O vídeo apresenta uma entrevista com diversos intelectuais, artistas e professores que falam sobre os usos e origens de "palavrões" na língua portuguesa do Brasil.
Português brasileiro livre de palavrão não tem sentido. Eu acho que empobrece a língua de uma maneira que é muito artificial. [música ao fundo] Na hora de uma coisa como uma topada, que é uma coisa do dia-a-dia, rotineiro, não há como se expressar com palavras ditas normais de uma topada. Tem que ser no mínimo um “puta que pariu!”, “buceta!”, “caralho!”, “foda!” Aí tem um sentido, não é só o sentido da linguagem, da língua, tem um sentido terapêutico absurdo. Eu me curo um pouco a cada “puta que pariu!”
Vou usar um exemplo: os ouvintes e surdos usam essa mesma gestualidade – me perdoe, vou ter que demonstrar. Embora seja a mesma gestualidade, tem uma pequena diferença, quando é feita por um surdo ou por um ouvinte. A maioria dos surdos faz desta maneira, repare na minha mão: Já os ouvintes fazem assim: segurando os dedos. Alguns... em palestras... ou até em escolas, fazem modificação na gestualidade, mostrando o mesmo sinal de forma mais discreta: Ao olhar este sinal, podem achar que é “mão de vaca” e que não se trata de um palavrão, mas pelo contexto acabam percebendo ser um palavrão e questionam por que foi gestualizado assim. Porque é uma forma visual também, mas mais discreta. Veja este como também é mais visual. [música ao fundo] Xico Sá, jornalista e escritor No Nordeste tem muito palavrão, eu lembro mais dos palavrões ligados... a gente tem uma série de palavrões ligados a pestes, a doenças antigas, como “estampou-calango”, “moléstia das cachorras”, “peste-bubônica”. Que as novas gerações nem sabem mais o significado, mas tornam a repetir, sabem que ela tem a força do palavrão. Por exemplo: “Febre do Rato”, que é até um filme pernambucano do Claudio Assis. “Febre do Rato”, pro meu pai, ele era muito palavrão, ele vinha com a força do palavrão. Hoje significa, inclusive, que é uma coisa do caralho, é maravilhoso, é sensacional, é da “febre do rato”.
Se você falar assim: “Olha, eu fui lá no cinema e vi um puta-filme!” O “puta” aí não é palavrão, passa a ser uma coisa, um realce. Agora, o palavrão, ele depende da intenção, é a maneira como você coloca na frase, né? Se você usar um eufemismo no lugar do palavrão, por exemplo, se você usar, em vez de “puta” ou de “prostituta”, que é a forma erudita, se você usar “prestadora de serviços sexuais remunerados”, por exemplo, você pode xingar. Você pode dizer: “Sua prestadora de serviços sexuais remunerados!” Dependendo do tom com que você fala, você está xingando do mesmo jeito. Então, o palavrão não está na palavra, tá na intenção. Xico Sá, jornalista e escritor O próprio “porra”. O “porra”, hoje, ele é quase uma... Ele é um pinduricário da língua brasileira, do português falado no Brasil, que você bota uma vírgula e você fala ele dez vezes numa frase. “Porra, vamos amanhã, hein, porra?! “Porra, é da porra...” “Isso é da porra!” “Vamos ver um filme da porra!” Então, era mais palavrão, hoje ele é adjetivo pra uma coisa boa, ele é da hora da explosão: “Porra!”
Nossa cultura é diferente! A maioria dos surdos tem uma forma de se comunicar direta, e os ouvintes não gostam. O ouvinte reclama, dizendo ser uma forma mal-educada de se comunicar. Vou exemplificar como uma criança surda pede pra ir ao banheiro: “Eu vou ao banheiro fazer cocô”. Ouvinte não gosta que fale “cocô”. Ouvinte fala: “eu vou ao banheiro”, no português. Outro exemplo que ouvinte não gosta é que se pergunte a idade. Acham falta de educação fazer essa pergunta. Outra situação que os ouvintes também acham ser falta de educação: “Nossa, você engordou!” Mas dentro da cultura surda, essas perguntas são comuns, perguntar a idade, mesmo não tendo intimidade, ok!
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