O vídeo reúne excertos do programa da série “Entre nós”, em que a jornalista Raquel Santos entrevista a poeta Conceição Lima. Na parte final, a autora faz a leitura de um poema presente no livro “O útero da casa”.
Manifesto imaginado de um serviçal
"Chão incontestado
chama-me teu que sob minha fronte se esvai a Lua esburacada na senzala
Não mais regressarei ao Sul
Morador interdito ficarei nas tuas entranhas
aqui onde tudo dei e me perdi
Morro sem respirar o hálito de uma outra cidade que adubei.
Irmãos: Deitai-me amanhã no terreiro à hora do sol nascente: quero olhar de frente as plantações. Quero contemplar, morto e inteiro, meu legado involuntário de africano em África desterrado.
Clamo o pó que reclama a exaustão serena do meu corpo. Não mo podeis usurpar, ngwêtas, com o ferro da vossa força. Não mo negueis, ó híbridos forros, com o vosso frio desdém de séculos. Este barro é meu, espinho a espinho penetrou o osso dos meus passos como um sopro cruel e palpitante. Até ao fim onde agora começo porque a morte é o estuário de onde desertam os barcos todos que cavaram meu destino.
Irmãos:
Pelo mar viemos, com febre. De longe viemos, com sede. Chegamos de muito longe sem casa. Daí-me a beber agora a amarga infusão do caule do aloéQuero juntar o cálice do nosso calvário
Daí-me uma coreografia de labaredas e vertigens
Que a nossa saga é uma constelação de astros absurdos
Daí-me amanhã em oferenda todos os sons que criei e os sons
Que não criei mas aprendi
A puíta, o ndjambi, o bulauê
A dêxa também o socopé
Trazei-me os silêncios todos que percorri
Mostraí-me os caminhos que não trilhei mas construí.
Celebraí-me anônimo a na praça que não verei mas antevi
Ilhas! Clamai-me vosso que na morte
Não há desterro e eu morro.
Coroai-me hoje
de raízes de sândalo e ndombó
Sou filho da terra."
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