Museológico

Língua esvoaçante

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualPerformanceGênero Documental
Código de Inventário
noli_aud_52
Título
Língua esvoaçante
Descrição

A escritora guineense Odete Semedo realiza a leitura do poema de sua autoria, “Língua esvoaçante”, em uma performance que ressalta a força da palavra falada e a dimensão poética da língua.

Transcrição do poema:

A língua nasceu solta e desenvolta. Nasceu virada para fora de si, irmanada com os lábios, os dentes e as cordas vocais que lhe deram a fala, a música, o grito e o silêncio, próprio da caverna onde livremente se encontra enclausurada. (...)

A língua, essa coisa esguia, nem sempre severa, guiada pela mente, vestida de uma mão ou, por vezes, de apenas três dedos — que podem ser de conversa —, vai dando largas às fantasias e aos sonhos.

Apesar de ter nascido solta e desenvolta, livre, ainda há quem pense ser dela o dono policiando no escuro a língua, não vá um mal-intencionado beliscar um acento ou acrescentar uma abertura em lugar incerto ou, ainda, quem sabe?, virgular o que deve ser pontofinalizado. Mas a língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado; o certo é que em silêncio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão... questionando... a língua é sempre testemunha.

Em que língua escrever

As declarações de amor?

Em que língua cantar

As histórias que ouvi contar?

Em que língua escrever

Contando os feitos das mulheres

E dos homens do meu chão?

Como falar dos velhos

Das passadas e cantigas?

Falarei em crioulo?

Mas que sinais deixar

Aos netos deste século?

Ou terei de falar

Nesta língua lusa

E eu sem arte nem musa

Mas assim terei palavras para deixar 

Aos herdeiros do nosso século

Em crioulo gritarei

A minha mensagem 

Que de boca em boca

Fará a sua viagem

Deixarei o recado

Num pergaminho

Nesta língua lusa

Que mal entendo

Ou terei de falar

Nesta língua lusa

E eu sem arte nem musa

Mas assim terei palavras para deixar

Aos herdeiros do nosso século

Em crioulo gritarei

A minha mensagem

Que de boca em boca

Fará a sua viagem

Deixarei o recado 

Num pergaminho

Nesta língua lusa

Que mal entendo

E ao longo dos séculos

No caminho da vida

Os netos e herdeiros

Saberão quem fomos

Características

Suporte/Material
Nato-digitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:02:52
Formato
MP4

Contexto de produção

Odete Semedo PoetaPessoa
Local de Produção
Contexto de produção
A leitura do poema integra o contexto de produção da experiência Nós da Língua, ao evidenciar a língua como espaço de criação, movimento e resistência cultural. A performance de Odete Semedo valoriza a oralidade e a expressividade poética como formas de afirmar identidades e trajetórias marcadas pelo multilinguismo e pela convivência entre línguas. Ao dar centralidade à voz de uma escritora guineense, o registro contribui para ampliar a compreensão da língua portuguesa em diálogo com outras línguas e experiências culturais, em consonância com a proposta do Nós da Língua de reconhecer a diversidade de modos de falar, escrever e viver a língua.

Contexto e relações

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Descritores

Entrada do objeto

Data de Entrada
2020
Método de Entrada
Licenciamento
Proveniência
Odete Semedo
Motivo da Entrada
O item integrou o acervo após o incêndio ocorrido em 2015, sendo incorporado em 2021 para compor a reabertura da exposição e a experiência "Nós da Língua".

Relações