Museológico

Entrevista de José Luandino Vieira

10/08/1978

Identificação do documento/obra

Tipo documental
Código de Inventário
noli_aud_09
Título
Entrevista de José Luandino Vieira
Descrição

Dois trechos editados de um depoimento do escritor angolano José Eduardo Agualusa, extraídos do documentário “Karingana – Licença para Contar” (2018), dirigido por Monica Monteiro e produzido pela CineGroup para o Canal Curta!. No filme, Agualusa — ao lado de outros escritores e pensadores — reflete sobre a tradição oral, a força das narrativas africanas e o papel da língua portuguesa na construção de identidades e memórias no contexto lusófono.

Transcrição dos trechos da entrevista:

1) 21:54-22:29: “O Eduardo [Lourenço] dizia, tudo começa pela poesia, tudo começou pela poesia. E é verdade, em Angola, tudo começou pela poesia, neste movimento nacionalista que acabou por dar origem, enfim, à independência do país né? Portanto a literatura foi importante em Angola, a poesia realmente foi importante e foi transformadora. E em países como Angola, Moçambique, a maior parte dos países africanos que são países jovens, há essa questão da identidade que é central, a procura da identidade, a discussão sobre a identidade e aí desse ponto de vista acho que os meus livros estão perfeitamente enquadrados dentro desse espírito.”

 

2) 25:58-26:47 (no palco, conversam Maria Bethânia, Mia Couto e Agualusa): “Eu vivi no Rio de Janeiro já há 16 anos. E lembro uma altura em que apanhei o táxi, e o taxista veio conversando comigo muito simpaticamente e numa altura parou e disse: mas você é da onde? Eu disse: eu sou da Angola. Ele disse: Angola? Mas em que estado fica? Eu disse: não, não é no Brasil, é um país na costa ocidental da África. Ele disse: ah, então deixe me lhe dar os parabéns, deixa me parabenizar você, porque você fala muito bem português. Eu disse: bem sabe, é que nós em Angola falamos português. Ele disse: ah eu pensei que só no Brasil se falasse português. Eu disse: então, em Portugal pelo menos... em Portugal. Ele disse: não, vamos lá ver, em Portugal falam uma língua meio atravessada, não é bem português!” (todos riem).

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:04:54
Formato
MP4

Contexto de produção

Local de Produção
Contexto de produção
O programa da RTP exibido em 1978, dedicado à literatura africana de expressão portuguesa, foi produzido em um momento histórico de intensas transformações políticas e culturais nos países recém-independentes de língua portuguesa. Angola havia conquistado sua independência apenas três anos antes, em 1975, e a cena literária ganhava visibilidade internacional como um espaço de afirmação identitária e reflexão crítica sobre o colonialismo. Nesse contexto, a obra de José Luandino Vieira era central. Escritor angolano preso durante anos pelo Estado Novo português, Luandino tornou-se símbolo de resistência política e de inovação linguística. Sua literatura incorporava ritmos, expressões e estruturas próprias do português falado em Angola, dialogando diretamente com o quimbundo e com as experiências urbanas da população de Luanda. O programa da RTP buscava justamente destacar esse processo de emergência de novos imaginários literários africanos, dando espaço a escritores que reelaboravam a língua portuguesa a partir de seus próprios referenciais culturais. A gravação reuniu entrevistas, análises e trechos de depoimentos que evidenciam a dimensão política do ato de escrever em português naquele momento. Para Luandino, como para muitos autores da África lusófona, a língua herdada do colonizador tornava-se um instrumento de reinvenção e de construção nacional. O programa, produzido em Portugal pós-Revolução dos Cravos, também reflete o esforço de reconfigurar a relação entre ex-metrópole e ex-colônias, buscando compreender a literatura africana como parte de um campo cultural mais amplo e em transformação. No módulo Nós da Língua Portuguesa, esse depoimento ilumina as tensões e possibilidades que atravessam a circulação da língua no mundo. A fala de Luandino evidencia como a literatura angolana redefiniu o português ao torná-lo veículo de experiências locais, afetivas e políticas. Ao apresentar essa camada histórica, o vídeo reforça a ideia de que a língua é espaço de disputa, criação e reinvenção contínua, especialmente em contextos marcados pela descolonização e pela busca de novas identidades coletivas.

Contexto e relações

Tópico relacionado
LiteraturaAssunto
IdentidadeAssunto
CulturaAssunto
LinguagemAssunto
Descritores

Entrada do objeto

Data de Entrada
19/11/2019
Método de Entrada
Licenciamento
Proveniência
Rádio e Televisão de Portugal S.A.
Motivo da Entrada
Para compor exposição de Longa Duração do Museu da Língua Portuguesa.

Relações