Trecho do documentário “Maputo: Ethnography of a Divided City” de João Graça e Fábio Ribeiro, sobre a cidade de Maputo e suas divisões sociais. Nele o poeta moçambicano Calane da Silva desclama trechos de seu poema “Dos meninos da Malanga” , enquanto caminha por bairros pobres (Malanga e Mafalala) da cidade de Maputo.
Transcrição:
O desespero, medo e a raiva
E também o cheiro que aperta nos becos do meu bairro
Conduzem-me ao pacifismo bolorento da minha revolta frustrada.
E bebo todos os dias deste cálice de mau cheiro
E com um sorriso nos lábios, vou bendizendo esses cristãos não racistas
Que me ofereceram o Deus da sua raça.
Mas um Cristo de ébano que me pertence
Sufoca entre o telhado de zinco e as paredes de caniço
E pergunta à imagem crucificada
Se valeu a pena um parto africano no ventre deste continente.
Oh meu Deus!
Não te peço a benção para os meus cabelos encarapinhados
E por te imaginar de cor negra no meu quarto,
Pequena grande catedral,
Onde me amortalho de passividade.
Chamo cidade a esses corpos estranhos
Que se cruzam dentro e fora de mim.
Chamo cidade ao alcatrão negro,
Ao colorido psicodélico dos saris e capulanas
Comungados nos bilhetes de três zonas para Xipamanine.
Chamo cidade a esta luta e labuta
Num vozear constante das línguas mães
No deambular constante dos pés descalços.
Chamo cidade àquela ruela mais além
Onde um grupo de mulheres iguais, de casas iguais,
Vendem amor africano ao preço módico de 20 escudos.
Continuo a chamar de cidade a esses estivadores
Vulto escuro rompendo a madrugada e que, de “marmita” na mão,
Desafia com a sua frugalidade todos os inventos vitaminosos para a resistência.
Ah! Quase que me esquecia dizer:
Essa cidade a que aludo, não tem luz
Mas, às vezes, há um clarão que a ilumina, que a domina,
Tingindo a noite acacimbada de um vermelho amarelado
Das nossas casas feito as tochas.
Raios os partam! Os candeeiros a petróleo!
Oh, cidade! Continuas a erguer pra o Índico céu marinho
As tuas civilizadas estruturas monolíticas.
Deslumbras com os teus atrativos de princesa a nossa simplicidade.
Contudo, aonde está a cidade?!
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