Quatro trechos editados do documentário “Karingana – licença para contar” de Monica Monteiro com produção de CineGroup para o Canal Curta, onde falam os escritores e pensadores: Sara Jona, Nataniel Ngomane, Paulina Chiziane e Mia Couto.
Trechos:
Sara Jona: Há uma expressão que é recorrente do contar de histórias nas tradições Moçambicanas. Que é a expressão “Karingana” ou “a Karingana”. Quando alguém vai contar uma história, começa por dizer: Karingana ou a Karingana. E tem ouvintes perto de si, e esses ouvintes respondem Karingana, como quem diz, estou aqui para te ouvir.
A questão da identidade atravessa a vida e a poesia de qualquer nação. Até porque não temos sempre um momento estanque em qual a identidade é a mesma coisa. A nossa literatura foi refletindo essas nuances.
Nataniel Ngomane: “A ideia de uma comunicação numa situação multilinguística como Moçambique exigia que houvesse uma única língua que todos pudessem atender, essa língua obviamente era a língua portuguesa. Quer dizer eu roga, eu maconde no norte, eu sena no meio, eu falo português e posso me entender agora.
Se eu falo em roga, os meus outros compatriotas não vão me atender, se eu falo em changano a mesma coisa. Então nós nos apropriamos desta língua.
Minha língua materna é o xitso, que é a língua que eu herdo do meu pai. E a outra é oshop, que é a língua que eu herdo da minha mãe. E eu cresço no subúrbio de Maputo, que a gente fala ronga. Portanto, eu nasço e cresço no meio destas três línguas até aos seis anos, eu começo a aprender a falar português a partir dos 5 anos para entrar na escola.”
Paulina Chiziane: “Nós já estamos muito habituados a fazer este exercício de migração, de um espaço linguístico para o outro, mas por vezes as migrações quando eu migro de um lugar para o outro não consigo levar toda a minha bagagem, é lógico. Há por exemplo, ti ti ti, parece um canto de um pássaro, mas é uma palavra, é uma expressão que diz muitas coisas. A palavra frescura, não é o ti ti ti, o ti ti ti é alguma coisa muito mais profunda, portanto é a sede que vai, é a paz que vem, é a tranquilidade, é a frescura.”
Mia Couto: “Eu sou de uma cidade onde se falam duas línguas, que é um pouco como aqui em Maputo. Mas lá se fala xindal e xissena. E eu falava xissena com fluência, quando eu era menino, a partir dos cinco, seis anos de idade falava. Era a língua do lado da rua, havia ali uma fronteira que era muito permeável, no caso dos bairros onde eu vivi, não em todo lado, mas nesses bairros que eram os bairros mais junto a periferia, a gente atravessava a África, e Portugal naquele caso não tinha conseguido afastar essa África para longe. Tava do outro lado da rua.
Então quando eu queria brincar com esses meninos, eu tinha que brincar nessa outra língua, e eu ouvia histórias, e isso, digamos, foi uma coisa que me tornou acho que é disponível.”
“Basta estar na rua a ouvir as pessoas, as línguas nacionais de Moçambique, de origem Africana, tem essa cadência, um compasso, isso é na linguagem verbal, mas depois da linguagem gestual também. As pessoas estão, como escutei a Bethânia dizendo, todo o corpo está no ombros, é como se as pessoas assumissem que quando estão passeando estão pisando o mundo, não pedem licença né. Então a sua presença é proclamada.”
(crianças olham para a câmera instigadoras)
“Para mim que não sei dançar é uma coisa terrível aqui eu explicar que não sei dançar, é uma coisa impossível, as pessoas não acreditam. Mas realmente eu tenho essa carência enorme, porque eu queria fazer música, eu queria dançar, então eu só tenho uma hipótese, só tenho uma saída, que é fazer as palavras dançarem, e trazer tudo isso que é essa exibição de movimento, de embalo que as pessoas tem na palavra e no corpo, trazer isso para a escrita. Quero fazer o mundo dançar.”
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