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    Grande Sertão: Veredas

    20mar200628feb2007
    Curator
    Number of Visitors
    • 565.173
    Exhibition Area
    • 1º Andar
    A primeira mostra temporária do Museu da Língua Portuguesa celebrou os 50 anos do romance “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, e destacou a multiplicidade de leituras possíveis da obra-prima do escritor mineiro. Concebida pela diretora Bia Lessa, a exposição contou com a participação especial da cantora Maria Bethânia, que leu as últimas 14 páginas do livro, narrando com emoção a morte de Diadorim.

    A mostra convidou o visitante a percorrer as veredas de Rosa por meio de sete caminhos, cada um deles relacionado a um personagem — como Riobaldo, Diadorim e o Diabo — ou a um tema central da narrativa. Com isso, o público pôde vivenciar o espaço expositivo de pelo menos sete maneiras distintas, refletindo os múltiplos percursos da leitura rosiana.

    “Grande sertão: veredas” foi uma exposição feita unicamente de palavras — sem fotografias nem imagens. O espaço temporário do museu transformou-se em um cenário em construção: o piso de cimento aparente e as janelas sem vedação revelavam o Parque da Luz e o movimento urbano ao redor da Estação da Luz, estabelecendo um diálogo entre literatura, paisagem e cidade.

    Bia Lessa evitou o formato tradicional de galeria de arte e propôs uma mostra em construção, assim como o texto de Rosa ou qualquer processo literário. Para conceber a exposição, contou com a consultoria da especialista Marily Bezerra e o apoio de pesquisadores do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).

    A experiência começava por um túnel revestido por críticas e reportagens publicadas sobre “Grande sertão: veredas”, que apresentavam a recepção crítica da obra na imprensa brasileira. Esse túnel foi a única referência direta ao autor, já que a proposta da diretora não era montar um panorama didático sobre Guimarães Rosa, mas sim oferecer uma vivência sensorial e imersiva do impacto que a leitura provoca.

    Após o túnel, o visitante mergulhava em um grande canteiro de obras. Os módulos expositivos eram compostos por tijolos, latões de óleo, tábuas e restos de telhas, que serviam de suporte para trechos do livro, criando um ambiente poético, rústico e simbólico, em perfeita sintonia com o universo rosiano.
    O ambiente estava tomado por fumaça, que se espalhava discretamente pelo sistema de ar-condicionado. A baixa visibilidade aludia à frase de Riobaldo — “Diadorim era minha neblina” — e revelava uma estratégia sensível de Bia Lessa para concentrar a atenção do espectador nas palavras que seriam lidas.

    Logo após o túnel de entrada, o visitante chegava a uma sala preenchida por varais, nos quais “bandeiras” retangulares de tecido estavam suspensas. De cada uma delas, pendia um fio numerado. À medida que se aproximava, o público percebia que as bandeiras reproduziam páginas da terceira edição datilografada do romance, ainda com o título provisório de “Veredas mortas”. Minuciosamente revisada a lápis de cor pelo próprio autor, essa versão revelava o processo criativo de Guimarães Rosa e foi gentilmente cedida pelo bibliófilo José Mindlin, o maior colecionador de livros raros do país.

    As bandeiras, presas ao teto por roldanas, desciam à altura dos olhos sempre que o visitante puxava o fio correspondente ao número de cada página. Dois pequenos saquinhos de terra, coletada na região de Minas Gerais onde se ambienta o romance, serviam de contrapeso e completavam a engenhosa instalação.

    Complementando a imersão, sons característicos do sertão mineiro — como o trote de cavalos e o murmúrio dos rios que atravessam o percurso de Riobaldo — integravam a trilha sonora da exposição, criada por Dany Roland e composta a partir de arquivos sonoros do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB).
    Após a área das “bandeiras”, o visitante era convidado a adentrar as veredas. Bia Lessa criou sete percursos distintos, número preferido de Guimarães Rosa, baseando-se em elementos centrais do romance. Cada trilha, sinalizada por desenhos coloridos no chão, levava a uma experiência sensorial diferente, sempre conectada aos trechos do livro.

    Em todas as instalações, Bia recorreu à tecnologia acessível e ao espírito inventivo brasileiro para criar um contraste marcante com os recursos de alta tecnologia utilizados no restante do museu. O percurso incluía:

    Interlocutor – O visitante subia em um mirante de entulhos, de onde só era possível ver um texto completo ao alinhar placas de acrílico repletas de sinais fragmentados.

    Fragmentos – Trechos do livro apareciam sobre paredes e tapetes de tijolos irregulares, desafiando o público a se mover para captar os sentidos das frases.

    Diabo – Em cantos escuros, frases inquietantes eram escritas às pressas sobre tapetes de terra, evocando o medo e o mistério da narrativa.

    Sertão – Um grande mapa de cidades reais e imaginárias ocupava uma das paredes, e o público, ao olhar por um monóculo, via imagens de metrópoles mundiais, sugerindo a universalidade do sertão rosiano.

    Guerra – Tábuas bordadas com lã vermelha retratavam os conflitos do romance, com palavras que pareciam escorrer como sangue, evocando o embate entre Riobaldo e Hermógenes.

    Diadorim – A instalação, baseada no encontro no rio entre os protagonistas, usava galões de água e projeções espelhadas, revelando trechos do livro que só podiam ser lidos com um pequeno espelho preso às laterais.

    Riobaldo – O módulo dedicado ao narrador foi instalado nos banheiros, onde não havia divisão entre masculino e feminino. Azulejos formavam enigmas com letras e palavras, enquanto telas nas cabines exibiam depoimentos de nomes como Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Paulo Mendes da Rocha, refletindo sobre a importância do livro.
    Próximo a saída dos banheiros, o espectador era convidado a se sentar em bancos de praça para ouvir a leitura que Maria Bethânia fazia das páginas finais de Grande sertão: veredas. A escolha da cantora se deu por sua forte ligação com a literatura e sua familiaridade com a prosa de Guimarães Rosa. Telas instaladas no espaço exibiam imagens de Bethânia ofegante, respirando intensamente instantes antes de subir ao palco. Misturadas à leitura dos momentos finais de Diadorim, essas cenas reforçavam o conceito que permeava toda a exposição: tudo pode ser recomeçado — é sempre possível reler, redescobrir e alcançar um novo entendimento.

    As janelas da sala também receberam uma intervenção artística. Uma espécie de prateleira projetada para fora do edifício apresentava os “Ensaios para a obra”, evocando as diversas tentativas de Rosa para fazer com que seu Grande sertão alcançasse o mundo.

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    Créditos

    Organizer
    Museu da Língua Portuguesa RealizaçãoOrganization
    Curator
    Bia Lessa Concepção e Direção GeralPerson
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    João Guimarães Rosa HomenageadoPerson
    Maria Bethânia Participação EspecialPerson
    Marily Bezerra ConsultoriaPerson
    Camila Fabrini Desenho EspacialPerson
    Marcos Sachs Direção de ArtePerson
    Júlio de Paula Som AmbientePerson
    Dany Roland Som AmbientePerson
    Victor Borysow Pesquisa - IEBPerson
    Monica Gama Pesquisa - IEBPerson
    Lúcia Loebb Fotografias manuscritoPerson
    Maurizio Zelada CenotecniaPerson