Depoimento do escritor angolano Pepetela, apresentado no episódio “Do Outro Lado do Mar” do programa Super-Libris, criado por José Roberto Torero e exibido pelo SescTV. No episódio, o autor reflete sobre literatura, memória e as relações históricas e culturais que atravessam o mundo lusófono.
Transcrição de trechos da entrevista:
Sobre a proximidade linguística entre Brasil, Portugal e Angola:
“Eu acho que gostaríamos de sermos irmãos, mas parece-me na realidade que somos primos.”
Existe uma lusofonia?:
“Pra já eu não gosto do nome lusofonia pq não diz nada. É uma cópia dos franceses e não diz nada. Agora, na prática, é claro que existe um relacionamento particular entre os nossos países. E sem dúvida há um sentimento comum de pertença. Mas falar de uma ligação assim tão abrangente como se fôssemos uma família, uma comunidade, como existe na prática a comunidade dos países de língua portuguesa… eu não sei se existe mesmo uma comunidade.”
Pontos de contato na literatura entre Angola e Brasil, coisas em comum que a gente tem?:
“Uma coisa em comum é mesmo até a maneira de usar a língua, é essa falta de respeito, entre aspas, que temos usando a língua portuguesa. Torturando-a, agredindo-a quase, né? E ela aceita perfeitamente. Isso é característico do brasileiro e do angolano. Um outro aspecto também é um uso muito grande do rir de si próprio, que é comum aos dois povos, rir facilmente das nossas próprias más coisas. Portanto, a utilização da ironia, da piada etc, eu acho que isso é muito comum. E, fundamentalmente, claro, perpassa nas duas literaturas a preocupação com o social, a realidade social. Isso aí é comum. Nós podemos tentar fazer qualquer coisa assim… de extraterrestre mas, no fundo no fundo, se vai ver, é a sociedade em que vivemos naquele momento que está ali presente no livro. Isso eu creio que é comum também ao Brasil e Angola.”
Fala sobre seu livro mais famoso, Mayombe (1979) e porque fez sucesso:
“Talvez porque foram os primeiros livros que apareceram sobre a guerrilha, na luta pela libertação pela guerrilha. Talvez… aliás não há outro sobre a guerrilha. Curiosamente outros escritores que viveram a mesma coisa, nunca escreveram sobre isso.”
E por que o senhor escreveu?:
“Eu escrevi porque naquele momento eu estava lá e escrevia sobre o dia a dia, tentando perceber o sentido daquilo tudo, daquilo que nós vivíamos, do que ia acontecendo. No fundo, procurando o sentido da história. Era um pouco isso. E aprendendo com as contradições, digamos, os conflitos, os sucessos, os exemplos de pessoas etc. E ia apreendendo a realidade, uma realidade que eu percebia que me escapava, constantemente. Era por necessidade, eu escrevia por necessidade. E aliás em péssimas condições: só podia ser à noite, não havia luz, era uma lamparinazinha, com um óleo qualquer de umas nozes que tínhamos na floresta, no caso do Mayombe, né?”
O Mayombe foi escrito à mão?:
“Foi. Em plena guerrilha, né? Escrevia e dois enrolava em plástico por causa da chuva – no Mayombe todos os dias chovia, né? E escondia num buraco, numa árvore. Todos os dias escondia lá. Às vezes partia em missões, 3, 4, 5 dias e aquilo ficava lá. Durante a missão, claro, era impossível escrever. Então, quando voltava à base ia lá buscar o manuscrito e relia um pouco e ia escrevendo.”
Não é estranho: quase morre durante o dia e escreve durante a noite?:
“É! É pra renascer!”
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