Onde a língua insiste em produzir sentido: o funk entre memória, linguagem e curadoria
Artigo
Título
Onde a língua insiste em produzir sentido: o funk entre memória, linguagem e curadoria
Descrição
Este texto apresenta a pesquisa, as escolhas curatoriais e as reflexões que orientaram a presença do funk na exposição FUNK: um grito de ousadia e liberdade, mostrando como linguagem, memória e território atravessam a construção do espaço expositivo.
Autoria
Layne Gabriele
Renata Prado
Texto
Este texto apresenta a pesquisa, as escolhas curatoriais e as reflexões que orientaram a presença do funk na exposição FUNK: um grito de ousadia e liberdade, mostrando como linguagem, memória e território atravessam a construção do espaço expositivo.
Uma rápida trocação de ideia sobre linguagem e funk Ao pensar a concepção da exposição FUNK: um grito de ousadia e liberdade, a primeira questão que nos atravessa não diz respeito apenas ao lugar do funk como manifestação cultural, mas ao que sua presença no Museu da Língua Portuguesa nos obriga a reconsiderar sobre a própria ideia de língua. Trata-se, portanto, de tomar o funk não apenas como objeto musical ou sociológico, mas como um acontecimento linguístico, isto é, como um campo em que se disputam formas de nomear, significar e produzir experiência. Essa perspectiva parte da compreensão de que a linguagem não é neutra. Para isso, trazemos Gabriel Nascimento que nos lembra que o colonialismo operou também por meio de processos linguísticos, simbólicos e discursivos, organizando regimes de legitimidade sobre quem pode falar, quais formas de linguagem são reconhecidas como válidas e quais são historicamente relegadas à margem (Nascimento, 2019). Nessa chave, a língua deve ser entendida como espaço de poder e, ao mesmo tempo, de disputa, tá ligado? A discussão fica ainda mais central quando pensamos o conceito de epistemicídio em sua dimensão linguística. Segundo Nascimento, ele se realiza quando sujeitos negros e indígenas são desapropriados do direito de produzir saber e, portanto, de intervir na língua como sujeitos de enunciação (Nascimento, 2019, em diálogo com a filósofa Sueli Carneiro, criadora do conceito de epistemicídio). Isso significa que a norma linguística não é apenas uma convenção formal, mas parte de uma história mais ampla de exclusão de determinadas vozes, experiências e modos de existência. É justamente nesse ponto que o funk oferece uma chave importante de leitura. Mais do que “usar gírias” ou apenas tensionar a norma, ele reorganiza códigos linguísticos para dar forma a experiências periféricas, raciais, urbanas e corporais que a norma padrão historicamente não nomeou. No funk paulista, isso pode ser observado, por exemplo, na circulação de termos como “quebrada”, “fluxo”, “cria”, “relíquia” e “mandela”, palavras que não operam apenas como gírias, mas como marcadores de território, pertencimento e memória coletiva. Pensar o funk a partir da linguagem, portanto, é pensar como a língua se transforma quando outros sujeitos passam a ocupar o centro de sua produção e de sua memória. Diante dessa perspectiva, a pesquisa realizada para a presença do funk paulista na exposição tem como objetivo aprofundar a reflexão sobre a língua como arquivo vivo. Não se trata, aqui, de arquivo entendido como acervo fixo ou memória institucionalizada, mas como uma linguagem que preserva, atualiza e reinscreve experiências coletivas no presente. A escolha curatorial de incorporar ao percurso da mostra acervos específicos sobre o funk em São Paulo é decisiva nesse sentido, pois desloca a narrativa do eixo de origem carioca para incluir as formas que a cultura assume na Baixada Santista e na capital paulista. Com isso, a exposição evidencia que o funk não apenas circula entre territórios, mas se reinscreve linguisticamente em cada um deles. No caso paulista, esse movimento se torna particularmente visível nas transformações do léxico1 e da enunciação que acompanham manifestações como o funk ostentação, o mandelão, os fluxos de rua e as variações locais do baile. Caminhando pela exposição, você pode observar como a língua do funk registra essas passagens por meio de formas próprias de nomear consumo, desejo, ascensão, território, corpo e reconhecimento social. O que se arquiva, portanto, não é apenas um vocabulário, mas uma memória situada da cidade e de seus modos de existência. O Rap e o Funk na selva de pedra, Tiago. Foto: Wellington Almeida | Acervo Museu da Língua Portuguesa.
