Museológico

Let my people go

2015

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualDocumentárioGênero Documental
Código de Inventário
noli_aud_73
Título
Let my people go
Descrição

O vídeo apresenta cenas de Maputo em time lapse, do documentário “Maputo: Ethnography of a Divided City” de João Graça e Fábio Ribeiro, enquanto Fátima Mendonça lê o poema intitulado “Let my people go” , de Noémia de Sousa.

Transcrição:

Noite morna de Moçambique e sons longínquos de marimbas chegam até mim -- certos e constantes -- vindos nem eu sei donde. Em minha casa de madeira e zinco, abro o rádio e deixo-me embalar... Mas as vozes da América remexem-me a alma e os nervos. E Robeson e Maria cantam para mim spirituals negros do Harlem. Let my people go -- oh deixa passar o meu povo, deixa passar o meu povo --, dizem. E eu abro os olhos e já não posso dormir.

Dentro de mim soam-me Anderson e Paul e não são doces vozes de embalo. Let my people go. Nervosamente, sento-me à mesa e escrevo... (Dentro de mim, oh let my people go...) deixa passar o meu povo. E já não sou mais que instrumento do meu sangue em turbilhão com Marian me ajudando com sua voz profunda -- minha Irmã. Escrevo... Na minha mesa, vultos familiares se vêm debruçar. Minha Mãe de mãos rudes e rosto cansado e revoltas, dores, humilhações, tatuando de negro o virgem papel branco. E Paulo, que não conheço mas é do mesmo sangue e da mesma seiva amada de Moçambique, e misérias, janelas gradeadas, adeuses de magaíças, algodoais, e meu inesquecível companheiro branco, e Zé -- meu irmão -- e Saul, e tu, Amigo de doce olhar azul, pegando na minha mão e me obrigando a escrever com o fel que me vem da revolta. Todos se vêm debruçar sobre o meu ombro, enquanto escrevo, noite adiante, com Marian e Robeson vigiando pelo olho luminoso do rádio -- let my people go, oh let my people go. E enquanto me vierem do Harlem vozes de lamentação e meus vultos familiares me visitarem em longas noites de insônia, não poderei deixar-me embalar pela música fútil das valsas de Strauss. Escreverei, escreverei, com Robeson e Marian gritando comigo: Let my people go.

OH! DEIXA PASSAR O MEU POVO

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:02:53
Formato
MP4

Contexto de produção

Noémia de Sousa autoraPessoa
Fátima Mendonça participantePessoa
Fábio Ribeiro produção do documentárioPessoa
João Graça produção do documentárioPessoa
Local de Produção
Contexto de produção
O vídeo contribui para ampliar a compreensão da língua como espaço de circulação de memórias e articulação de pertencimentos, eixo central de Nós da Língua Portuguesa. A leitura de Let my people go revela como a poesia moçambicana estabelece diálogos que ultrapassam fronteiras, conectando lutas locais a vozes do mundo afro-diaspórico. Essa relação evidencia que o português, apropriado por diferentes comunidades, torna-se meio de expressão de experiências históricas compartilhadas. Com esse item, a instalação evidencia que o português também se afirma como ferramenta de resistência e afirmação coletiva. O poema, atravessado por vozes que ecoam além de Moçambique, sublinha a potência criadora dos povos que remodelam a língua a partir de suas experiências, contribuindo para que o visitante perceba sua vitalidade e amplitude.

Contexto e relações

Tópico relacionado
PoesiaAssunto
NegritudeAssunto
IdentidadeAssunto
LiberdadeAssunto
MemóriaAssunto

Entrada do objeto

Data de Entrada
26/06/2020
Método de Entrada
Licenciamento
Proveniência
Noémia de Sousa
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações