Educadores de diferentes faixas etárias e regiões do país se apresentam dizendo seus nomes. Ao longo do vídeo, compartilham suas vivências com o ensino, relatando experiências que acontecem em distintos contextos: dentro da sala de aula, no ambiente familiar, em comunidades indígenas e em outros espaços de aprendizado.
Na minha família, à noite, quando meus irmãos vinham da lavoura, eu ia pouco, porque eu era das menores, das mais novas. A gente, meus irmãos, tomavam banho na bacia de água que a minha mãe esquentava, jantava, daí a gente sentava perto do fogão à lenha e ficava ou rezando ou cantando repente. Minha mãe falava repente, que era a construção. Cada um criava um versinho ali na hora e cantava. E entre um verso e outro, ela cantava assim: “Olha o bambu do bambu do bambuê, olha o bambu do bambu do bambuá, olha o bambu do bambu do bambuê, bambuê, bambuê, bambuê, bambuá” [cantando] Daí alguém entrava com um versinho, cantava nesse mesmo ritmo. Acabando aquele versinho, todo mundo cantava o “Bambu do Bambu do Bambuê”. Então a minha coisa poética, eu acho que já vem daí, né? E a minha mãe era poesia pura. [música ao fundo] Eu tenho até um poema que diz assim, olha: “Gosto da inocência dela. Benze crianças, faz simpatia, reza chorando, chora rezando. Apanha rosas, tira os espinhos e coloca nas mãos de meninos doentinhos. Conta histórias longas de negros fugidos no chão do país. Crê na independência e é tanta inocência que até hoje pensa que acabou a escravidão.” [declamando] [música ao fundo] [som de pássaros ao fundo]
Bom, eu considero que tive professores, e tenho, importantes. Só que do mesmo jeito, o pai deles é Deus. Porque a teoria, ela tinha que ser como um papel para se escrever depois de tudo. Não se usar primeiro para depois de fazer as outras coisas. É tudo o contrário. Então eu não sou assim porque nasci assim. E digo para você, sou 100% intuitivo. Nasci não músico só, nasci música. Que Deus me botou no mundo pra isso. [música ao fundo] [som de pássaros ao fundo]
A criança vai aprender a ler e escrever, se aquilo fizer sentido para ela, se ela estiver rodeada dessa necessidade. E ela não vai aprender a ler e escrever se ela tiver uma crença bem grande que ler e escrever não é para ela. Então, os analfabetos, eles provavelmente carregam essa crença: “Não é para mim, apesar de eu estar rodeada de letras. Nunca ninguém me ensinou, como é que eu vou saber?” Mas quando você tem a oportunidade, como eu tive, de conviver com um analfabeto adulto e você só tirar essa crença. E ele vê: “Mas isso eu já sabia fazer. Ler isso eu já sabia, só não sabia que eu sabia.”
Faz muito tempo que as pessoas não me perguntam: “Que escola você estuda?” Faz um tempo isso. Mas quando me perguntam, aí às vezes ela chega e fala assim: “Mas como assim? Como você faz? Aí eu: “Estudo, mas em casa.” Tião Rocha (Belo Horizonte, MG) Para aprender você tem que fazer perguntas. São as perguntas que te tiram do lugar. Então nós percebemos que a gente tinha que fazer cada vez mais perguntas que nos levassem à ousadia de fazer o não feito ainda. O novo e tal.
Eu perguntava mais, não era eu... Não era aquela... Ela sempre me incentivou, mas eu que queria. Então: “Ah mãe, me ajuda a fazer tal conta, me ajuda a saber tal coisa.” E aí ela ia e me ensinava. Tião Rocha (Belo Horizonte, MG) E aí a pergunta que nós nos fizemos foi: “Será que os meninos e meninas podem aprender tudo o que eles precisam aprender? No seu tempo e no seu ritmo, brincando de forma alegre e prazerosa? Ou se a escola tem que ser um serviço militar obrigatório aos sete anos?” Depois passou para os seis, conseguiu piorar.
Ninguém aprende nada sozinho, mas ninguém é ensinado a nada. Então, a partir daquele seu impulso de aprendizagem, você vai atrás de infinitas relações que te levam a desenvolver aquilo que já tá vibrando dentro de você. E aí, nesse processo, eu acabei me vendo em casa com os meus filhos fora da escola, e como educadora, assumindo essa responsabilidade, nunca sozinha, sempre em comunidade, sempre na sociedade, sempre aberta para tudo o que aparecia de fora, de casa.
