O poema “Monangambé”, de António Jacinto, aparece musicado e interpretado por Ruy Mingas, acompanhando um trecho de vídeo que intercala cenas de plantações de cana-de-açúcar e de café, além de máquinas de processamento do açúcar. O material também apresenta imagens marcantes de escolas da década de 1970, mostrando crianças da educação infantil e adolescentes em atividades cotidianas.
naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações
naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
o café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado
negro da cor do contratado!
perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:
quem se levanta cedo? quem vai à Tonga
quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
quem capina e em paga recebe desdém
fuba podre, peixe podre,
panos ruins, cinquenta angolares
"porrada se refilares"?
quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?
quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande – ter dinheiro?
– quem?
e as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
– “monangambééé..."
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