Contexto de produção
Não podiam ser chefes, resistiam a ser escravos faz parte da série Racismo em Português, um projeto jornalístico que examina aspectos muitas vezes negligenciados do período colonial português e suas consequências nas sociedades de língua portuguesa. A reportagem foi produzida pelo Jornal Público com pesquisa e texto de Joana Gorjão Henriques, com apoio visual e realizativo de Frederico Batista, e foi publicada em fevereiro de 2016. O trabalho integra entrevistas, imagens e testemunhos sobre a experiência histórica em diferentes países africanos que foram colônias portuguesas, incluindo Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
No segmento dedicado a São Tomé e Príncipe, a reportagem aborda dinâmicas sociais e raciais no contexto colonial, como a proibição social de casamentos inter-raciais, a miscigenação clandestina e as formas como as hierarquias raciais estruturavam relações familiares e comunitárias. A série busca revelar como o racismo e a escravidão foram vividos e lembrados nesses territórios, problematizando narrativas simplificadas sobre o passado colonial e suas marcas no presente. A reportagem dialoga com a chamada “rota da escravatura” nos países lusófonos e convida o público a refletir sobre a memória histórica e as gramáticas da diferença que ainda influenciam percepções sociais.
Maria de Nazaré Ceita é cientista social, investigadora e professora de São Tomé e Príncipe, com formação desenvolvida na Rússia e em Portugal nas áreas de etnografia, antropologia, história de África e desenvolvimento socioeconómico. Doutorada pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, tem produzido estudos sobre história santomense, mundo rural, género e processos coloniais e pós-coloniais, com obras que se tornaram referências, como A Curadoria Geral dos Serviçais e Colonos (1875–1926) e, em coautoria, História de São Tomé e Príncipe: Breve Síntese. Atuou em diversas instituições culturais e académicas do país, incluindo a Direção da Cultura, a Biblioteca Nacional e a Universidade de São Tomé e Príncipe, onde exerce docência e coordenação científica. Sua trajetória combina investigação, gestão cultural e participação em programas internacionais, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a história e as dinâmicas sociais do arquipélago.