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    A Hora da Estrela Clarice Lispector

    24apr200714oct2007
    "O universo de Clarice Lispector é uma caixa de joias". Foi com essa metáfora que a curadora Júlia Peregrino definiu a exposição inaugurada em abril de 2007 no Museu da Língua Portuguesa. A mostra homenageava os 30 anos da morte da escritora e também celebrava o primeiro aniversário do Museu.

    Nascida em 1920, na Ucrânia, e naturalizada brasileira, Clarice chegou ao Brasil ainda bebê, antes de completar dois anos. Viveu em Alagoas, Pernambuco e Rio de Janeiro, além de passar temporadas no exterior, acompanhando o marido diplomata. Esses deslocamentos atravessaram sua trajetória e ecoaram em sua literatura, marcada pela introspecção, pela linguagem poética e pela investigação do humano.

    Com curadoria de textos feita por Ferreira Gullar e cenografia assinada por Daniela Thomas, a exposição propôs uma imersão sensível na vida, na alma e na obra da escritora. Interativa e cuidadosamente pensada, a mostra reuniu trechos de livros, documentos pessoais e manuscritos. Um dos destaques era uma sala com duas mil gavetas — 65 delas podiam ser abertas, revelando cadernos de anotações, cartas e fragmentos íntimos da autora.

    A exposição permaneceu em cartaz por cerca de seis meses e foi acompanhada por uma programação paralela que incluiu palestras, sessões de cinema com curtas e longas-metragens sobre sua obra e debates literários.

    Clarice Lispector faleceu em 1977, mas sua escrita, de potência singular, segue viva e reverberante na literatura brasileira. Os documentos exibidos pertencem ao Acervo Clarice Lispector, sob a guarda do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa.
    Esta sala evocava a escrita de Clarice, que parece buscar tocar o silêncio com palavras. Sua obra é atravessada por uma tentativa constante de nomear o que escapa — sensações, percepções e estados da alma que desafiam a lógica racional e transbordam os limites da linguagem cotidiana. Em seus textos, o verbo não é afirmação, mas tentativa; e o sentido pulsa no intervalo entre o que é dito e o que apenas se intui.

    Sua escrita rompe a linearidade, flerta com o indizível e se aproxima do silêncio — esse território onde o mistério do ser sussurra, sem jamais se deixar capturar por completo.
    Nesta sala, o cotidiano ganhava contornos de revelação, como na escrita de Clarice Lispector. A exposição propôs um mergulho nas pequenas cenas do dia a dia — gestos, silêncios, objetos domésticos — que, sob o olhar da autora, se transformam em epifanias silenciosas.

    Clarice não escrevia sobre grandes acontecimentos. Sua literatura fazia do comum um terreno de espanto. Aqui, os visitantes eram convidados a perceber o extraordinário escondido.

    Trechos selecionados de sua obra, recriavam esse universo em que o tempo cotidiano escorre mais lento e mais fundo. Cada canto da sala evocava a sensação de que o mundo pode se transformar sem sair do lugar, e que o mistério habita justamente o que já conhecemos — mas ainda não olhamos de verdade.
    Nesta sala, intitulada "Achados e Perdidos", a exposição mergulhava no território sensível onde Clarice Lispector buscava compreender o mundo – não pela lógica, mas pelo espanto, pelo afeto, pelo silêncio que paira entre as palavras.

    Fragmentos de sua obra — extraídos de livros como "A Maçã no Escuro", "A Descoberta do Mundo", "Água-viva", "Um Sopro de Vida" e "A Hora da Estrela" — foram reunidos para revelar uma escrita que se dá no intervalo entre o humano e o inumano, entre o que se nomeia e o que escapa. A beleza de uma árvore, a liberdade sem culpa de um cão, a vastidão incompreensível do mar: tudo aquilo que, para muitos, parece banal ou indecifrável, para Clarice era matéria viva de poesia.

    A ambientação delicada, repleta de sons mínimos e luzes suaves, criava uma atmosfera onde o visitante podia se perder em pensamentos, à semelhança da escritora que “só trabalhava com achados e perdidos”. Era um convite a acessar o mundo não pelo que se entende, mas pelo que se sente. Porque, como Clarice escreveu, “um dos indiretos modos de entender é achar bonito”.
    Nesta sala, os visitantes foram convidados a mergulhar nos mistérios mais profundos da existência, através da escrita de Clarice Lispector. Os trechos selecionados revelaram uma autora em constante busca por sentido, que oscilava entre a lucidez cortante e o encantamento diante do desconhecido.

