Trechos do programa "Quantos milhões morreram na saga do colonialismo?" da série “Racismo em Português” do Jornal Público, realizada em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos, sobre preconceito de cor e raça em cinco países que falam português, entre eles, Moçambique.
O vídeo é composto das seguintes partes:
Sobre imagens da cidade de Maputo, voz de Inês Raimundo, geógrafa e professora universitária: "É um assunto que tem sido camuflado, mas no dia-a-dia, a gente vive. A gente nota que eu não posso ter acesso a uma boa escola a uma boa educação porque eu não tenho dinheiro, e eu não tenho dinheiro porque eu sou negro. Que eu não tenho acesso àqueles lugares que dão mais dinheiro. Há uma hipocrisia tal que ninguém quer falar sobre isso.”
Voz de Tomás Vieira Mário, jornalista e jurista, sobre imagens de época (anos 60/70) da capital intercaladas com ele ao vivo: “O meu tio tem uma frase que é muito emblemática. Diz que ‘Os que limpavam Lourenço Marques nunca viam quem sujava.’ Vice-versa. O carro da câmara municipal ia, às 2 da manhã, buscar os negros que vinham pra aqui limpar a cidade e, antes que os ‘donos’ acordassem, voltavam pra os subúrbios! Isso é que era o racismo. É isso!”
Voz de Francisco Noa, reitor da Universidade Lúrio, sobre imagens de época da capital intercaladas com ele ao vivo: "A questão racial em Moçambique tem sido um pouco tabu. Fala-se pouco dela e quando ela emerge, ela é imediatamente abafada. Como se fosse algo politicamente incorreto. E isso explica-se também porque eu penso que o colonialismo português foi um pouco pudico, um pouco puritano no sentido de se considerar um colonialismo não racista. Mas eu penso que o colonialismo português foi estruturalmente racista sobretudo em Moçambique.”
Paulina Chiziane (escritora) conta uma história de racismo que se passou com ela na escola quando ela era criança, da professora que não admitiu que ela, sendo negra, tinha obtido uma nota maior do que a maioria das outras crianças que eram brancas. E que o pai disse a ela que ela tinha que ficar contente porque tinha oportunidade de estudar, que os antepassados tinham sofrido muito mais.
Eduardo Quive, jornalista: "Tem um poema muito bonito mesmo o Albino Magaia que eu gosto que é a questão da descolonização, 'Nós descolonizamos o Land Rover', é o título do poema porque Land Rover era o carro do colono, todo mundo via e ficava assustado. A mesma palavra usa-se para a língua portuguesa que olha nós descolonizamos, nós herdamos, a língua é nossa também, já não é do opressor. Mas esta mensagem não foi espalhada de uma forma objetiva, a língua portuguesa é nossa, a língua também era uma forma de oprimir. O português não nos ensinou a todos a língua portuguesa, a língua portuguesa era para um grupo e os outros eram os isolados. Eu próprio venho de uma família em que quando falasse changana (língua nativa), que é minha língua tradicional, falavam 'eu não falo a língua de cão, a língua de gente é a língua portuguesa'. Eu vivi isso, eu tenho 24 anos e vivi isso. Então imaginemos os outros que tem 30, 35, etc. Nos impediam de falar a nossa língua. Os nossos pais queriam que fossemos gente, que nos formássemos, que escrevêssemos bem, que falássemos bem, que frequentássemos os melhores lugares da cidade, com gente branca. Naturalmente que não vai na cabeça da minha mãe que eu brinco com os brancos. Mas indiretamente isto que dizer: olha – fala a língua que te vai tornar gente como eles. Eles quem são? Nós sabemos quem são!”
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