Museológico

O Paraíso são os Outros

2014

Identificação do documento/obra

Tipo documental
AudiovisualVideoGênero Documental
Código de Inventário
noli_aud_84
Título
O Paraíso são os Outros
Descrição

Trechos do vídeo “Sotaques” de Miguel Gonçalves Mendes a partir do texto do livro “O Paraíso são os Outros” de Valter Hugo Mãe. O texto é lido por várias pessoas, homens e mulheres, de diferentes origens e países que falam português: Macau, Portugal, Moçambique, Timor-Leste, Brasil, entre outros.

Transcrição das partes:

Trecho 1 

Reparei desde pequena que os adultos vivem muito em casais, mesmo que nem sempre sejam óbvios porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteiras, há casais de mulher com homem, há de homem com homem e outros de mulher com mulher. Há também casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros, pinguins – que são absurdamente fiéis –, quero dizer: há casais de pinguins e até golfinhos que podem ser casais. Tudo por causa de amor. O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares. Mas amar é um trabalho bom.

Trecho 2 

Embora existam os que fazem festas, há uma infinidade de casais que não as têm e outros que nem dizem nada a ninguém. Vão viver juntos ou não. São casais, mas só eles sabem. Gostam um do outro, mas só eles sabem. Muitos amores são discretos. Deve ser como construir um prédio em algures onde nunca ninguém foi, para poder construir em segredo. Uma vizinha nossa desapareceu. Soubemos que estava apaixonada num país longínquo. A minha mãe diz que ela agora vive de pernas para o ar porque foi para o lado de baixo do globo terrestre. Eu imagino que a saia dela levante e seja difícil de caminhar. A coisa mais divertida de perceber: os casais não eram família antes. Eles eram gente desconhecida que se torna família. Mesmo que os filhos julguem que pai e mãe se conhecem desde sempre, isso não precisa de ser verdade. Os adultos apaixonam-se ao acaso, ainda que façam um esforço para escolher muito ou com muita inteligência. Já aprendi. O amor é um sentimento que não obedece nem se garante. Precisa de sorte e, depois, empenho. Precisa de respeito. Respeito é saber deixar que todos tenham vez. Ninguém pode ser esquecido. Por vezes, faço uma lista de nomes das pessoas importantes para

mim para lembrar delas. Mesmo que não lhes fale, penso em como estarão se bem ou mal, quando me parece que podem estar mal, telefono a perguntar. Quase sempre estou errada.

Trecho 3

O amor precisa de ser uma solução, não um problema. Toda a gente me diz: o amor é um problema. Tudo bem. Posso dizer de outro modo: o amor é um problema mas a pessoa amada precisa de ser uma solução. As pessoas que amam estão sempre com ar de urgência porque têm saudades quando não estão acompanhadas e sentem uma euforia bonita quando estão juntas. Eu acho que as pessoas apaixonadas sentem saudade mesmo quando estão juntas porque ficam sempre a olhar umas para as outras pasmadas como se fosse a primeira vez. Até como se fosse a primeira vez que vissem sapos, neve, cataratas, aqueles peixes voadores, jacarés, prédios com mais de trinta andares ou o Miguel a enrolar os olhos. As pessoas mais velhas, quando são um casal, dão beijos pequenos. As pessoas mais novas costumam dar beijos mais longos, cheios de paciência. Eu não tenho muita paciência. Devo ter a alma mais velha. Não sei. Também não acredito muito que beijar seja como construir prédios, embora alguns beijos pareçam cansar. Há casais que ficam mesmo sem ar, como quem andou a carregar tijolos. Não estou certa de que quero que me falte o ar ou de que quero carregar tijolos. Tenho muitas dúvidas. Quando me apaixonar, dizem-me fico logo esclarecida. Aguardarei, desconfiada. Não aceito as coisas à pressa, preciso de pensar.

Características

Suporte/Material
DigitalMaterial
Duração (HH:MM:SS)
00:04:24
Formato
MP4

Contexto de produção

Miguel Gonçalves Mendes produçãoPessoa
Valter Hugo Mãe autorPessoa
Local de Produção
Contexto de produção
O vídeo “Sotaques”, de Miguel Gonçalves Mendes, incorpora-se à experiência “Nós da Língua” ao demonstrar a unidade e a diversidade do português através de uma realização concreta. A obra utiliza a leitura do texto literário por falantes de distintas origens geográficas para evidenciar a multiplicidade de vozes e variedades que compõem a língua. Essa polifonia de sotaques e cadências não ilustra meramente diferenças fonéticas, mas revela a língua como um património comum e plural, em constante transformação. A instalação tem como um dos objetivos mapear as movimentações contemporâneas do português e problematizar a sua presença global. O vídeo conecta-se diretamente a este propósito, pois transforma a diversidade linguística em matéria narrativa e afetiva. A unidade do texto de Valter Hugo Mãe, compartilhado por vozes tão diversas, materializa a ideia de uma língua que, mesmo multiforme, permite a criação de sentidos e a expressão de universais humanos. Dessa forma, a obra sublinha a dimensão social e cultural do português, mostrando-o como elemento vivo de conexão entre povos e tradições.

Contexto e relações

Entrada do objeto

Data de Entrada
30/03/2020
Método de Entrada
Licenciamento
Valter Hugo Mãe
Proveniência
Jumpcut Lda
Motivo da Entrada
Para integrar o acervo de exposição do MLP, após o incêndio de 2015 e a reformulação da exposição de longa duração em 2021.

Relações