O vídeo apresenta diversos intelectuais, líderes indígenas, escritores, linguistas e professores que discorrem sobre as imposições da língua portuguesa aos povos indígenas, aos povos da diáspora africana e pessoas com deficiência.
Na nossa floresta Yanomami, não tem papel, caderno, lápis, caneta, borracha, quadro... Nós também não sabemos fazer essas coisas... Nós sabemos falar. Nós falamos, conversamos, fazemos diálogos cerimoniais, xamanismo. [música ao fundo]
Como era uma outra humanidade, num outro mundo, o discurso, a lógica, a perspectiva daquela humanidade era tão diferente daquela que chegava, que durante muito tempo não teve diálogo mesmo. Uns falavam português e os outros falavam Tupi, falavam Krenak, Xavante, Yanomami, Pancararu, Kiriri, Pataxó, Xukuru, e toda uma legião de povos que os linguistas dizem que tinha cerca de entre novecentas e mil e cem falas distintas. Seria como você chegar num bosque e você começar a escutar o Sabiá, o Bem-te-vi, o Curió, o Pica-pau e começar a escutar tudo quanto é vozes e tudo quanto é sonoridade e ficar ali tentando entender se aquilo é uma orquestra ou se é uma cacofonia que tá acontecendo ali. Inclusive algumas das línguas nativas, algumas das línguas maternas que subsiste, algumas expressões são literalmente a fonética da voz de um pássaro. [música ao fundo]
A imposição do português se deveu às relações de dominação, e de trabalho forçado, e de aculturação da população indígena e da população africana escravizada. Como esses indivíduos eram descaracterizados culturalmente, desconstruídos enquanto pessoas, né? Porque o escravo era reduzido à condição de peça, então ele não tinha identidade, ele não tinha família, ele não tinha língua.
Quando você mata uma cultura, você mata um povo. Era isso que Abdias do Nascimento estava falando em “O Genocídio do Negro Brasileiro”, que genocídio é toda forma de aniquilamento, seja ele político, cultural... Quando você mata uma língua, você está matando um povo, você está matando uma cultura, você está matando um povo e justamente é esse processo violento mesmo da colonização que é a imposição, né, pela violência para legitimar o discurso do vencedor. [música ao fundo]
Eu quero falar sobre diferença e falta muita informação no que diz respeito à lingua brasileira de sinais (Libras). É muito complicado, porque a dominância do português é poderosa, é uma construção de muitos anos. A gente também pode falar das questões indígenas, das questões raciais, todas essas especificidades das línguas e das linguagens que sofreram influência do português.
No final do século XIX, as classes dominantes no Brasil, com seu projeto racista e branqueador, elegeram como a língua padrão a norma da língua literária, da língua considerada modelo, o português falado em Portugal, então isso criou um problema que foi se agravando com o tempo. Inclusive, muitas das nossas gramáticas, por exemplo, dizem que a forma normal, a posição normal do pronome átono é a ênclise: “Parece-me que é assim”. Então o pronome vem depois do verbo, “parece-me”, mas essa é a posição normal do pronome no Brasil, na língua portuguesa do Brasil? Como é que nós falamos essa frase: “Me parece que não é assim.”
Eu gosto muito dos percursos que as palavras vão assumindo ao longo dos tempos, né? Eu acho que quando a gente assume essa perspectiva da gramática normativa, do dicionário, a gente acaba muitas vezes se fechando pra ver a beleza das novas formas que elas vão tomando. Então, um dos exemplos que eu gostava muito era sempre comparar floresta, a gente acostumou a olhar para essa palavra como “floresta” e traduzi-la em inglês para forest, e italiano foresta, sem perceber que nesses dois idiomas não tem um “L” ali entre o “F” e o “O”. Em espanhol e em português sim, porque na Península Ibérica houve uma contaminação de sentidos que atrelou a palavra do latim vulgar “foresta”, que é o antecedente de “floresta”, à ideia de flor. Então, imaginava-se que tinha flor ali, e por conta disso, então, começamos a falar floresta, ou seja, uma transformação dessa palavra que enriquece isso, né? E torna também essa palavra única quando a gente compara com o inglês, a versão inglesa, a versão italiana, ou seja, é um barbarismo e ao mesmo tempo uma coisa linda, preciosa.
Eu sou professora de Libras e é muito perceptível essa transformação da língua. Por exemplo: havia uma sala, com uma professora surda, a qual teve um atrito com uma aluna ouvinte. A professora veio até mim e disse: “Ah, essa aluna ouvinte é difícil, porque ela aprendeu Libras de forma errada!” Perguntei: “É? Mas qual o sinal?” A professora me respondeu com o sinal “doce”. Quando vi, senti saudade daquela época! Antigamente, nas escolas de surdos, essa sinal era utilizado para “doce”. Eu perguntei para a professora: “Sua aluna é uma mulher mais velha?” Ela respondeu “Sim, sim!” Então fui lá perguntar para a aluna: “Quem foi a professora que te ensinou esse sinal? Que saudade, esse sinal é antigo, eu tinha esquecido!” Esse sinal foi a forma como ela aprendeu. E, hoje, usamos esse sinal para “doce”.
A língua portuguesa no Brasil tem mais de 500 anos. A Libras no Brasil tem 20 anos... por aí. Humm... 2002 até agora... desde que foi reconhecida legalmente e difundida. Consegue perceber a diferença? Uma está presente há 500 anos, a outra há 20. São 500 anos de uma língua reconhecida e permanente, e que tem 20 anos chega lá e se mostra!
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