    A presença do espelho, do silêncio e do tempo — temas recorrentes em sua obra — permitiu que Clarice refletisse sobre a identidade, a mortalidade e o divino. Para ela, o presente foi a face visível de Deus, e a felicidade, mesmo quando eterna, carregava a certeza de que passaria.

    A exposição conduziu o público por pensamentos que se negavam a ser lógicos, mas que ecoavam verdades íntimas. Clarice se deixou ser enigma e, ao mesmo tempo, sua própria resposta — ou melhor, sua própria repetição do enigma.

    Cada citação revelou o modo único como a autora enfrentava o horror do mundo, o acaso da vida e a beleza da existência. E foi nesse embate entre o que se sente, se pensa e se age que a escritora se afirmou como um mistério vivo, inquietante e verdadeiro.
    Nesta sala, os visitantes foram convidados a adentrar onde Clarice Lispector se encontrava consigo mesma: o espaço do segredo. Aqui, o mistério não era mais uma pergunta existencial, mas uma presença íntima, respirada no ritmo calmo das palavras.

    A exposição trouxe à tona a relação afetuosa e quase mística de Clarice com sua máquina de escrever — uma Olympia portátil, cúmplice silenciosa de sua solidão criativa. Para ela, a máquina não era uma ferramenta fria, mas uma aliada sutil, que a ajudava a alcançar uma objetividade leve, sem desumanizar o gesto de escrever. Era uma “coisa satisfeita”, sem vaidades, sem a necessidade de “ser humana”.

    O texto também revelou a consciência da escritora sobre os limites da linguagem. Clarice falava para não dizer, como se apenas o silêncio pudesse guardar o que era verdadeiramente essencial. Seu segredo — o núcleo onde respirava — não era acessível nem a ela mesma, e talvez por isso pedisse ao outro: “Conta-me o teu, ensina-me sobre o secreto de cada um de nós.”

    Ao sair desta sala, o visitante levava consigo não respostas, mas o convite ao silêncio interior. Porque, como Clarice, talvez cada um de nós também resida — mesmo sem saber — no espaço secreto onde pulsa o que somos.
    Esta sala confrontou o público com um dos momentos mais perturbadores e icônicos da obra de Clarice Lispector: o encontro da personagem G.H. com a barata. Mais do que uma cena de nojo ou repulsa, a exposição explorou esse episódio como uma experiência de dissolução do eu e de transcendência radical.

    A barata, símbolo do inominável, revelou-se um portal para a desintegração da identidade. O ato de esmagá-la e, depois, de tocá-la, comê-la, foi apresentado não como gesto grotesco, mas como rito de passagem — uma tentativa desesperada de acessar a essência da matéria, da vida, do vazio.

    A sala foi concebida como um espaço de suspensão, onde o visitante era convidado a desacelerar e encarar seus próprios limites: do corpo, do pensamento, da linguagem. As palavras de Clarice guiavam essa travessia interior, expondo o modo como o horror, uma vez vivido, se dilui e se transforma em ideia — em memória vaga de algo que já não é mais visível, mas ainda pulsa.

    Ali, frente à barata, G.H. descia aos porões de si mesma. E quem entrava nesta sala era chamado, mesmo que sutilmente, a fazer o mesmo: olhar para aquilo que mais teme, e ver se, por acaso, encontra alguma forma de transcendência.