Essa leitura ganha densidade à luz da formulação de Nascimento (2019), quando ele afirma que “a linguagem tem sido um grande fetiche do mundo ocidental há séculos”. Ao historicizar a língua como dispositivo de poder, o autor nos ajuda a perceber que ela também é atravessada por disputas de centralidade e por regimes de legitimação. Nesse sentido, o funk paulista adentra o museu como registro de formas de linguagem que, por muito tempo, permaneceram fora dos espaços desses espaços que também são importantes para a memória e futuro. Ao mesmo tempo, esse arquivo é vivo porque está em constante transformação. E de novo, como escreve Nascimento, “a língua modifica o sujeito, mas o sujeito também modifica a língua” (Nascimento, 2019, p. 25). Essa reciprocidade se materializa de maneira concreta no funk paulista: novas gírias, abreviações, sintaxes fragmentadas e modos de vocalização surgem da circulação cotidiana entre rua, baile, internet e música, reconfigurando continuamente o português brasileiro. Justamente por isso, a formulação de bell hooks ganha especial relevância para esta reflexão, sobretudo quando afirma que, por meio da língua, “tocamos uns nos outros” (hooks, 2017, p. 233). No funk paulista, a língua opera como contato – entre corpos no baile, entre territórios, entre gerações e entre formas de pertencimento. A palavra circula como memória, reconhecimento e afeto. Essa dimensão é também política. A reflexão de Malcolm X sobre sujeitos que, mesmo de forma empírica, sabem “o que devem ter por direito” (Malcolm X, 2021, p. 85), permite ler a linguagem do funk como arquivo de reivindicação e imaginação social. No caso paulista, isso aparece com força nas narrativas de mobilidade, visibilidade e direito à cidade, especialmente no funk ostentação, em que a linguagem registra não apenas a experiência vivida, mas também aquilo que se deseja tornar possível. Rolezinho no Shopping Itaquera, Breno. Foto: Wellington Almeida | Acervo Museu da Língua Portuguesa. O funk foi também compreendido como um laboratório semântico, na medida em que reorganiza sentidos a partir da experiência social e urbana. No contexto paulista, termos, expressões e formas de enunciação produzidos na rua, no baile e nas redes sociais não apenas circulam, mas deslocam significados e instituem novos campos de reconhecimento. Essa dinâmica dialoga com Machado, para quem “não se trata [...] de transmissão do saber, mas de construção do conhecimento” (Machado, 2019, p. 136). Aqui, os sentidos se constroem no uso e na circulação entre sujeitos e territórios, fazendo da linguagem uma prática coletiva de elaboração da experiência. Nessa mesma direção, Souza destaca que essas práticas “contribuem para o entendimento dos múltiplos sentidos atribuídos à linguagem, aos diferentes modos de ler, escrever e falar” (Souza, 2011, p. 35). É nesse ponto que os letramentos de reexistência se tornam centrais, pois, como afirma a autora, eles “contribuem para a desestabilização do que pode ser considerado como discursos já cristalizados” (Souza, 2011, p. 36). No funk, essa disputa se materializa na criação e circulação de léxicos, códigos e modos de dizer que produzem pertencimento e reinscrevem identidades sociais. Como sintetiza Souza, “os novos significados são parte de um processo de mudança” (Souza, 2011, p. 50). É nesse movimento que o funk se afirma como um laboratório semântico da língua portuguesa contemporânea. A compreensão do funk como arquivo vivo da língua e como laboratório semântico encontra, na exposição, sua materialização no espaço museológico. É nesse ponto que a mostra se constitui como uma política da escuta: um gesto curatorial que não apenas expõe objetos, mas torna legíveis linguagens, memórias e formas de produção de sentido historicamente relegadas à margem. É a partir dessa perspectiva que se torna possível compreender que vivenciar um fluxo de rua é também entrar em contato com as variadas linguagens das artes visuais em suas múltiplas formas: na moda, na fotografia, no vídeo do celular, entre tantos outros códigos sociais presentes no universo de uma cidade como São Paulo. O baile funk, nesse sentido, configura-se como uma atmosfera de possibilidades e uma fonte de inspiração que potencializa a grandeza desse fenômeno cultural presente nas periferias. A exposição, portanto, assume um papel fundamental ao afirmar a relação dessa cultura com a ancestralidade africana presente na diáspora e ao evidenciar como as raízes da comunidade negra foram difundidas em terras brasileiras. Tambor, Beré Magalhães. Foto: Wellington Almeida | Acervo Museu da Língua Portuguesa.
