Dois trechos do filme “O Labirinto da Saudade” de Miguel Gonçalves Mendes, sobre o pensador português Eduardo Lourenço.
Descrição de cenas:
Estada no Brasil foi curta, mas lá começou a nascer a ideia d’O Labirinto da Saudade.
“Poucos países fabricaram para si mesmos uma ideia tão idílica como Portugal.”
Fala ao telefone cenográfico e ouve a voz de Agostinho da Silva: “O amigo não pode provar que português se chama português pq nasceu em Portugal! Mas pode imaginar que Portugal nasceu pq foi construído já por portugueses, que eram uns homens incríveis que viram na Península Hispânica um país que nunca ninguém tinha visto! Eles olharam para o mapa, como se isso fosse possível, e viram ao longo da costa aquele país novo e resolveram construí-lo.”
Eduardo diz: “Espantoso que lá onde está Agostinho da Silva ainda se lembrasse de mim. Uma espécie de santo laico. Tinha uma visão profética dizendo que devíamos pensar que o centro do mundo de fala portuguesa e de Portugal já não era Portugal, mas que era o Brasil.”
A telefonista diz: “Sobre aquela dúvida, sobre se o Eduardo é apenas um filósofo ou apenas um ensaísta, eu quero dizer-lhe que o Eduardo é um ensaísta e um filósofo que escreve com uma linguagem comovida. A isso se chama poesia. O Eduardo é um poeta do nosso pensamento.”
Eduardo fala e o texto é escrito na tela: “A conquista é uma exceção na nossa epopeia imperial, uma espécie de acidente inevitável: o comércio, a troca, bastavam-nos no início, maneira suave de tirar a lusitana e magra barriga da miséria. Império de pobres, ricos de repente, foi o nosso.”
Eduardo é entrevistado e fala sobre os Lusíadas: “Essa mitificação para mim continua a ter um sentido forte. Foi o momento de maior esplendor na nossa própria história, enquanto história portuguesa. O que nós deixamos ao mundo é que chegamos à Índia primeiro que os outros europeus. De algum modo, até pusemos a Europa no mapa do mundo. O país tinha um milhão e meio de habitantes. Quer dizer, é a cidade de Lisboa de hoje. Como é que essa gente chegou à Ásia, chegou
ao Japão? Entrou em contato com a China! E foi isso o que impressionou o Camões. Foi a desproporção entre o nosso pequeno poder e os efeitos dessa época, desse poder. Foi o texto das nossas glórias. Nasceu e foi escrito quando essas glórias já estavam a desaparecer. Daí, eu costumo dizer, esse lado réquiem que há nos Lusíadas. Porque é, ao mesmo tempo, enfim, canto de vitória, de glória, passada sobretudo, mas também é um réquiem. Porque o próprio Camões deu-se conta, não é? Que nós já não estávamos nas nossas horas de glória. Que era o crepúsculo que tinha começado para nós.”
Voz over: “E assim fomos ultrapassando as fronteiras do mundo.”
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