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    Créditos

    Organizer
    Museu da Língua Portuguesa RealizaçãoOrganization
    Instituto Brasil Leitor RealizaçãoOrganization
    Secretaria de Estado da Cultura RealizaçãoOrganization
    Governo do Estado de São Paulo RealizaçãoOrganization
    FazerArte RealizaçãoOrganization
    Other related organization
    Julia Peregrino CoordenaçãoPerson
    Anabela Paiva Assitente de CuradoriaPerson
    FazerArte ProduçãoOrganization
    Ludmila Kraichete Assistente de ProduçãoPerson
    Ana Paula Santos Assistente de ProduçãoPerson
    Roberta Malta Assistente de ProduçãoPerson
    Clarisse Fulkeman ConsultoriaPerson
    Laura Zúñiga PesquisaPerson
    Claudia Ahimsa PesquisaPerson
    Daniela Thomas Design de exposiçãoPerson
    Felipe Tassara Design de exposiçãoPerson
    Patrícia Rabbat Assistente de CenografiaPerson
    Iara Terzi Ito Assistente de CenografiaPerson
    Tania Mara Menecucci Assistente de CenografiaPerson
    Ana Basaglia Design gráfico da exposiçãoPerson
    Fernanda Carvalho Projeto de iluminaçãoPerson
    Cristina Souto Assistente de iluminaçãoPerson
    Stage Luz e Magia Montagem da iluminaçãoOrganization
    Lázaro Batista Ferreira CenotécnicoPerson
    Anabela Paiva Edição do CatálogoPerson
    Glaucio Campelo Edição do CatálogoPerson
    Julia Peregrino Edição do CatálogoPerson
    Unidesign Design gráfico do catálogoOrganization
    Glaucio Campelo Design gráfico do catálogoPerson
    Anabela Paiva Texto do catálogoPerson
    Ferreira Gullar Texto do catálogoPerson
    Nélida Piñon Texto do catálogoPerson
    Benedito Nunes Texto do catálogoPerson
    Laura Zúñiga Revisão do catálogoPerson
    Antonio Carlos de Moraes Sartini Superintendente Executivo - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Ottaviano de Fiore Conselheiro Acadêmico - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Marilda Suyama Tegg Conselheira Técnica - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Ricardo Fernandes Lopes Assessoria e Projetos de Difusão - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Anamélia Pereira Lima Secretaria - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Edileusa Silva Nascimento Secretaria - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Camila de Almeida Arruda Relações Institucionais e Produção - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Denise Lorch Relações Institucionais e Produção - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Luciano Lourenço Menezes Relações Institucionais e Produção - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Marina Sartori de Toledo Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Amanda Iannone Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Bruna C. Ribeiro Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Bruna Tornelli Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Bruna Pucci Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Catia Maria Soares Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Cintia Helena Tunes Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Daniela Clemente Perestrelo Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Debora Ap. Alves da Silva Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Elizabeth Maria Ziliotto Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Erica Marta Costa dos Santos Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Felipe Macedo Caldas Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Jayson Miranda Sant’Ana Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Madalena Andreia da Silva Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Maíra Moraes Caiuby Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Maisa Cavalcante de Andrade Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Marcela Oliveira de A. Martins Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Marcio André dos Santos Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Marco Antonio Xavier Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Mariana Reis de Souza Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Mariana Vitale da Silva Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Maurício Vieira dos Santos Pinto Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Patricia Dalva Costa dos Santos Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Renato Callado Fantauzi Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Rita de Cassia Almeida Braga Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Silvana Muniz de Souza Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Wilmihara dos Santos Ação Educativa - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Daniela Isidoro de Paula Apoio Administrativo de Projetos e Ações Culturais - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Elaine Aparecida Peres Apoio Administrativo de Projetos e Ações Culturais - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Fernanda Ribeiro Moretta Apoio Administrativo de Projetos e Ações Culturais - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Jane Simone de Melo Apoio Administrativo de Projetos e Ações Culturais - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Laura Meyer Apoio Administrativo de Projetos e Ações Culturais - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Ricardo Marcel Leite Apoio Administrativo de Projetos e Ações Culturais - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Felipe Oliveira Cambará Operação de Equipamentos Expositivos - Museu da Língu PortuguesaPerson
    Guerileno Alves dos Anjos Operação de Equipamentos Expositivos - Museu da Língu PortuguesaPerson
    Marcello Fusco Operação de Equipamentos Expositivos - Museu da Língu PortuguesaPerson
    Bruna Tornelli Orientação de Público - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Sueli Ramos de Assis Putarov Orientação de Público - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Zenilda Irene da Silva Orientação de Público - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Ademar de Barros Manutenção de Equipamentos Expositivos - Museu da Língua PortuguesaPerson
    Valdinê Nunes de Souza Manutenção de Equipamentos Expositivos - Museu da Língua PortuguesaPerson
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    Assessoria de Imprensa