Eu juntei 120 meninos, de 7 a 17 anos, em Curvelo, na barraquinha de São Geraldo, e fiz a seguinte proposta para eles: “Vocês topam aprender tudo o que vocês precisam aprender, brincando?” Aí um gaiato falou assim: “Ô Tião, cadê os brinquedos?” Eu falei: “Não tem.” Ele falou: “Como é que a gente brinca sem brinquedo, cara?” Eu falei: “Essa é a primeira questão. Vamos fazer uma aposta? No dia em que nós não conseguirmos mais inventar os próprios brinquedos, eu começo a comprá-los. Topam?” Eles toparam. [música ao fundo]
Ensinando pras crianças, no primeiro aninho: “Para baixo e para cima”. Quando eu falava “para baixo”, eles tinham que agachar e “para cima”, levantar. E uma aluninha, recém-chegada do Nordeste, ela ficava assim, sem compreender o que eu tava falando. Aí eu fiquei observando, aí quando eu falei para ela: “Despenca”, ela agachou. Eu: “Arriba”, ela levantou. E ali, criou um vocabulário, porque é o dialeto exatamente nosso, pelas regiões. E ali, a brincadeira e a aprendizagem até aumentou, porque daí ficaram quatro formas. Aí eu expliquei para ela: quando eu falar “pra baixo”, é a mesma coisa que “despenca”. Quando eu falar “para cima”, é “arriba”. E para os outros alunos que já eram daqui da região sul, sudeste, também ensinei. E aí ficou a brincadeira, a aprendizagem ali, maior. [som de pássaros ao fundo]
Nós tínha a língua oral. Nós não tínha a língua escrita. E quando a gente foi ver, nós tínha “a, b, d, e, h, i, m, n.” Então você vê que vai cortando. Tem algumas letras que não aparecem no nosso alfabeto. Então, mãe, como é que é mãe? “Ua.” Pai, “Upa”. “Vari”, é sol. “Bari”, Cotia. “Awa”. Então, através do alfabeto, você vai formando as frases. E aquilo pra nós foi um encanto, né? Porque a gente falava: “Nossa, que coisa linda, a gente não sabia que nós tínha tudo isso!” Marcia Mura (Nazaré, RO) E aí, quando eles vão escrever “patuá”, “ingá”, “puruí”, “abacaba”, aí eu demonstro pra eles: “Isso aqui não é português. Isso é Tupi, isso é indígena.”
Nós escrevemos esse livro. Como o índio deve dialogar na cidade, com os bancos, para tirar documento no cartório, para atender telefone, né? Então, o básico, e a gente escrever um livro: “Aprendendo português na escola da floresta.” Que era a primeira vez, né? Como a gente lidar. Porque tem o português local, tem o português daqui de Rio Branco, tem o português de outros estado. E a gente também não quer desmerecer o português dos nossos parente. Até porque tem indígena, que eles falam a primeira língua, é a língua indígena. Então, o português, porque ele fala errado, trocado, como se diz, entre aspas, isso não importa para nós. O que importa é se o cara sabe da sua língua. O português já é a segunda língua. [música ao fundo]
Essa visão de educação, que é muito diferente da instrução, isso eu acho que a gente tem que distinguir muito bem. Instruir alguém sobre alguma coisa é, você tem uma série de informações, uma série de conteúdos, já todos sistematizados, que aquela outra pessoa ainda não teve oportunidade de adquirir.
Eu fui professor durante a minha vida quase toda e dei aula em todos os níveis. Primário, ginásio, segundo grau, terceiro grau. Dei aula na graduação, dei aula no mestrado, dei aula no doutorado, no pós-docto. Um belo dia eu era professor na Universidade Federal de Ouro Preto, eu tive uma coisa que os americanos chamam de insight, mas nós mineiros chamamos é de “clarão” mesmo. E eu cheguei na universidade no dia seguinte e falei: “Chega, a partir de hoje eu não quero ser mais professor.” “O que o cê quer ser, Tião?” Eu falei: “Educador”. Eles falaram: “Educador e professor são sinônimos, é a mesma coisa, ganham o mesmo salário. Eu falei: “Não, são coisas diferentes.” “Qual a diferença?” “A diferença é que o professor é aquele que ensina, o educador é aquele que aprende.” [música ao fundo]
O que a gente considera como educação é uma outra coisa. Vem da própria palavra. A palavra vem de “ducor”, “educere”, do verbo latino que quer dizer “conduzir”. [música ao fundo] Hermeto Pascoal (Lagoa da Canoa, AL) O sentir tem que estar na frente. Porque o sentir, se você sente uma coisa legal, entendeu? Não é depois daí pra frente, tudo o que você quiser fazer, você vai ter mais segurança. É a intuição, é da intuição que vem o sentir. Tudo isso aqui, acima, que eu chamo, acima da cabeça. E aí o que que acontece? Eu faço as coisas que eu faço. Tudo que eu faço não tem premeditação. Eu não quero premeditar porque estou mentindo pra mim mesmo. Eu estou mentindo, porque na hora que eu faço, eu faço uma coisa que, se eu premedito pra fazer depois, não é a mesma coisa. Eu não considero a mesma coisa. Se for a mesma coisa, é teórica. [sons de vozes de crianças e objetos]
Eu gosto muito de ler. Aonde você me encontra, eu estou com o livro na mão. O que eu estou fazendo no nono ano e no oitavo ano? Eu estou levando meus livros e dando pros alunos. E eles tão achando maravilhoso. É uma leitura diferente e eles tão adorando. É isso. Aí quando chega numa produção, ele já se sai muito melhor. Porque se você não ler, o seu vocabulário é mínimo. Então, a leitura em si, ela é primordial.