Agora, a sintetização de tudo isso O conceito curatorial da mostra se estrutura em três pilares: processo histórico da cultura negra, concepção pedagógica e variação de linguagens artísticas. Construir uma curadoria alinhada a esses elementos é assegurar que a história do funk seja narrada por meio de esculturas, fotografias, músicas, telas, projetos audiovisuais, manequins de moda e palavras. Todos esses elementos funcionam como códigos sociais já presentes no universo do funk e, ao serem deslocados para o museu, ampliam a leitura pedagógica da experiência. Pensar um projeto de artes visuais em que a expografia2 ilustra a história do funk, por meio de uma linha do tempo que conecta o movimento black nos Estados Unidos ao funk contemporâneo no Brasil, é colocar em prática aquilo que nomeamos como Pedagogia do Funk.3 Nesse sentido, a exposição não apenas narra uma história, mas ensina a lê-la, evidenciando como a linguagem do funk se constitui também por imagens, corpos, vestimentas, sons e objetos. Outro aspecto central desse processo é o papel do conhecimento empírico na construção do acervo. Em determinado momento da curadoria, a busca por acervos pessoais e por materiais que só as particularidades das ruas poderiam oferecer foi determinante para a realização da mostra. Assim como no candomblé, as relações humanas na cultura funk funcionam a partir de um sistema de reconhecimento geracional, em que os relíquias4 reconhecem e validam a nova geração. Esse reconhecimento, atravessado pela oralidade e pela trajetória histórica do outro, é fator determinante para a construção da coletividade do movimento. Uma exposição dessa magnitude exige também que a história contada seja validada por quem a viveu e a transmitiu. Nesse ponto, a reflexão de Allan da Rosa se torna fundamental: A cultura negra é uma cultura de iniciação, e o saber iniciático, ao transmitir-se pelos mais velhos, difere da abstração de um conceito porque é plenamente uma força viva, associado ao Muntu, ao Axé, ao patrimônio comunitário. (Rosa, 2013, p. 65) A língua e os sentidos do funk não são apenas preservados, mas transmitidos e atualizados entre gerações. Ao trazer essa história para dentro do museu, a mostra também aponta para o amanhã. Levar a história do funk para espaços institucionais não inaugura seu reconhecimento, mas tensiona e amplia processos de legitimidade que o próprio movimento vem historicamente construindo em meio à perseguição, à criminalização e à disputa por memória. Assim como o samba e o hip hop, o funk atravessa contínuos processos de descriminalização e afirmação cultural. Nesse sentido, a reflexão de Maíra Carvalho de Moraes torna-se particularmente importante ao destacar que uma das armas da desigualdade é a invisibilidade do oprimido (Moraes, 2021). Por isso, tornar visíveis as linguagens do funk – sua oralidade, seus códigos visuais, suas memórias e formas de pertencimento – é também disputar regimes de legitimidade cultural e linguística.
