Museológico

Manifesto Imaginado

2004

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
noli_aud_107
Título
Manifesto Imaginado
Descrição

O vídeo reúne excertos do programa da série “Entre nós”, em que a jornalista Raquel Santos entrevista a poeta Conceição Lima. Na parte final, a autora faz a leitura de um poema presente no livro “O útero da casa”.

Poema:

Manifesto imaginado de um serviçal

"Chão incontestado

chama-me teu que sob minha fronte se esvai a Lua esburacada na senzala

Não mais regressarei ao Sul

Morador interdito ficarei nas tuas entranhas

aqui onde tudo dei e me perdi

Morro sem respirar o hálito de uma outra cidade que adubei.

Irmãos: Deitai-me amanhã no terreiro à hora do sol nascente: quero olhar de frente as plantações. Quero contemplar, morto e inteiro, meu legado involuntário de africano em África desterrado.

Clamo o pó que reclama a exaustão serena do meu corpo. Não mo podeis usurpar, ngwêtas, com o ferro da vossa força. Não mo negueis, ó híbridos forros, com o vosso frio desdém de séculos. Este barro é meu, espinho a espinho penetrou o osso dos meus passos como um sopro cruel e palpitante. Até ao fim onde agora começo porque a morte é o estuário de onde desertam os barcos todos que cavaram meu destino.

Irmãos:

Pelo mar viemos, com febre. De longe viemos, com sede. Chegamos de muito longe sem casa. Daí-me a beber agora a amarga infusão do caule do aloéQuero juntar o cálice do nosso calvário 

Daí-me uma coreografia de labaredas e vertigens 

Que a nossa saga é uma constelação de astros absurdos

Daí-me amanhã em oferenda todos os sons que criei e os sons

Que não criei mas aprendi 

A puíta, o ndjambi, o bulauê

A dêxa também o socopé

Trazei-me os silêncios todos que percorri

Mostraí-me os caminhos que não trilhei mas construí.

Celebraí-me anônimo a na praça que não verei mas antevi

Ilhas! Clamai-me vosso que na morte

Não há desterro e eu morro.

Coroai-me hoje

de raízes de sândalo e ndombó

Sou filho da terra."

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:04:46
Formato
MP4

Contexto de produção

Conceição Lima EscritoraPessoa
Raquel Santos entrevistadoraPessoa
Local de Produção
Contexto de produção
Conceição Lima, nascida em Santana, na ilha de São Tomé, em 1961, é uma das principais vozes da poesia contemporânea de São Tomé e Príncipe. Interessou-se pela escrita ainda jovem. Estudou jornalismo em Portugal e regressou ao arquipélago para trabalhar na imprensa, na rádio e na televisão, tendo fundado em 1993 o jornal O País Hoje. Posteriormente prosseguiu a formação no King’s College de Londres e integrou a redação dos serviços em português da BBC, o que ampliou a circulação de sua produção intelectual no espaço lusófono. Sua obra literária ganhou forma em livros que se tornaram referências da poesia santomense. "O útero da casa" (2004) marcou sua estreia, seguido de títulos como "A dolorosa raiz do micondó" e "O País de Akendenguê". Nesses livros, a autora articula memória, território e história para pensar a experiência das ilhas e suas relações com o período colonial e pós-independência. No programa “Entre nós”, da RTP Internacional, Conceição Lima comenta aspectos ligados à formação multicultural de São Tomé e Príncipe e lê o poema “Manifesto imaginado de um serviçal”, publicado em "O útero da casa". A leitura evidencia a forma como sua poesia utiliza a língua portuguesa para elaborar reflexões sobre identidade, ancestralidade e as trajetórias que marcaram o arquipélago.

Contexto e relações

Tópico relacionado
PoesiaAssunto
IdentidadeAssunto
Descritores
ÁfricaLocal

Entrada do objeto

Data de Entrada
22/11/2019
Método de Entrada
Licenciamento
Proveniência
RTP Rádio e Televisão de Portugal SA
Motivo da Entrada
Para compor exposição de Longa Duração do Museu da Língua Portuguesa.

Relações