Territórios Falados

História oral e memória do território

Cecília Farias

Por meio do registro, articulação e difusão dessas histórias, o Museu da Língua Portuguesa atua como um elo, costurando histórias que, à primeira vista, poderiam parecer isoladas. Ao reunir relatos de moradores, trabalhadores e ativistas desse território, o projeto revela a complexidade de redes que formam a região – e até mesmo além dela, considerando as origens diversas dessas pessoas.  

Territórios Falados / História oral - Brenda

Brenda Bracho

Travesti e figura icônica da Cracolândia, onde circula há mais de 15 anos, Brenda saiu das ruas para trabalhar no Hotel Laide por meio do projeto “Braços Abertos”. Sua trajetória é um exemplo dos efeitos positivos das políticas de redução de danos, mas também dos impactos negativos causados pela descontinuidade de ações humanitárias na região. Brenda deixou o Hotel Laide em 2017, após um incêndio ocorrido no local – história que foi registrada no documentário “Hotel Laide”. Parte de sua história está documentada neste filme, no qual aparece a assistente social Carmen Lopes. 

Nascida em Fortaleza (CE) e vivendo em São Paulo há cerca de 20 anos, Brenda oferece um relato valioso sobre as dinâmicas da região da Luz, tendo passado por edifícios históricos do centro expandido, como o São Vito, o famoso “Treme-Treme”. 

Brenda mantém uma boa relação com a família, conversando sempre com os pais, irmãos e a sobrinha. Interessada por história e em entender como as coisas acontecem, é uma figura marcante que afirma: “eu gosto de fazer diferença, eu não gosto de ser igual aos iguais, eu gosto de ser diferente dos iguais”. 

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Territórios Falados / Carmen Lopes

Carmen Lopes

Nascida em São Miguel Paulista, extremo leste da cidade de São Paulo, Carmen iniciou seu trabalho na região por meio do programa Braços Abertos – que teve entre as pessoas atendidas Brenda Bracho (acima). Antes disso, ela teve experiências profissionais diversas, como cuidadora e trabalhadora na indústria metalúrgica, onde já desempenhava um papel de liderança na busca por igualdade de direitos junto ao sindicato. 

Formada em Serviço Social, Carmen é conhecida por sua postura combativa, especialmente diante do machismo num território ainda muito marcado por coletivos liderados por homens. 

Fundadora e coordenadora do Coletivo Tem Sentimento, um projeto de geração de renda para mulheres cis e trans, Carmen Lopes atua com a população vulnerabilizada no território desde 2013. Liderança comunitária no contexto da Cracolândia, ela integra uma rede de coletivos que lutam por direitos na região da Luz. 

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Territórios Falados / Nice Rocha

Nice Rocha

Natural de Belo Horizonte, Nice mudou-se ainda jovem para São Paulo. Muito independente desde cedo, começou a trabalhar no comércio da região de Santo Amaro, zona sul da cidade. Iniciou sua trajetória como prostituta em boates, percorrendo diversos espaços de São Paulo e de Belo Horizonte. 

Chegou ao território da Luz para trabalhar em um cabaré, onde permaneceu por cerca de 12 anos, passando depois a atuar no Parque da Luz. Nesse período, já interagia com o Museu da Língua Portuguesa, seja para buscar água ou pegar livros para ler. Atualmente, mantém relação com a instituição principalmente na posição de agitadora cultural. 

Em outubro de 2019, passou a administrar um bar na praça Júlio Prestes para um cafetão. Com o início da pandemia de Covid-19, ele resolveu fechá-lo. Nice juntou suas economias e comprou outro ponto, onde trabalha hoje. No local, conheceu diversos coletivos de redução de danos que atuam na Cracolândia, como o Pagode na Lata, que passou a se apresentar regularmente no bar.

Com cinco anos de existência, o Bar da Nice consolidou-se como um ponto de articulação de artistas, redutores de danos, pesquisadores, animadores culturais e outros agentes de promoção de cultura e direitos humanos no interior da região denominada Cracolândia. 

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Territórios Falados / Ivaneti Araujo

Ivaneti Araujo

A líder comunitária Neti Araújo nasceu em Guariba, uma cidade do interior de São Paulo com muitas plantações. Seus pais, que nasceram na Bahia, mudaram-se para lá para trabalhar nas lavouras. Da infância, sua memória mais antiga é a da chuva caindo no telhado. A convivência com a mãe não foi fácil, mas ela mostra como essa relação foi mudando, assim como transformou seu próprio vínculo familiar com os filhos graças às reflexões feitas em sua vivência nos movimentos sociais. 

Mudou-se para a capital aos 22 anos, onde morou em cortiços e pensões no Cambuci e na Vila Guarani. Chegou a morar em uma casa, mas, quando não pôde mais pagar o aluguel, acabou em situação de rua. Foram de três a quatro meses morando sob o Viaduto do Glicério com as filhas. Foi ali que conheceu o movimento de moradia. 

Neti relata a violência doméstica que sofreu de um companheiro e como percebeu estar em um relacionamento abusivo. Foi depois disso que ingressou no movimento de luta por moradia, onde entendeu que as mulheres não devem passar por esse tipo de situação – sendo agredidas e continuando a cuidar da comida e do lar do homem. 

Desde sua primeira ocupação, Neti “acordou para a coordenação”, como diz. Além dessa atuação comunitária – transitando entre ocupações em diversos imóveis na capital e no interior –, muitas vezes deixou de se atentar para a vida pessoal em prol do coletivo. Hoje, entende que precisa cuidar de si e estar bem para poder cuidar dos outros. 

Atualmente, Neti é uma das lideranças da Ocupação Mauá, símbolo da luta por moradia no território da Luz. Seu sonho é concluir os processos de programa habitacional das ocupações atuais do movimento que coordena, o Movimento de Moradia na Luta por Justiça (MMLJ).  

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Territórios Falados / Ruben Dario

Rubén Dario

Rubén, proprietário do Café Colombiano e referência para a comunidade imigrante na região, tem uma trajetória de vida marcada pelo ativismo, empreendedorismo e educação comunitária. Nascido em Cali, Colômbia, sua formação ideológica foi profundamente influenciada pela coordenação de um grupo de jovens ligado à Teologia da Libertação, onde promovia debates, atividades culturais e produzia um jornal comunitário. Essa atuação precoce como líder o levou a ser perseguido politicamente. Com formação em Educação Popular e Psicologia Social, mudou-se para o Brasil com uma bolsa para a PUC-SP, onde pretendia estudar com Paulo Freire, e se estabeleceu em São Paulo para trabalhar e formar família.

Seu vínculo com o bairro do Bom Retiro começou em 2012, inicialmente de forma orgânica ao levar o filho à escola e, em seguida, ao abrir seu primeiro e minúsculo café na Rua Correia de Melo, que atraiu trabalhadores locais. O grande salto ocorreu ao aceitar o desafio de levar o Café Colombiano para o Edifício Oswald de Andrade. Este novo local permitiu que o café ganhasse visibilidade e criasse uma forte simbiose com a programação cultural, atraindo um público diversificado e conectando Rubén com moradores, agentes culturais e as múltiplas etnias do território.

A partir dessa imersão, Rubén aprofundou seu ativismo, engajando-se em discussões sobre a gestão democrática do bairro e solidificando seu papel como um agente que integra o empreendedorismo à responsabilidade comunitária e à valorização da diversidade local. Atualmente, o Café Colombiano está localizado no bairro vizinho, Campos Elíseos, mantendo sua intensa programação cultural, e Rubén é amplamente reconhecido como uma liderança e referência na comunidade andina do território Luz-Bom Retiro.

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