Eles vêm ainda mais com toda uma gama de informação muito grande, num contexto até por conta da tecnologia, das redes sociais. E é isso que nós, enquanto profissionais da educação, temos que estar atentos e usar essa tecnologia a favor da escola, e não a desfavor. Para poder exatamente ter a linguagem dos jovens, ter a linguagem dessas crianças.
Se faz necessário o encontro com produtos feitos em diferentes linguagens. Hoje, eu sou uma professora aposentada, mas eu não consigo me descolar do processo de leitura que envolve crianças e jovens ao par e passo com o livro impresso, deixado por esses leitores em segundo e terceiro plano, mas que estão envolvidos com games. A gamificação da existência, ela atinge diretamente as crianças e os jovens, uma vez que, em essência, se trabalha com narrativas.
Eu vivi sempre atrás das palavras. As palavras eram muito mais importantes do que hoje. Havia muito menos imagem, claro, já tinha cinema. Eu me lembro perfeitamente de ter visto “A Branca de Neve e Os Sete Anões”, do Walt Disney, mal ele acabou de ser feito, que foi uma coisa. O “Bambi”, não sei... Mas era assim, você ia ao cinema uma vez na semana, era uma coisa comum e pronto, não tinha essa invasão de imagem.
As crianças e os jovens estão envolvidos plenamente com os youtubers. Tanto as pequenas como os jovens, eles querem a sensação da fala do youtuber. Não só os pequenos, mas os jovens. Se essa fala é mais ou menos profunda, para eles não interessa. Interessa que ela seja agradável, que ela diga do seu dia a dia. Eu não fico assustada porque eu sou um ser do tempo. E o ser do tempo precisa acompanhar as mudanças.
Eu, propriamente, já sou um desafio. Porque negra da periferia, mulher transexual, né? E estar nesse espaço, na educação, estar na escola, e sabendo que, historicamente, foi negado há muitos anos para negros, pessoas da periferia, pessoas com a sua orientação sexual diferente da norma binária, e ainda identidade tão diferente. Então, eu acho que isso já é um grande avanço.
Todos os dias que eu vou dar aula, eu coloco meus adereços indígenas, faço meu risquinho no olho. E elas acham bonito. E elas acabam, principalmente as meninas, construindo uma identificação com a professora que é Mura. Tanto que eles só me chamam de professora Mura. E quando eu entro na sala, eu falo: “Puranga Ara, curumins e cunhatãs!” E eles respondem: “Poranga Ara professora Mura!” [música ao fundo]
Arte eu aprendi com minha mãe, interpretar foi com minha mãe. Minha mãe estava chorosa: “Ai, não sei o quê, Dória” , que era meu pai, “Dória, os meninos vão pras festa, vão pro lugar, a gente não tem nada. Como é, Dória, me arranja algum dinheirinho, alguma coisa. Olha, como é que eu tô, não sei o que!” E aí, meu pai, meu pai muito sisudo, disse: “Mas Maria, eu não vendi laranja, não vendi alguma coisa da roça. “Não, mas como pode? Não pode, não pode. Eu estou aqui me desmanchando, eu acho que eu vou ter um troço.” Daqui a pouco meu pai: “Tome, Maria.” Aí minha mãe saiu, disse: Vamo, vamo bora, vamo bora. Eu disse: “Mãe a senhora não tava chorando?” “Que chorando? Eu queria o dinheiro do seu pai, cala a boca!” [música ao fundo] “Mas primeiro que tudo, e segundo que nada, eu quero apresentar para vocês o maior espetáculo da Terra!” [interpretando]
Quando você vê uma coisa, seje você. Você nunca pode ser outro. Quando você é outro, já saiu de você, e olha, que é difícil voltar.
