Trechos do vídeo “Sotaques” de Miguel Gonçalves Mendes a partir do texto do livro “O Paraíso são os Outros” de Valter Hugo Mãe. O texto é lido por várias pessoas, homens e mulheres, de diferentes origens e países que falam português: Macau, Portugal, Moçambique, Timor-Leste, Brasil, entre outros.
Transcrição das partes:
Trecho 1
Reparei desde pequena que os adultos vivem muito em casais, mesmo que nem sempre sejam óbvios porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteiras, há casais de mulher com homem, há de homem com homem e outros de mulher com mulher. Há também casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros, pinguins – que são absurdamente fiéis –, quero dizer: há casais de pinguins e até golfinhos que podem ser casais. Tudo por causa de amor. O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares. Mas amar é um trabalho bom.
Trecho 2
Embora existam os que fazem festas, há uma infinidade de casais que não as têm e outros que nem dizem nada a ninguém. Vão viver juntos ou não. São casais, mas só eles sabem. Gostam um do outro, mas só eles sabem. Muitos amores são discretos. Deve ser como construir um prédio em algures onde nunca ninguém foi, para poder construir em segredo. Uma vizinha nossa desapareceu. Soubemos que estava apaixonada num país longínquo. A minha mãe diz que ela agora vive de pernas para o ar porque foi para o lado de baixo do globo terrestre. Eu imagino que a saia dela levante e seja difícil de caminhar. A coisa mais divertida de perceber: os casais não eram família antes. Eles eram gente desconhecida que se torna família. Mesmo que os filhos julguem que pai e mãe se conhecem desde sempre, isso não precisa de ser verdade. Os adultos apaixonam-se ao acaso, ainda que façam um esforço para escolher muito ou com muita inteligência. Já aprendi. O amor é um sentimento que não obedece nem se garante. Precisa de sorte e, depois, empenho. Precisa de respeito. Respeito é saber deixar que todos tenham vez. Ninguém pode ser esquecido. Por vezes, faço uma lista de nomes das pessoas importantes para
mim para lembrar delas. Mesmo que não lhes fale, penso em como estarão se bem ou mal, quando me parece que podem estar mal, telefono a perguntar. Quase sempre estou errada.
Trecho 3
O amor precisa de ser uma solução, não um problema. Toda a gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa de ser uma solução. As pessoas que amam estão sempre com ar de urgência porque têm saudades quando não estão acompanhadas e sentem uma euforia bonita quando estão juntas. Eu acho que as pessoas apaixonadas sentem saudade mesmo quando estão juntas porque ficam sempre a olhar umas para as outras pasmadas como se fosse a primeira vez. Até como se fosse a primeira vez que vissem sapos, neve, cataratas, aqueles peixes voadores, jacarés, prédios com mais de trinta andares ou o Miguel a enrolar os olhos. As pessoas mais velhas, quando são um casal, dão beijos pequenos. As pessoas mais novas costumam dar beijos mais longos, cheios de paciência. Eu não tenho muita paciência. Devo ter a alma mais velha. Não sei. Também não acredito muito que beijar seja como construir prédios, embora alguns beijos pareçam cansar. Há casais que ficam mesmo sem ar, como quem andou a carregar tijolos. Não estou certa de que quero que me falte o ar ou de que quero carregar tijolos. Tenho muitas dúvidas. Quando me apaixonar, dizem-me fico logo esclarecida. Aguardarei, desconfiada. Não aceito as coisas à pressa, preciso de pensar.
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