O vídeo apresenta cenas do cotidiano de Cabo Verde, ao som da leitura da crônica "De Mindelo com amor" da escritora Fátima Bettencourt.
Transcrição:
Trechos de “Um certo olhar” da escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt (2001).
Mindelo vai a pouco e pouco tornando-se um estado de espírito. Baixa uma paz sobre mim quando piso este chão e ando pelas ruas, parando metro a metro, para um abraço, uma conversa amável, às vezes um alô apenas. É a minha cidade que me abre os braços e o coração e me sinto no colo mesmo da minha mãe, acalentada e confortada, em perfeita comunhão com todos e comigo mesma.
Filha adoptiva, é como se tivesse dado coices nas suas entranhas, tenho uma dívida impagável para com esta cidade, esta ilha, estes montes pelados, esta gente indómita.7
Não me canso de meditar na estória, certamente inventada por algum crioulo folgazão e sparajóde, que explica o nascimento das Ilhas do nosso Arquipélago: estaria o Criador em pleno acto de feitura do mundo quando, vencido pelo cansaço e pelo sono, teria deixado cair a pena com que se entretinha esboçando o que viriam a ser os montes, árvores, rios, elefantes, baleias, porcos e galinhas.
Da caneta descuidada saltaram alguns pingos de tinta que surpreenderam o Pai Celeste, ao despertar, pois julgava ter retocado tudo havia já um bom tempo.
Sorrindo porém com ironia e um pouco de malícia murmurou para os divinos botões: “Deixa lá, não me lembro de ter colocado aí esses pontinhos mas se estão ali, vão ficar. Serão as ilhas de Cabo Verde’.
Ele como ser supremo é que não podia jamais dar o braço a torcer e admitir que os tais pingos espalhados no mar eram obra do acaso.
Do acaso nascemos, por acaso fomos achados e não me admiraria nada que fosse obra do acaso o vovô branco ter botado o olho na vovó negra para gerar o mestiço mais inquieto e satisfeito, vaidoso e ingênuo que habita este planeta.
Até quando vamos nós continuar por aí perdidos à procura duma identidade?
Até quando nos sentiremos divididos, um pé no nosso cantinho, um pé no resto do mundo?
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