Minha mãe não gostava que a gente fizesse essas coisas, que teatro é uma coisa muito simples. Mas minha mãe, uma vez já doente, ela morreu nova ainda. e ela foi assistir a gente. Foi, sentou e ... Aí quando acabou eu disse: “E aí mãe, o que foi que a senhora achou?” “É isso que você quer, José Augusto?” Eu disse “É...” “Então faça, mas faça bem feito!”
Nós temos que ser nós. Deus botou cada um de nós no mundo como um Deus de si. Um Deus de si nós somos, cada um.
Eu sou como eu sou, pronome pessoal intransferível, do homem que iniciei na medida do impossível. Eu sou como eu sou, agora, sem grandes segredos dantes, sem novos secretos dentes, nesta hora. Eu sou como eu sou, presente, desferrulhado, indecente, feito um pedaço de mim. Eu sou como eu sou, vidente, e vivo tranquilamente, todas as horas do fim. [declamando]
Bom, meu nome é Lucas Afonso, sou MC de São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo, tenho 26 anos. Além de ter o meu trabalho enquanto MC dentro do Rap, eu faço um trabalho como arte-educador. Eu ministro oficinas de poesia para jovens de 12 a 17 anos. São jovens que estão em medida socioeducativa, jovens que entraram em conflito com a lei.
Olha, no momento eu estou coordenando um projeto de inclusão universitária, batizado com o nome de “Preenência Duke”. É um projeto voltado para os alunos das escolas públicas, uma vez que eles levam desvantagem em relação aos alunos das escolas particulares.
Os moleque, às vezes, quando eu vou falar de poesia e literatura, os moleque fala: “Ah, não sei, não conheço, não gosto.” E aí a gente vai passando, vai entrando e tal, daqui a pouco chega no Rap, ou chega no Funk, ou chega no Samba. Aí, pô, isso é ou não é poesia? E aí eu sinto que o desafio é mostrar que eles já conhecem poesia, que eles gostam de poesia, eles só não entenderam ainda que o que eles gostam é poesia. E daí sim, lá na frente o moleque vira e fala: “Pô, agora entendi tudo! Machado de Assis também foi um cara zica, monstro, da hora! Agora eu entendi.”
E também levamos aos presídios, para as pessoas privadas de liberdade. Olha, durante esse período aí, é desenvolvido também, tá certo? Toda a prática de leitura e de escrita, de tal maneira que nós já tivemos até presos que chegaram a publicar livros. Nós tivemos um que publicou um livro, inclusive pela nossa editora, pela editora Quimera, o “Jacaré Bitonho”, não é? Que, vamos dizer, é um livro de fábulas.
Recentemente eu pude inscrever, eu não, né? A gente se inscreveu num concurso de poesia, um rapaz de 17 anos que tem muita dificuldade com escrita e leitura. E aí, como é que a gente pegou a poesia desse menino, que estava aqui, e passou para o papel? E aí foi um processo, um trabalho de escuta mesmo. Eu percebi que ele tava com muita dificuldade de escrever, colocar no papel. Eu falei: “Pô, vamos fazer o seguinte, me dá o papel e a caneta, me fala a sua poesia.” E aí, tipo, fluiu, assim, de uma forma incrível.
Porque eu acho que o papel do professor é esse daí. É descomplicar a vida do aluno. É pegar aqueles conhecimentos que, às vezes, os alunos consideram difíceis e torná-los, tá certo, fáceis. E o que é mais interessante é levar o aluno a gostar da disciplina que você leciona. Mas, acima de tudo, a fazer a leitura correta do Brasil e do mundo. Porque, como diz Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura das palavras.”
