Contexto de produção
Rubens Gerchman emergiu na cena artística brasileira dos anos 1960 como uma figura central na articulação entre arte, política e cultura urbana. Formado no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, consolidou rapidamente uma trajetória marcada pela participação em bienais nacionais e internacionais, pela experimentação formal e pelo engajamento crítico em relação às transformações sociais do país. Seu percurso dialoga de maneira direta com a ascensão das vanguardas brasileiras, especialmente com o neoconcretismo e as linguagens que buscavam romper as fronteiras entre arte e vida cotidiana. Desde cedo, Gerchman explorou a visualidade popular, os meios de comunicação, o repertório urbano e o poder simbólico das palavras como elementos de articulação estética e política.
É nesse contexto que surge LUTE, obra produzida em 1967 e integrante da série Cartilha no Superlativo, conjunto de trabalhos que o artista chamou de “poemas-esculturas”. Nessa série, palavras isoladas se projetam em grandes volumes tridimensionais, convertendo-se em objetos que ultrapassam a bidimensionalidade tradicional da arte gráfica. A intenção de Gerchman era revitalizar termos desgastados pelo uso cotidiano e pelo ambiente repressivo do regime autoritário. Palavras como Lute, Ar, Terra, Sol e SOS reaparecem monumentalizadas, transformadas em presenças físicas capazes de reativar sentidos adormecidos. No caso específico de LUTE, o artista buscava restituir à palavra sua urgência e potência original, fazendo dela um chamado direto à ação e à consciência crítica.
A proposta de instalar LUTE na Avenida Rio Branco, uma das vias mais movimentadas do Rio de Janeiro, evidencia a dimensão pública e política da obra. A palavra, convertida em objeto-cor de grande escala, seria atravessada diariamente por milhares de pessoas, impondo ao espaço urbano um enunciado que não poderia ser ignorado. Gerchman entendia que, ao inserir a obra na rua, retirava a palavra de seu contexto abstrato e a devolvia ao convívio social como corpo material, tático e confrontador. Essa intervenção também inscreveu a obra no repertório das ações artísticas que, nos anos 1960, buscavam romper a distância entre arte e sociedade, aproximando-se das experiências neoconcretas de participação e das estratégias de resistência simbólica à censura e à violência política.
A força documental de LUTE reside justamente nesse caráter duplo: a obra captura um momento histórico de supressão de liberdades e, ao mesmo tempo, projeta um horizonte de enfrentamento. Ao reduzir a palavra ao essencial e restituir-lhe energia, Gerchman criou uma espécie de cartilha alternativa, destinada não a ensinar regras, mas a reativar a capacidade de pensar e agir. Sua investigação sobre a linguagem, sobre o desgaste dos signos e sobre a possibilidade de recompor significados demonstra o papel da arte como dispositivo crítico. LUTE permanece como um dos ícones mais reconhecíveis da arte brasileira do período, símbolo de resistência e testemunho da crença de Gerchman no poder transformador da palavra quando reencontrada em sua dimensão sensível e pública.