Outras coisas… A mostra materializa aquilo que hooks sintetiza ao afirmar que “a mudança no modo de pensar sobre a língua e sobre como a usamos necessariamente altera o modo como sabemos o que sabemos” (hooks, 2017, p. 231). Ao deslocar o funk para o centro de um espaço museológico muitas vezes associado à legitimação da língua, a exposição também pretende, mesmo que minimamente, alterar as formas de conhecimento sobre o português brasileiro, ampliando seus arquivos e reconhecendo outras formas de produção de saber. Mais do que representar o funk, a exposição evidencia que toda palavra é ação e disputa. Como Souza afirma, “todo uso da palavra envolve ação humana em relação a alguém” (Souza, 2011, p. 55). O léxico do funk paulista, seus códigos, suas gírias, seus modos de dizer e de vestir não são acessórios culturais, mas formas concretas de demarcar posições sociais, identidades e pertencimento. Essa disputa por sentidos é também uma disputa por memória. Como nos lembra Lélia Gonzalez, retomada por Ratts e Rios, a memória constitui “esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita” (Gonzalez apud Ratts; Rios, 2010, p. 226-227). Nesse ponto, a exposição assume um papel fundamental: reinscrever no espaço institucional narrativas, vozes e histórias que, por muito tempo, foram excluídas dos regimes oficiais de memória da língua e da cultura. Crianças na frente do Museu, Jean Prado. Foto: Wellington Almeida | Acervo Museu da Língua Portuguesa. Essa exclusão não pode ser dissociada da violência histórica da colonização. Como formula Césaire, “colonização = coisificação” (Césaire, 2020, p. 25), isto é, um processo de apagamento de sujeitos, culturas, saberes e linguagens. Por isso, o que se buscou construir com esta exposição não foi apenas uma narrativa sobre o funk, mas um gesto de reinscrição e reconhecimento de sua centralidade para a história social, linguística e estética do Brasil contemporâneo. Ao trazer para o museu as linguagens das ruas, da oralidade, da ancestralidade negra e da criatividade favelada, a mostra contribui para deslocar regimes de invisibilidade e reafirma que a língua também se faz no baile, no fluxo, no corpo e na voz. Em última instância, ocupar o Museu da Língua Portuguesa com o funk é afirmar que a língua vive onde a vida insiste em produzir sentido.
AUTORIA Renata Prado é Pedagoga formada pela Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP), foi pesquisadora no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID-CAPES) no campo da pedagogia e relações etnico raciais, além de curadora da exposição “Funk: um grito de ousadia e liberdade” no Museu da Língua Portuguesa. Sua pesquisa se dedica ao propósito de relacionar a cultura funk com o campo escolar, rotulando este projeto de “Pedagogia do Funk”. Layne Gabriele é mestranda em Linguística Aplicada pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/Unicamp). Sua pesquisa se dedica às relações entre memória coletiva e social, tecnologia, oralidade e linguagem, com foco em como as produções atravessadas pela linguagem negra, pelas práticas periféricas e pela memória coletiva constituem formas legítimas de produção de conhecimento e tecnologia nos territórios negros e favelados.
Notas 1. Léxico refere-se ao conjunto de palavras e expressões de uma língua e, nesta frase, indica as transformações no vocabulário produzidas pelas diferentes manifestações do funk paulista. 2. Expografia é a forma como uma exposição é organizada e apresentada no espaço, incluindo a disposição dos objetos, textos, imagens, iluminação e percurso do público. 3. Trabalho de conclusão de curso da curadora Renata Prado, intitulado “Pedagogia do Funk - Escolarização, Infância e Escrevivências”: https://repositorio.unifesp.br/items/6a5bd4e6-c527-4825-a5d6-fad09c07f149 4. Gíria que define quem são os “griots” do movimento funk. Relíquia é o sujeito que pertence à cultura funk há muito tempo. Referências Bibliográficas CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. São Paulo: Veneta, 2020. HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017. MACHADO, Vanda. Irê Ayó: uma epistemologia afro-brasileira. Salvador: EDUFBA, 2019. MALCOLM X. Malcolm X fala: os discursos do último ano de vida de Malcolm X. São Paulo: Ubu Editora, 2021. MORAES, Maíra Carvalho de. Periferias Insurgentes: ações culturais de jovens nas periferias de São Paulo. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados USP, 2021. NASCIMENTO, Gabriel. Racismo linguístico: os subterrâneos da linguagem e do racismo. Belo Horizonte: Letramento, 2019. RATTS, Alex; RIOS, Flavia M. Lélia Gonzalez: retratos do Brasil negro. São Paulo: Summus/Selo Negro, 2010. ROSA, Allan da. Pedagoginga, Autonomia e Mocambagem. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2013. SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança: hip-hop. São Paulo: Parábola, 2011.
thumbnailUrl
https://m-lingua-portuguesa.s3.sa-east-1.amazonaws.com/48fb2b36c91974a41c9bd6a04cbb1a77.jpeg
Data de Publicação
2026-04-15
Destaque
0