“Ó, certo dia, estive em uma manifestação. Tomei um soco na cara no meio da confusão. No outro dia: jornal! Me vi na televisão. Policial agredido com cabeçada na mão? Os fins não justificam os meios de comunicação, se a versão de quem oprime vira nossa opinião? É fácil confundir quem bate com quem te estende a mão. Se te oferecem o céu te empurrando pro chão, não vai fazer gol contra e sair comemorando pelamor! Até torturador tão homenageando. Dois mil e pouco, os ratos saem pelos cano. O opressor tem medo de ver o oprimido levantano e bateno no peito, gritano: “É nóis, nosso povo sagaz.” Desespero pro algoz, mas... Eles venceram. Sinal fechado pra nóis. Ainda vivemos como nossos pais ou nossos avós. Exalto a voz, solto meu verso na rua. Correndo o risco do após. Sozinho em noite sem lua. Sei que a maldade é veloz. O mal também não recua. Mas não estamos a sós. A luta continua.” [declamando] [música ao fundo]
Eu acredito que pra pessoa ser poeta, ela precisa ser sensível. Ela é sensível ao espaço que ela está, ela é sensível ao mundo que ela vive, ao recorte de povoamento. Então, eu, como uma mulher preta, e como mulher, eu falo desse lugar. E isso pra mim significa eu usar as poesias e as palavras pra conseguir me expressar e de algum jeito me conectar a outra pessoa. Eu acho que o ser poeta é isso, você acaba fazendo conexões com outras pessoas e com outro mundo, de acordo com a sua vivência, mas que é uma vivência coletiva, tem a ver com o outro também. Então, não é só a minha dor, não é só a minha alegria, é uma dor e uma alegria coletiva, na verdade. Ser arte-educadora é você conseguir trabalhar com o potencial criativo que as pessoas têm. Eu tenho a minha maneira de fazer poesia, mas tem pessoas que usam o desenho, tem pessoas que sabem dançar, que gesticulam, que cantam. E é isso, você trabalhar com a possibilidade de que as pessoas são. Como que a pessoa traz esse mundo interior dela pro mundo exterior? Eu acho que isso é ser arte-educadora e precisa ter muita paciência pra lidar com isso. Eu acho que é isso.
Eu já ganhei até prêmio de educador aqui, educador do ano, mas eu preferia ganhar o prêmio de carnavalesco do ano, né? Porque o “Ilêaê” foi fundado com esse objetivo de, através do carnaval, combater o racismo aqui na Bahia, né? Mas por conta do projeto social, que foi idealizado não por mim, mas por minha mãe, que só queria ser carnavalesco, começou lá no terreiro, na independência do terreiro, com as crianças lá. Depois ela criou a “Banderê”. No outro turno, esses meninos ficam sem fazer nada, então bota pra aprender a tocar tambor. Aí formatou o projeto de extensão pedagógica, né? [música ao fundo] [uma criança diz para a outra: Você já tem seus brinquedos.] E tem uma música, por exemplo, que diz: “Vamos nos unir pra se somar, jamais dividir, só multiplicar, pra iludir e acabar com o colonizador. Apartheid não!” As músicas sempre são muito... É por isso que as nossas músicas não tocam na rádio da Bahia. Porque eles sabem que as músicas, além de ser comerciais, são muito bonitas, mas também são músicas de empoderamento, né? Se essas músicas fossem executadas com frequência, a revolução já tinha acontecido com muito mais força e há muito mais tempo.
“Sinhá! Por que que eu vejo os meus morrendo todo dia? Meu povo parece gado marcado, cordeiro e molado. Dai à César o que é de César. Eu cansei de perder a batalha se nem ter entrado na guerra aos preto. A sua Santíssima Trindade, aos preto a morte, a margem ou a grade. Cês vão tudo pro inferno e hoje eu vou fazer alarde. Eu faço poesia em praça pública, grafito nas ruas a cor do meu pranto e ninguém vai dormir nessa cidade até Rafael Braga do meu bando ser canonizado santo. E se os pretos se juntar, aí tu guarda teu colarzinho de pérolas ou de swarowskis sinhá, que sua cabeça hoje vai ser meu patuá! Ei, blacks and whites and the niggas, nigga, nigga, nigga. Ah, cansamos de interpretar, só vai ouvir nosso gemido quem nos fizer gozar. E eis que te digo em verdade, eu grito pro mundo todo que sou preta, mas não tiram o “parda” da minha identidade. É que eu sou a voz do surdo, não mudo, da favela em surto, a lâmina no pus, cês não quer ouvir. [sons de pássaro ao fundo]
À partir do momento que eu tomei consciência da violência que é a imposição da língua portuguesa, eu digo é, porque não foi, ela continua sendo. Eu... Eu me sinto... De uma forma que ao mesmo tempo que eu faço a resistência à língua portuguesa, procurando trazer presente as nomeações que os nossos avós nos passaram, mas, infelizmente eu tenho que me utilizar da língua portuguesa pra poder comunicar aquilo que eu penso e a minha própria resistência. [sons de pássaros ao fundo]
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