Museológico

Dos meninos da Malanga

2015

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualDocumentárioGênero Documental
Código de Inventário
noli_aud_72
Título
Dos meninos da Malanga
Descrição

Trecho do documentário “Maputo: Ethnography of a Divided City” de João Graça e Fábio Ribeiro, sobre a cidade de Maputo e suas divisões sociais. Nele o poeta moçambicano Calane da Silva desclama trechos de seu poema “Dos meninos da Malanga” , enquanto caminha por bairros pobres (Malanga e Mafalala) da cidade de Maputo.

Transcrição:

 O desespero, medo e a raiva
E também o cheiro que aperta nos becos do meu bairro
Conduzem-me ao pacifismo bolorento da minha revolta frustrada.
E bebo todos os dias deste cálice de mau cheiro
E com um sorriso nos lábios, vou bendizendo esses cristãos não racistas
Que me ofereceram o Deus da sua raça.
Mas um Cristo de ébano que me pertence
Sufoca entre o telhado de zinco e as paredes de caniço
E pergunta à imagem crucificada
Se valeu a pena um parto africano no ventre deste continente.
Oh meu Deus!
Não te peço a benção para os meus cabelos encarapinhados
E por te imaginar de cor negra no meu quarto,
Pequena grande catedral,
Onde me amortalho de passividade.

Chamo cidade a esses corpos estranhos
Que se cruzam dentro e fora de mim.
Chamo cidade ao alcatrão negro,
Ao colorido psicodélico dos saris e capulanas
Comungados nos bilhetes de três zonas para Xipamanine.
Chamo cidade a esta luta e labuta
Num vozear constante das línguas mães
No deambular constante dos pés descalços.
Chamo cidade àquela ruela mais além
Onde um grupo de mulheres iguais, de casas iguais,
Vendem amor africano ao preço módico de 20 escudos.
Continuo a chamar de cidade a esses estivadores
Vulto escuro rompendo a madrugada e que, de “marmita” na mão,
Desafia com a sua frugalidade todos os inventos vitaminosos para a resistência.
Ah! Quase que me esquecia dizer:
Essa cidade a que aludo, não tem luz
Mas, às vezes, há um clarão que a ilumina, que a domina,
Tingindo a noite acacimbada de um vermelho amarelado
Das nossas casas feito as tochas.
Raios os partam! Os candeeiros a petróleo!
Oh, cidade! Continuas a erguer pra o Índico céu marinho
As tuas civilizadas estruturas monolíticas.
Deslumbras com os teus atrativos de princesa a nossa simplicidade.
Contudo, aonde está a cidade?!

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:02:47
Formato
MP4

Contexto de produção

Calane da Silva autor e participantePessoa
Fábio Ribeiro produção documentárioPessoa
João Graça produção documentárioPessoa
Local de Produção
Contexto de produção
O trecho do documentário contribui para aprofundar a compreensão de como a língua circula por experiências sociais marcadas por contrastes, elemento central em Nós da Língua Portuguesa. A presença de Calane da Silva, articulando poesia e cidade, evidencia que o português se manifesta também em espaços periféricos onde convivem diferentes matrizes culturais. O vídeo reforça a proposta da instalação ao mostrar que a língua se constrói em meio a relações complexas, atravessando desigualdades, memórias e identidades que a transformam continuamente. A voz do poeta, inserida numa paisagem urbana fragmentada, ilumina a potência expressiva que emerge desses territórios, indicando que o português se renova no contato com outras línguas e modos de vida.

Contexto e relações

Tópico relacionado
Descritores

Entrada do objeto

Data de Entrada
16/04/2020
Método de Entrada
Licenciamento
Proveniência
Calane da Silva
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações