Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
noli_aud_87
Título
Poemas de Fernando
Descrição

O vídeo apresenta a leitura de cinco poemas do escritor português Fernando Pessoa, em locuções produzidas pela Casa Fernando Pessoa.

Excerto de "O Guardador de Rebanhos VIII" (1925) de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, lido pela escritora portuguesa Patrícia Reis.

Num meio-dia de fim de Primavera

Tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte

Tornado outra vez menino,

A correr e a rolar-se pela erva

E a arrancar flores para as deitar fora

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

(...)

Um dia que Deus estava a dormir

E o Espírito Santo andava a voar,

Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz

E deixou-o pregado na cruz que há no céu

E que serve de modelo às outras.

Depois fugiu para o Sol

E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

(...)

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E por isso é que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

(...)

A Criança Nova que habita onde vivo

Dá-me uma mão a mim

E a outra a tudo que existe

E assim vamos os três pelo caminho que houver,

Saltando e cantando e rindo

E gozando o nosso segredo comum

Que é o de saber por toda a parte

Que não há mistério no mundo

E que tudo vale a pena.

Excerto do “Poema em linha recta” (1944) de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, lido pelo cantor português PAC, da banda Weasel.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

(...)

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

(...)

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Excerto de “A passagem das horas” (1944) de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, lido pela escritora portuguesa Inês Pedrosa.

“Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma ideia abstracta,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,

E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,

Porque ser inferior é diferente de ser superior,

E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.

Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de carácter,

E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,

E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,

E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.

Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,

Basta que ela exista para que tenha razão de ser.

Estreito ao meu peito arfante num abraço comovido

(No mesmo abraço comovido)

O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,

O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria”

Poema “A criança que ri na rua” (1934) de Fernando Pessoa, lido pela cantora e compositora portuguesa Sara Tavares.

A criança que ri na rua,

A música que vem no acaso,

A tela absurda, a estátua nua,

A bondade que não tem prazo —

Tudo isso excede este rigor

Que o raciocínio dá a tudo,

E tem qualquer cousa de amor,

Ainda que o amor seja mudo.

Excerto de “Grandes são os desertos, e tudo é deserto” (1930) de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, lido pelo cantor e compositor português Sérgio Godinho.       

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto

Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.

Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes —

Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,

Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!

Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,

Errei a porta do sentimento,

Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.

Hoje não me resta, em vésperas de viagem,

Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,

Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,

Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)

Senão saber isto:

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar

Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).

Acendo o cigarro para adiar a viagem,

Para adiar todas as viagens.

Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!

Basta por hoje, gentes!

Adia-te, presente absoluto!

Mais vale não ter que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.

E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar a mala,

Tenho por força que arrumar a mala,

A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.

(...)

Grandes são os desertos e tudo é deserto,

Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.

Fim.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:06:47
Formato
MP4

Contexto de produção

Sérgio Godinho participantePessoa
Sara Tavares participantePessoa
Inês Pedrosa participantePessoa
Pac participantePessoa
Patrícia Reis participantePessoa
Fernando Pessoa autorPessoa
Local de Produção
Contexto de produção
O vídeo dedicado à obra de Fernando Pessoa demonstra a capacidade da língua portuguesa como instrumento de criação de universos literários complexos e plurais. A seleção de poemas, lida por diferentes vozes da cultura contemporânea portuguesa, vai além da celebração de um autor canónico. Ela exibe a plasticidade e a riqueza expressiva do português, materializada na própria invenção dos heterónimos – vozes poéticas distintas que coexistem numa só língua. Esta abordagem conecta-se diretamente com o propósito da exposição de revelar a língua como expressão social e cultural em permanente transformação. Por meio da diversidade temática e estilística de Pessoa o vídeo exemplifica como o português estrutura pensamentos e sentimentos profundos, servindo como base para projeções artísticas únicas. Com isso, a obra reforça a dimensão inventiva e a vitalidade da língua, apresentando-a como um repertório vivo e capaz de abrigar multiplicidades.

Contexto e relações

Descritores

Entrada do objeto

Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações