O vídeo apresenta cenas de Maputo em time lapse, do documentário “Maputo: Ethnography of a Divided City” de João Graça e Fábio Ribeiro, enquanto Fátima Mendonça lê o poema intitulado “Let my people go” , de Noémia de Sousa.
Transcrição:
Noite morna de Moçambique e sons longínquos de marimbas chegam até mim -- certos e constantes -- vindos nem eu sei donde. Em minha casa de madeira e zinco, abro o rádio e deixo-me embalar... Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos. E Robeson e Maria cantam para mim spirituals negros do Harlem. Let my people go -- oh deixa passar o meu povo, deixa passar o meu povo --, dizem. E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim soam-me Anderson e Paul e não são doces vozes de embalo. Let my people go. Nervosamente, sento-me à mesa e escrevo... (Dentro de mim, oh let my people go...) deixa passar o meu povo. E já não sou mais que instrumento do meu sangue em turbilhão com Marian me ajudando com sua voz profunda -- minha Irmã. Escrevo... Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado e revoltas, dores, humilhações, tatuando de negro o virgem papel branco. E Paulo, que não conheço mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique, e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças, algodoais, e meu inesquecível companheiro branco, e Zé -- meu irmão -- e Saul, e tu, Amigo de doce olhar azul, pegando na minha mão e me obrigando a escrever com o fel que me vem da revolta. Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro, enquanto escrevo, noite adiante, com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio -- let my people go, oh let my people go. E enquanto me vierem do Harlem vozes de lamentação e meus vultos familiares me visitarem em longas noites de insônia, não poderei deixar-me embalar pela música fútil das valsas de Strauss. Escreverei, escreverei, com Robeson e Marian gritando comigo: Let my people go.
OH! DEIXA PASSAR O MEU POVO
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