lendo]

Saturnino Brito do Nascimento (Capixaba, AC).

“Eu venho da floresta com o meu cantar de amor. Eu venho da floresta com o meu cantar de amor. Eu canto é com alegria, a minha mãe que me mandou. Eu canto é com alegria, a minha mãe que me mandou. A minha mãe...” [cantando] Cantando estes hinos a gente encontra mais firmeza pra que a gente possa caminhar dentro do nosso caminho interior. Por sinal, nosso mestre, acerca da doutrina, ele se proferiu dizendo: “Meus irmãos, essa doutrina é a doutrina do caminho interior, quando vocês tomarem o Daime, vocês não vão viajar por fora de vocês não, porque vocês não vão enco Elevem o seu pensamento de forma que isso lhes proporcione o mergulho dentro do caminho interior, para que cada qual encontre em si o seu próprio valor. Para que cada qual reconheça em si todas as maravilhas anunciadas por Deus, o nosso Criador, dentro de si próprio. E entre as maravilhas anunciadas por Deus, o nosso Criador, está exatamente aquela que é a principal, que é a presença do próprio Deus manifestado em cada um. [som de vento] [som de chuva] Caridade. Solidariedade. Né? Estes são fundamentos assim, que jamais podem serem deixados de lado dentro do contexto da nossa doutrina, né? Dentro dela, o amor acende o amor. Dentro dela, a minha luz acende a tua, porque a tua acende a minha. [música]

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:38:39
Formato
MOV

Contexto de produção

Marcia Vinci DepoentePessoa
Aguinaldo da Silva DepoentePessoa
Ana Mae Barbosa DepoentePessoa
Toshi Tanaka DepoentePessoa
Awá Poty Werá DepoentePessoa
Aldenor da Costa Souza DepoentePessoa
Conceição Evaristo DepoentePessoa
Exótica Cinematografia ProduçãoInstituição
Local de Produção
Contexto de produção
O português falado no Brasil é resultado de um processo complexo de contato linguístico, marcado pela convergência de línguas indígenas, africanas e europeias. Essa matriz plural, longe de se homogeneizar, desdobrou-se em uma miríade de variedades regionais e sociais, cada uma com suas particularidades. Nesse sentido, o vídeo apresenta essa riqueza ao dar voz a representantes de comunidades distintas – seringueiros do Acre, mestres de carimbó do Pará, capoeiristas da Bahia, poetas de Minas Gerais, entre outros. Cada falante, com seu sotaque, seu repertório lexical e suas estruturas frasais típicas (como "eu me arrepresento" ou "não vai empatar"), encarna a vitalidade e a adaptabilidade da língua em diferentes contextos socioculturais. O módulo, ao incluir desde a declamação de um caboclo amazonense até a leitura de uma escritora consagrada, demonstra que a norma culta é apenas uma das facetas da língua. A valorização desses "falares" legitima as variedades linguísticas que foram historicamente marginalizadas, mas que são fundamentais para entender a identidade nacional.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Cessão
Proveniência
Exótica cinematográfica
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações

Exposição